Counter

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O Como e o Porquê


Um ciclo menstrual beirando a uma derradeira TPM de emoções e descobertas

Homens, mulheres, amor, conflitos, genes e destino – em foco no espetáculo “O Como e o Porquê”. O texto, de autoria de Sarah Treem, retrata o delicado relacionamento entre a acadêmica Doutora Zelda Mildred Kahn – interpretada a partir de uma profunda imersão na personagem, por Suzana Faini – e a pesquisadora Rachel Hardeman, filha de Zelda que, ainda recém nascida, foi dada em adoção – defendida com garra por Alice Steinbruck.

O que de comum entre as desconhecidas figuras, em um primeiro encontro – o profundo mútuo interesse científico sobre os mistérios presentes no sistema reprodutor feminino e a descamação das paredes internas do útero quando da ausência da fecundação. Consequentemente, questões sobre menstruação e menopausa tornam-se o cerne do diálogo entre a bióloga consagrada e reconhecida no meio acadêmico e a pesquisadora em potencial, em busca de sua origem, tamanha é a sua admiração pela jornada profissional de sua progenitora.

O empenho da direção de Paulo de Moraes junto ao elenco e ao todo do espetáculo é transparente ao público, em especial,  a concepção do projeto cenográfico, de sua autoria, onde lança mão da linguagem simbólica através da disposição de oito cadeiras, em estilos distintos, sob fachos de luz zenitais recortados que, literalmente, enquadram as peças de mobiliário junto ao palco – uma possível alusão às etapas vencidas ao longo da vida acadêmica de Zelda; uma pequena cômoda de duas portas na cor vermelha acentuada por um banho de luz escarlate, ilustrando a temática do diálogo travado ao longo do espetáculo; pilhas de livros sobre o assoalho, sobre as peças de mobiliário e no chão, sob um antigo aparelho de telefone de disco em baquelite preto – revelando o saber e a dedicação à academia atrelados a todos os cantos da habitação, como um labirinto de sentimentos e ressentimentos que estão prestes a ter suas horas contadas. Três luminárias de chão complementam os adereços cenográficos como elementos que representam a luz do saber, consolidando o recurso da iluminação cênica, cuja assinatura de Manéco Quinderé o faz inconfundível aos olhos do espectador – definindo a dramaticidade presente no espetáculo como um ciclo menstrual beirando a uma derradeira TPM de emoções e descobertas. A trilha sonora de Bianca Gismonti mantém a calorosa temperatura do espetáculo, mesmo diante da frieza que distancia as personagens, permitindo a plateia adentrar as suas mentes e interpretar cada um de seus desejos em meio a todo aquele colóquio. Ratificando a distância entre as duas gerações, o figurino de Desirée Bastos desenha mãe e filha, conectadas pela relação consanguínea e pelo sangue que as aproxima através de suas veias acadêmicas .

A tradução de Alice Steinbruck contextualiza, a fundo, os sentimentos femininos, mantendo o equilíbrio entre a temática central da discussão em cena e a temática subliminar do espetáculo – o que, de fato, é o que importa no âmbito daquela estreita relação, apartada pelo milagre da maternidade nunca dantes desejada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário