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terça-feira, 3 de maio de 2016

Volúpia da Cegueira


“Incomoda, né?”

A abertura da sala de espetáculos do Teatro Maria Clara Machado, na zona sul do Rio de Janeiro, acolhe os espectadores e, simbolicamente, descortina a boca de cena sugerida pelo palco limitado por reluzentes faixas podotáteis. Acomodados em seus lugares e já adaptados à parca iluminação periférica e aos fachos de luz escarlate – que banham os elementos integrantes da composição cênica, além dos quatro atores que já se encontram em franco movimento performático, como se conduzidos por pedômetros virtuais – os espectadores compartilham de um momento de ansiedade e perturbação, promovido pela subtração temporária do sentido da visão. Sem o menor aviso prévio, mas silenciosamente, o breu se faz presente e toma conta das dimensões da sala de espetáculos, por tempo, aparentemente, indefinido – uma experiência comungada com os atores Aléssio Abdon, Felipe Rodrigues, Max Oliveira e Moira Braga; sendo dois, dentre o quatro, cegos. e os dois outros videntes, não necessariamente, naquela ordem. Ao fundo: o silêncio cortante sobre o que não pode ser visto, apalpado, identificado e, muito menos, avaliado; os pensamentos inquietantes que tomam a as mentes dos espectadores – cada um a seu modo; um estímulo auditivo lança a pergunta provocante – “Incomoda, né?”; o silêncio da plateia assume a sua condição como resposta, acompanhado pela cegueira consensual – promovida pelo recurso dos tapa-olhos distribuídos a cada um dos espectadores ainda no foyer, pelo simples cerramento dos olhos ou, pela contemplação da cegueira presente no interior de cada um, mesmo que não sejam fisiologicamente privados do sentido da visão.

A partir desse prólogo, o inusitado novo texto de Daniel Porto se materializa através do zelo de Alexandre Lino, que se entrega a mais uma produção teatral – dessa vez, assumindo as rédeas da direção do espetáculo "Volúpia da Cegueira". Nesse contexto, o recurso cênico auditivo, contemplado pela direção musical de Alexandre Elias, é dotado de qualidade sonora e dramaticidade compatível com os questionamentos daqueles que não veem através de seus próprios olhos e com os conflitos daqueles que, mesmo tendo seu sistema ocular em pleno funcionamento, não enxergam – por não terem sido orientados para tal ou, simplesmente, porque se recusam ver – mas somente seus problemas, aparentemente insolúveis no âmbito da conveniência de suas cegueiras. O desenho de luz de Renato Machado se sobrepõe aos atores e elementos cenográficos concebidos pelo projeto de Karlla de Luca, como se fosse uma segunda pele em benefício daqueles que se rendem ao estímulo visual, em contraste com aqueles que fazem valer seu direito à opção pela “cegueira lúdica” em prol do imaginário. Assumindo a concepção do figurino juntamente com a autoria do cenário, De Luca lança mão do simbolismo presente nas cores, nas expressões artísticas gráficas e no despojamento dos materiais têxteis, de forma subliminar, para aqueles capazes de observar a sensualidade presente nas vestes e a ausência de malícia da nudez em contraste com aqueles que se permitem reconhecer pelo toque dos dedos, com os que dependem da leitura táctil ou do imaginário para experimentar a sensualidade mesmo naqueles que se encontram vestidos ou, simplesmente, compreender os diversos significados do estar despido. Paula Feitosa se empenha na direção de movimento, essencial enquanto orientação, deslocamento pelo palco e expressões corporais e coreográficas e na interatividade entre os personagens, intuindo para alcançar os seus destinos – da mãe que testemunha o despertar da sexualidade do filho cego que entra na adolescência; do esposo que perde o sentido da visão e que, em função disso, se diz subtraído de sua virilidade; dos rapazes amigos, homossexuais e cegos, que se aventuram em avaliar fisicamente os jovens entregadores que batem à sua porta; da performance musical durante a qual, uma voz - que se faz ainda mais presente para aqueles que se abstraem visualmente da fonte emissora - entoa “Apenas Mais Uma de Amor”, de Lulu Santos

A direção de Lino é sensível, amigável, comovente e respeita o livre arbítrio dos espectadores quanto ao ato de vendar seus próprios olhos, mas acaba enquadrando toda a plateia como composta por indivíduos acometidos por deficiências visuais, de qualquer sorte, garantindo, aos que compõem o elenco, que jamais estarão a sós no palco enquanto encenam “Volúpia da Cegueira”.

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