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domingo, 29 de maio de 2016

Se Eu Fosse Iracema


Perguntas sem respostas, com reflexões sobre o que não tem reflexo.

Estruturado com base em depoimentos e discursos de indígenas brasileiros e mixado com narrativas literárias, cinematográficas e evocações políticas – mais precisamente, relacionadas à Constituição Federal de 1988 – o espetáculo “Se Eu Fosse Iracema” apresenta, em uma das salas do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Rio de Janeiro, uma selvageria poética temperada com metáforas sociais degustada pela plateia através de um único corpo – o da atriz Adassa Martins, que faz o contexto evoluir impulsionada por tantos outros, convidando o espectador adentrar a mata obscura sob a qual a atual sociedade se desenvolve, mas que não avança em suas lógicas argumentativas; que pressupõe noções de caráter religioso como base científica, mas que não inclui o dinheiro em qualquer plano subjetivo metafórico – seja o céu, o inferno ou o limbo.

A dramaturgia que se expressa através do monólogo é assinada por Fernanda Marques, cujo conteúdo denuncia a barbárie histórica praticada nos últimos quinhentos anos contra a civilização silvícola, agravada pelo decorrente desprezo pela causa indígena nos patamares políticos e sociais.  A direção de Fernando Nicolau é imagética e abstratamente escultural, visceral e devastadora – lançando mão da poesia proferida no idioma exótico adotado como oficial na Terra Brasilis, com enxertos no idioma tupi-guarani. Nicolau lança no breu que transforma a pequena sala de espetáculos em um espaço adimensional, perguntas sem respostas, com reflexões sobre o que não tem reflexo e se debate em um debate sem debatedor – um ato ousado, inquietante e incômodo aos olhos de quem se recusa a enxergar o próximo do qual os colonizadores portugueses, outrora se permitiram aproximar e dizimar, paulatinamente, até o limite de sua resistência. A iluminação e cenografia de Licurgo Caseira são recursos cênicos que se fundem, concebidos a partir de critérios que demonstram o zelo  para com a essência da produção –  acentuando a linguagem corporal de Adassa, imprimindo veracidade nos momentos enquanto caça e quando caçador, definindo cavidades lumínicas e quadros iluminados, definido ausência de luz em momentos de ausência de qualquer elemento, concreto ou abstrato, que possa refletir a luz, tornando o corpo de Adassa o cenário sustentável da narrativa, da denúncia e do escárnio que a civilização indígena vem sofrendo em seu habitat natural. O figurino de Luiza Fradin corrobora, a olhos vistos, para o enriquecimento dos recursos cenográfico e lumínico – uma saia longa e translúcida de material emborrachado, como se confeccionada por mágica matéria prima extraída dos elementos naturais disponibilizados pela flora nativa. O desenho de som de João Schimid imprime um caráter ficcional ao espetáculo, ao mesmo tempo que documenta as passagens dramáticas da história silvícola, ocorridas a partir da chegada dos portugueses à terra dos nativos. Adassa Marins, se desdobrando em uma diversidade de personagens, revela a intensa preparação vocal a qual se submete, sob a impecável preparação de Ilesi, em franca composição do espectro do conjunto da obra.

Iracema – “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, que nascera muito além de uma determinada serra que azulava no horizonte – é resgatada de um passado subjuntivo, em uma clara referência à submissão de uma indígena que, ao se apaixonar por um colonizador português, abandona família, povo, religião e Deus. Dizem, também, que o seu nome é um anagrama de América – uma possível homenagem à nova “civilização” que se encrusta em um novo mundo com promessas de uma possível inclusão social – não cumprida, até os dias de hoje.

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