Counter

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Procurando Dory


Uma memória relevante, a ser consagrada no futuro, com base no “esquecimento”


Um mergulho no passado, o resgate histórias submersas do esquecimento e lembranças de momentos que se foram e que jamais se farão presentes da mesma forma estão presentes no longa de animação “Procurando Dory” – a segunda parte de uma franquia deflagrada por “Procurando Nemo”, lançada pelosos estúdios Disney e Pixar.

Enquanto que, em “Procurando Nemo”, o protagonismo da história é delegado ao pequeno peixe-palhaço, cujo nome intitula a película, “Procurando Dory” é protagonizado por um peixe fêmea da espécie cirurgião-patela – muito embora, já durante o primeiro filme, Dory rouba grande parte das cenas, garantindo para si, o estrelato da atual produção, sob grande expectativa por parte do seu público.  Uma das características mais marcantes de Dory é o fato de sofrer de perda de memória recente – distúrbio adotado pelo roteiro com extrema suavidade e elevada carga de humor, conferindo-lhe carisma e garantindo à película, hilariantes cenas nas quais toma parte. Na atual produção, a memória de Dory lhe traz à lembrança, flashes de cenas de sua família, a qual não tem contado desde pequena e cujo paradeiro, desconhece por completo. A partir de então, Dory parte em busca de seus pais e de um passado, caídos no esquecimento.  Em meio a tantas dificuldades em reter lembranças, Dory constata não estar sozinha frente à sua limitação, uma vez que, juntam-se a ela, durante a sua jornada, um polvo que, ao invés de oito, possui somente sete tentáculos, uma baleia branca macho que está convencido de que suas habilidades de ecolocalização não mais funcionam e um tubarão baleia fêmea acometido pelo distúrbio visual da miopia.

Nesse contexto, Andrew Stanton, como diretor e roteirista, constrói uma memória relevante, a ser consagrada no futuro, com base no “esquecimento”, visando à capacitação e à inclusão através do estímulo apresentado em “Procurando Dory” – cujo encontro só se faz possível a partir de perseverança em continuar a nadar.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Enfim, Nós



O fetiche da liberdade forçada

A eterna busca pela saída dos problemas que acometem os casais após o casamento é suavemente abordada pelo divertido texto escrito a quatro mãos, por Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga – “Enfim, Nos” – transportado para o palco sob a impecável e despretensiosa direção de Gonzaga.

A amizade, o companheirismo, a tolerância frente aos constantes deslizes, o respeito mútuo, a afinidade, a paixão avassaladora e o sexo ardente são denunciados em escala inversamente proporcional às dos preceitos defendidos pela instituição do casamento, inserida na categoria imperativa do “amor até que a morte os separe”.

O espetáculo coloca o espectador frente a frente aos atritos do cotidiano de um casal rumo ao fracasso do casamento convencional, como possível agente condutor da vida à dois a um convívio desinteressante, banhado de desamor e resignação, provocado pelo sentimento de repulsa, culminando na exclusão conjugal.

No palco, carismáticos atores casados na vida real traduzem, de maneira leve e de forma tal que permite imediata identificação consigo mesmo, por parte da maioria dos espectadores, a química complexa entre amor e casamento – Cássio Reis, interpretando o versátil esposo Zeca e Fernanda Vasconcellos, no papel da domesticada esposa Fernanda. O produto da combinação desses papéis no despertar de uma manhã, com potencial gerador de felicidade, é a pura aflição emanada por um casal preso no banheiro de seu próprio lar e que, na ânsia de escaparem daquela armadilha do destino, marido e mulher se empenham na destruição involuntária do amor que sentem um pelo outro, em meio a louças sanitárias, roupas de banho e flatulência concedida pelo compartilhamento da intimidade. O cenário de Edward Monteiro é tão eficiente e prático quanto os traços de uma revista em quadrinhos, contemplando um potencial efervescente bélico explorado pelo desenho de luz de Luiz Paulo Nenén, que potencializa a entropia presente naquele aposento, que alimenta o fetiche da liberdade forçada.

“Enfim, Nós” mostra para o que veio, longe de ser um espetáculo com fins elucidativos ou de autoajuda – garante bons momentos ao público que busca no teatro, momentos de lazer e de descontração, transformando as dores do amor em identidade cômica, poupando o público da busca pelo caminho da paz, mesmo que essa trilha se faça necessária ao alvorecer dos dias mais cinzentos.



sábado, 25 de junho de 2016

God Save the Queen - Queen Forever


Alta qualidade de uma produção renovada em recursos técnicos de palco e em set list – frente à abrangente e extensa carreira do ícone da eterna banda britânica

A perfeita transfiguração dos integrantes do grupo musical argentino “Dios Salve a la Reina” – liberdade poética em referência ao hino usado em certos países dos Reinos da Comunidade de Nações, territórios e dependências da coroa britânica – “God Save the Queen”, título usado nas divulgações das turnês internacionais da banda – reproduz, espantosamente, a banda de rock inglesa Queen, fundada em meados de 1970, considerada como recordista internacional de vendas de discos. O mérito do sucesso da banda-tributo ao Queen se deve, desde a sua formação em 1998, ao impecável desempenho de Pablo Padín – como o vocalista Freddie Mercury, também no piano e no violão; Francisco Calgaro, como Brian May – na guitarra RedSpecial; Matias Albornoz – na bateria; e Ezequiel Tibaldo – no baixo, e se converte na mais importante banda do gênero, com atuações nos teatros mais representativos e importantes do mundo.

O Circuito Geral, presente na única apresentação do espetáculo “Queen Forever”, estrelado pela banda-tributo, no Teatro Bradesco Rio, na noite de 22 de junho de 2016, testemunha a indução de uma plateia a um sonho real, em meio a uma atmosfera esfumaçada, para a abertura e a tão aguardada presença de Padín, que presenteia os fãs do grupo Queen com seu Freddie Mercury entoando “Hammer To Fall”, levando todos ao delírio com seu vocal, instrumental e gestual, em impressionante semelhança com a lenda do Rock. No palco, a imagem de Mercury, também é relembrada pelos figurinos icônicos e vasta coleção de acessórios de cabeça tais como o boné com chifres, usado em suas apresentações ao vivo de “Another One Bites the Dust” e suas vestes femininas, em uma emblemática combinação de peruca Chanel com seu marcante bigode estilo Chevron, reproduzindo a irreverência do sucesso “I Want to Break Free”. Com a mesma expertise com que Padín encarna Mercury , Calgaro o faz junto a Brian May, deixando o público perplexo durante o seu solo de guitarra, imediatamente acompanhado pela bateria de Albornoz, abrindo caminho para que Padín extravase Mercury com uma pegada dançante , desempenhando “Living on my Own” e “Radio Ga Ga”, provocando reações diversas em uma plateia que não consegue se conter em estado contemplativo e, de pé, se põe a acompanhar o grupo com movimentos de braços e palmas ritmadas. Momento de profundo respeito e introspecção, encanto e nostalgia – e porque não dizer, um dos mais belos do show – o palco se recolhe a uma dramaticidade lumínica capaz de relaxar o sentido da visão e com Calgaro e Padín, acalentando o da audição, a partir da perfeita combinação de guitarra e voz, reproduzindo o clássico duo de May e Mercury quando do desempenho de “Love of my Life” – como ocorrido no Forum de Montreal em novembro de 1981 –  em uma formação espontânea de um coro público que, suavemente, se apresenta como “backing vocal”, em franco suporte ao canto de Padín. Ao contrário do aparente tom de despedida, indicando a finalização do espetáculo, “The Show Must Go On” ratifica a mensagem presente em sua letra e garante a continuidade de uma eletrizante viagem ao passado, com “Crazy Little Thing Called Love” – para legião dos testemunhos dos sucessos da banda britânica e para os marinheiros de primeira viagem que jamais compareceram a um show do Queen, mas que desfrutam de experiência incontestável, promovida por “God Save the Queen”.  Acalmando os incontidos ânimos da plateia naquele momento do espetáculo, Padín aguarda os primeiros acordes vocais que introduzem “Bohemian Rhapsody”, para dedilhar as notas iniciais do clássico em seu piano, soando como um desejo onírico e divino de todos os presentes, desejosos de que a noite não tenha fim. Chega o momento em que o bis toma o seu lugar de sempre e apresenta Padín com seu torso – tão semelhante ao de Mercury quanto o seu semblante – sensualizando o seu desempenho no palco que, imediatamente adornado por uma esvoaçante capa branca – como aquela usada pelo pop star em uma das cenas durante o histórico concerto do grupo Queen no estádio de Wembley, em Londres, em julho de 1986 – reencarnando o momento em que Mercury exorta a plateia a acompanhá-lo, em uníssono, na execução de “We Will Rock You”.

Finalmente, “We are the Champions” anuncia o término de “Queen Forever”, com a constatação e o endosso do Circuito Geral, quanto a alta qualidade de uma produção renovada em recursos técnicos de palco e em set list – frente à abrangente e extensa carreira do ícone da eterna banda britânica – e do desempenho de “God Save the Queen”, cuja turnê internacional 2016, homenageia o 25º aniversário da morte do eterno ícone da música mundial – Freddie Mercury.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Independece Day – O Ressurgimento


Como não vivemos em um mundo perfeito e invejado pelos ETs, lamentavelmente, teremos um pouco mais do mesmo

O futuro utópico desenhado em “Independece Day – O Ressurgimento” para o ano de 2016 – vinte anos após o primeiro ataque alienígena – contempla um Planeta Terra dotado de uma tecnologia de ponta muito além dos tempos atuais, e protegido por uma instituição global dedicada ao monitoramento dos céus contra ameaças extraterrenas, visando à preservação do espírito de união entre os homens e à tão desejada paz mundial.

A visão generosa de Roland Emmerich – que assina a direção dessa segunda investida dos ceifadores de planetas à Terra, conforme ocorreu em “Independece Day”, no ano de 1996 – projeta uma nave espacial com dimensões absurdamente continentais – dessa vez, trazendo consigo, muitas outras aeronaves e um forte armamento de destruição capaz dizimar a humanidade em um único dia terrestre – sem contudo, dar a entender o que, de fato, existe no interior daquela nave gigantesca. A lógica do roteiro se perde em meio a tantos efeitos especiais e aeronaves pilotadas por combatentes americanos, ainda muito futuristas frente à realidade do estágio atual do século XXI, rotulando a película como fantasiosamente grotesca, mais do que fictícia, afastando, dessa forma, qualquer lampejo de credibilidade frente à produção.

As batalhas, as explosões, as aniquilações em massa, as destruições monumentalmente catastróficas e as mensagens presentes em entrelinhas, quase subterrâneas, contemplando referências pseudo cômicas ao primeiro longa não fazem essa franquia merecedora de um terceira ato. Contudo, como não vivemos em um mundo perfeito e invejado pelos ETs, lamentavelmente, teremos um pouco mais do mesmo, muito em breve.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Caseiro


É reconfortante testemunhar o lançamento de uma produção que se empenha em desbravar caminhos que buscam uma nova linguagem para a temática do terror nacional.

“O Caseiro” – ambicioso projeto cinematográfico que transcende o confortável lugar comum onde o cinema brasileiro tem se acomodado, em meio a tantas comédias clichês, muitas vezes, sem dizer para o que veio, mas somente como veículo de panfletagem para atores, temporariamente, em evidência junto à mídia.

Julio Santi ousa ao optar pelo desenvolvimento de um roteiro sob a temática do terror e se entrega à direção do longa como um estudioso dos clássicos de horror. O elenco de “O Caseiro” é composto por: Bruno Garcia, no papel de Davi – um professor de faculdade, que é conhecido por ter escrito um livro sobre casos sobrenaturais, sob o olhar da psicanálise; e Malu Rodrigues, interpretando Renata – jovem que leva Davi à investigação de algo vem assombrando a casa de sua família, desde a morte de um antigo caseiro que cometera suicídio naquele local. Em meio aos sombrios mistérios que pairam sobre todos os envolvidos, são incluídos no suspense: o pai – cujo papel se mostra muito aquém da capacidade do ator Leopoldo Pacheco; e sua apática e inerte irmã – incorporada por Denise Weinberg. A trilha sonora e a fotografia se complementam e conferem a atmosfera assustadora sugerida pelo roteiro, sem, contudo, causar ranços de pavor no espectador – talvez pelo fato de Santi demostrar preferências pela banalização de subterfúgios já consagrados, consequentemente, sem maiores novidades.
Apesar de tudo, é reconfortante testemunhar o lançamento de uma produção que se empenha em desbravar caminhos que buscam uma nova linguagem para a temática do terror nacional.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

MPB4 - O Sonho, a Vida e a Roda Viva


A imortalidade de um conceito vocal que se perpetua através da fidelização de seus componentes


MPB4 – um dos mais importantes grupos vocais da música popular brasileira – completa cinquenta anos de carreira e comemora esse marco no Teatro Municipal Serrador, em pleno Centro da Cidade do Rio de Janeiro, durante todas as quintas-feiras do mês de junho de 2016. Presente na terceira apresentação de “O Sonho, a Vida e a Roda Viva” – também nome do mais recente álbum de inéditas do grupo que traz canções compostas por Paulo César Pinheiro, Vitor Ramil, Kledir Ramil, Guinga e Joyce Moreno – o Circuito Geral constata o incontestável: a imortalidade de um conceito vocal que se perpetua através da fidelização de seus componentes às raízes da essência de um quarteto que, através de sua trajetória artística, se confunde com a história da MPB.
Após a morte de um dos fundadores do grupo em 2013 – Antônio José Waghabi Filho (Magro), é levantada a possibilidade do término da carreira do grupo. Contudo, devido ao apoio e estímulo por parte dos amigos, o quarteto é mantido com a inclusão de Paulo Malaguti Pauleira, proveniente do “Céu da Boca” – grupo vocal cuja atividade se dá no período de 1979 a 1984. Em “O Sonho, a Vida e a Roda Viva”, Magro é lembrado como mentor e voz legítima do MPB4 e recebe as homenagens de seus companheiros, em especial, daquele que, dignamente, assume seu lugar no quarteto, ao lado de Aquiles Rique Reis, Dalmo Medeiros e Miltinho.
As manifestações de prazer do público são deflagradas pela harmonia presente nos primeiros acordes e no instrumental – balanceados com extrema precisão pelo técnico de som, Ricardo Pinto – a partir de “Roda Viva” – de Chico Buarque de Holanda, como obra indissociável dentre as interpretações do vocal cinquentenário. Miltinho dá sequência ao show, interpretando “Angélica” – homenagem a Zuzu Angel prestada por Chico Buarque, levando a plateia, emocionada, a aplaudir até à exaustão. Sob o manto de luz escarlate do iluminador cênico Moacyr Senna Moa, cuja sintonia se faz tão precisa quanto os acordes, versos e palavras emanadas de forma harmônica e randômica, “Cálice” é interpretada com roupagem sombria, reflexiva e estranhamente revigorante – marca deixada pelo quarteto, nessa obra assinada pelo músico, dramaturgo e escritor brasileiro. Impossível não perceber os movimentos dos lábios dos espectadores sussurrando os versos embalados pelas melodias que lhes são tão familiares, até que, “Vira Virou”, de Kleiton e Kledir, é cantada com a plenitude das vozes ativas de cada um presente na plateia, transformando a apresentação daquele número musical em um canto coral unissonante com as quatro vozes emitidas a partir do palco. Chegada a vez da plateia se manter em pleno silêncio – Miltinho declama “Amigo do Peito” que fez em parceria com Paulo César Pinheiro – “... A dor de uma perda é uma dor. Que eu quero entender, não consigo. Por que se perder um amor? Por que ver morrer um amigo?”. Surpreendendo todos na plateia, “O Navegante”, de Sidney Miller, é entoada pela voz do Magro, enquanto as bocas serradas daqueles que compõem o atual quarteto expressam total respeito e admiração pelo amigo e pela referência que já se foi - um dos pontos mais emotivos do show, como se um pesar comunitário tomasse conta da plateia e a dor da perda fosse sentida em cada nota entoada e em cada verso cantado por Antônio José Waghabi Filho.

Encerrando a noite, entre tributos e saudades, “O Sonho, a Vida e a Roda Viva” se despede de seu público com “Conversa com o Coração”, de autoria compartilhada entre Guinga e Paulo César Pinheiro, fazendo da plateia que lota a sala de espetáculos, uma multidão inconformada com a retirada do quarteto e dos músicos em meio às coxias, demandando um imediato retorno dos artistas ao palco do Serrador. Dessa forma, retornam: a banda – composta por Pedro Reis, na guitarra e no bandolim; João Faria, no baixo; Ronaldo Silva, na percussão; e Marcos Rios Santos, na bateria – juntamente com Aquiles, Dalmo, Miltinho e Malaguti. A partir de então, o bis fica por conta de: “Amigo é Pra Essas Coisas” – de Aldir Blanc; “O Que é O Que é?” – de Gonzaguinha; “Porto” – de Dori Caymmi; e “Samba do Avião” – de Tom Jobim, deixando o público saudoso daqueles, cujas vozes fazem parte da trilha sonora de suas vidas.

Fotos - Circuito Geral

sábado, 18 de junho de 2016

Como Eu Era Antes de Você


Somente amor, não basta

O xeque-mate na equivocada ideia de que o amor romântico é a estrutura essencial para todo o tipo de relacionamento é muito bem definido na adaptação do livro de autoria da romancista Jojo Moyes que, em parceria com Scott Neustadter e Michael H. Weber, também assina o roteiro do filme “Como Eu Era Antes de Você”.

A direção do longa por Thea Sharrock mostra, de forma soberba, a diferença entre “se importar” e “se bastar”, através do que de melhor consegue extrair da atriz Emilia Clarke – no papel da caricata Louisa Clark; e do ator Sam Claflin – que incorpora o convincente William Traynor – protagonistas de uma história sobre o relacionamento de dois grandes amigos, mais do que, necessariamente, de dois amantes. Apesar de não possuir qualquer tipo de qualificação como cuidadora, uma nova oportunidade de trabalho, contemplando aquela função, estabelece o envolvimento de Louisa com o desportista e ativo Will, acometido por tetraplegia, após ser atropelado por uma moto. Ao longo desse relacionamento, o personagem deficiente, preso à sua cadeira de rodas, desconta toda a sua amargura em quem quer que esteja próximo – em especial, sua cuidadora – ambos, sem perceberem as alterações que um e outro, provocarão, cada um a seu modo, no rumo de suas vidas. A confluência definida por roteiro e direção é zelosa na exposição de todas as nuances da deficiência, sem mascará-la ou torná-la digna de piedade ou plataforma de superação, da mesma forma que desfoca o amor como temática da produção, definindo seu lugar no contexto do relacionamento mais profundo entre os protagonistas, na contramão do lugar comum presente nos romances açucarados e alienantes.

Em “Como Eu Era Antes de Você” – onde somente amor, não basta – é demonstrada a subtração do potencial de se viver a vida ao se deparar com a incapacidade de se compreender aqueles que a tem de forma limitada e, deixa nas entrelinhas o quão frustrante pode ser, ao se estabelecer o amor como fio condutor de um relacionamento, e não combustível que explode a cada centelha.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

As Tartarugas Ninja - Fora das Sombras


Experiência agradável

De volta às telonas, as Tartarugas Ninja mandam ver em seu novo longa metragem sob direção de Dave Green, que traz a batida história de animais mutantes que desejam se tornar seres humanos, de vilões que desejam acabar com o mundo e de portais que se abrem de uma dimensão a outra. Os clichês presentes no roteiro não fazem com que a produção perca o seu brilho e a tão almejada possível ascensão que o filme de 2014 não alcançou. O visual jovial e a alta qualidade 3D fazem de “As Tartarugas Ninja - Fora das Sombras” uma experiência agradável e, ainda melhor, se assistido em uma sala de projeção dotada de “tecnologia de som e imagem em terceira dimensão, com telas gigantes, capazes de provocar nos espectadores a sensação de fazer parte do filme”.

domingo, 12 de junho de 2016

A Salto Alto – Entre Gentilezas e Extermínios



História que se auto destrói ao som das doze badaladas noturnas

Dança e circo – engrenagens responsáveis pelo desempenho dos personagens de “A Salto Alto – Entre Gentilezas e Extermínios” que, simbolicamente, se debruça na essência do conto da Gata Borralheira porém, com total desapego à inocência com que a história fora originalmente concebida e contada ao longo dos séculos. A realização do espetáculo fica a cargo do Circo No Ato​, que transforma a apresentação em um grande fetiche onírico, cujo efeito sobre a plateia pode ser interpretado como algo proporcionado por um beck que bate mal, convertendo a experiência individual em uma viagem coletiva de ida – marcada pela maresia potencializada pela assimilação do figurino, do visagismo e dos movimentos corporais coreográficos ao som da trilha musical – com volta prevista para o plano concreto da sala de espetáculos.

A dramaturgia de Diogo Liberano​ remete a uma cena de um cão correndo em círculos, na tentativa de morder seu próprio rabo, desfocando início, meio e fim, desconstruindo as etapas definidas por uma apresentação convencional. Tal figuração respalda a proposta de Liberano que deixa a plateia, genuinamente, à vontade para se manifestar através de risos e gargalhadas, como se ainda estivesse sob o efeito da Canabis – outra figuração sob a égide da liberdade poética – responsável pelo delírio coletivo, que afasta a carga dramática presente na realidade, direcionando o foco do espectador somente em direção à reflexão individual. A aparente inconsciência da direção do Circo no Ato é inusitada por não estabelecer uma lógica para a história, onde o gestual e a coreografia assumem seus papeis como protagonistas, que simplesmente, tomam emprestados os corpos do elenco composto por Carol Costa​, Cássia Cristina, Luís Fernando Martins, Mário Martins, Natássia Vello​, Rafael Garrido e Rodrigo Ceribelli. A direção musical de Raquel Coutinho segue a linha do incomum, comanda os movimentos performáticos desenvolvidos no placo e satisfaz a larica do espectador, tendo em vista a sua demanda pelo visual e pelo auditivo. A iluminação de João Gioia​ define a fronteira entre a adrenalina e o sono apático – tão comum quando o barato chega ao seu final.


Ao descerrar os olhos, os espectadores, simplesmente, se deparam com uma trupe competente interagindo com um conto incongruente e, significantemente feminino, numa história que se auto destrói ao som das doze badaladas noturnas, quando ocorre a perda do sapatinho.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

João e Maria – Um Musical


Longe da intenção de levar aos palcos infantis um simples arremedo de um conto de fadas.

Era uma vez, uma família composta por um menino e uma menina, pelo pai legítimo e pela madrasta das crianças. O casal, sem condições financeiras para garantir as suas necessidades básicas de sobrevivência e, minimamente alimentar as crianças, devido ao estado de pobreza reinante naquela ocasião, decide abandoná-las na floresta.

Em linhas gerais, trata-se do argumento que deflagra a história contada no espetáculo “João e Maria – Um Musical”, com base no texto adaptado e sob a direção do jovem dramaturgo Daniel Porto. Longe da intenção de levar aos palcos infantis um simples arremedo de um conto de fadas, Porto retrata a essência sombria da dureza vivida por aqueles personagens em plena Idade Média, tal e qual concebido pelos acadêmicos e escritores – irmãos Grimm, no século XIX. A fome, que deveria ser mera coadjuvante do espetáculo, assume a proporção de protagonista – desintegrando o estereótipo do bom pai protetor e afetuoso, e da madrasta que toma lugar da condição de mãe legítima, como um atenuante deliberado da violência e do abando de incapazes – deixando os irmãos abandonados sob a sombra da dependência familiar bifurcada em meio à escolha de permanecerem vivos ou, simplesmente, se deixarem morrer.

Capacitado para cativar tanto o público adulto quanto o infantil, o elenco é composto por Antônio Carlos Feio – no papel do pai; por Luciana Victor – acumulando os papéis da madrasta e da maléfica moradora da casa feita de doces; por Alice Maria Paiva – incorporando Maria; e por Eduardo Cardoso – como João. A humanização dos personagens e a credibilidade transmitida pelos mesmos são consequentes da dedicação da trupe de atores a espetáculos infantis nos quais, a presença do público adulto também é levada em conta pela direção – o que justifica a facilidade de compreensão dos motivos pelos quais cada personagem é levado a assumir uma determinada conduta. Na plateia, os pequeninos espectadores são acalentados pela trilha sonora assinada pelo diretor musical – Tibor Fitel, como se aconchegados em um abraço materno capaz de amenizar toda a angústia sentida pelo casal de irmãos no palco. Karlla de Luca estimula a ludicidade através de seu cenário e figurino, onde cores e mobilidade interagem com inocência infantil, driblando e diluindo, com maestria, a carga de realidade presente nas escolhas inseridas no contexto da fábula. As nuances do desenho de luz de Guego Lima e de Romiro Vasquez definem contrastes entre o subconsciente infantil e a consciência da realidade cotidiana dos adultos, fazendo com que as diferentes gerações, presentes na sala de espetáculos, identifiquem os mundos paralelos dos quais são espectadores de uma história que se encerra em cinquenta minutos e atores em suas próprias vidas, cujo fim é imprevisível.


Testemunhos do público sobre o conteúdo moral no conto e no canto de “João e Maria – Um Musical” levam a crer que os adultos são induzidos à reflexão, não somente sobre a necessidade de amadurecimento como progenitores, mas também da aceitação de que a vida insistirá em cortar o cordão umbilical do seu João ou de sua Maria – nem sempre, lhes abrindo caminhos que os levem a casas feitas de doces.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Parem de Fala Mal da Rotina


Inferninho particular

Fugindo da tipologia dramatúrgica fundamentada por uma história roteirizada, composta por início, meio e fim, Elisa Lucinda opta pela interatividade informal junto ao espectador, sem a menor preocupação para com o convencional dimensionamento da duração de um espetáculo. Dessa forma, Lucinda vem conduzindo “Parem de Fala Mal da Rotina” desde 2002, cuja essência, transformada em livro de mesmo nome em 2010, põe em pauta uma seleta diversidade de perfis existenciais de alguns seres humanos.

Submetendo-se à direção de si mesma, e roteirizada por um texto de sua autoria, Lucinda se expõe como uma mulher inquieta e totalmente liberta para se expressar, externando tudo o que lhe vem à mente, como se no domínio de um cativante show de improvisos, durante o qual discorre sobre a sua atuação no Curso de Poesia Falada ministrado no Departamento Geral de Ações Socioeducativas – Degase; sobre o amigo mendigo chamado Júlio; sobre Romualdo Guedes – o pedófilo; sobre o holocausto dos cabelos cacheados; sobre a ação “criptoniana” da água nas escovas progressivas; sobre as mulheres formadoras de machistas; sobre a educação subliminar – com tônica racista e religiosa; e sobre infelizes expressões preconceituosas, tais como: “cabelo ruim”, dentre tanto outros assuntos. A cada novo tema, o espectador reage, interage, toma a iniciativa de interferir, sem a menor cerimônia, na sequência do texto, fazendo apartes, debatendo, concordando e discordando. De tempos em tempos, Lucinda derrama pérolas sobre a plateia – sugerindo que a felicidade pode advir da escuta da conversa alheia pelo simples fato de denunciar a existência de pessoas mais ferradas do que os próprios ouvintes; proclamando a necessidade do encontro entre a vida e a escola; relatando fato passado em um hotel, no qual fora oferecido um cantinho na lavanderia, para a babá do filho de um casal prestes a se hospedar no estabelecimento; e, muito frequentemente, atuando como inibidora ferrenha dos espectadores acometidos pela síndrome da má educação conjugada à dependência dos dispositivos móveis que, sem o menor escrúpulo, atendem e fazem ligações, pesquisam, recebem e enviam mensagens, descontraída e diretamente de seus lugares, durante o espetáculo.

O projeto cenográfico de Gisele Licht sugere, de forma subliminar, se tratar de um ambiente que delineia o aconchego do lar de Lucinda – seu inferninho particular, sob os efeitos da iluminação cênica de Djalma Amaral. O resultado dessa parceria é a descontraída impulsividade da plateia na participação do espetáculo, enquanto bate papo, que beira o pecado banhado pela calorosa difusividade lumínica escarlate. Finalmente, o figurino de Christina Cordeiro adorna o corpo da mulher, da menina, da doidivana, do emotivo ícone dentre tantas pérolas negras do meio artístico, com vestes que não cobrem a sua essência, mas apenas realçam o simples fato de trajarem o despojamento com que Lucinda se apresenta no palco.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Gota D’Água [A Seco]



O verdadeiro sentimento que brota ao ser amado sem amar e ao se amar sem ser amado.

Compacta na quantificação do elenco e na releitura do texto gerador da obra musical e do livro, de autoria de Chico Buarque e de Paulo Pontes – concebida a partir de uma versão da tragédia grega clássica de Eurípedes, sobre o mito de Medeia, por Oduvaldo Viana Filho – a história de Joana e Jasão é reagente à química entre Laila Garin e Alejandro Claveaux, à arquitetura da adaptação e à concepção espacial onde ocorrem os fatos.

Sob a desafiante e ousada direção de Rafael Gomes, o casal de atores consegue a proeza de traduzir a banalidade da tragédia urbana existente no asfalto – precisamente, em um conjunto habitacional – quando do abandono de Joana e de seus dois filhos por Jasão, para se casar com a filha de um homem rico. Misturam-se àquela empatia consagrada, estrategicamente posicionados por entre os elementos cenográficos, os músicos Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira que, além das canções que fazem parte do musical original – tais como: “Gota D’Água”, “Flor da Idade” e “Basta um Dia” – também executam os seguintes sucessos de Chico Buarque, enriquecedora e habilmente enxertados no espetáculo – “Caçada”, “Eu Te Amo”, “Você Vai Me Seguir”, “Cálice, Mil Perdões”, “João e Maria”, “Pedaço de Mim” e “Mulheres de Atenas”.

A boca de cena é o portal para a pluridimensionalidade de um cenário concebido, por André Cortez, de forma conceitual e com requintes plásticos e funcionais que garantem dinâmica entre os atores e a tão necessária funcionalidade cênica – onde galões de água e focos de luz se misturam às estruturas metálicas, panos de vidro estilizados e plataformas de madeira, promovendo uma ilusão de ótica na qual o espectador se perde em meio a elementos vazados preenchidos pela evolução dos atores, em um desempenho quase circense, durante a abrasileirada dramaturgia grega. Fomentando o potencial escultórico quadridimencional da obra de Cortez, atravessando e projetando potentes e precisos fachos de luz aos desvarios de Joana e atenuantes estados de penumbra às ambições de Jasão, Wagner Antônio concebe um desenho de luz que define um contraste cujo espectro varia do deleite à amargura. Kika Lopes traduz as classes sociais dos protagonistas através de seu figurino, concedendo, em um extremo, a cor da pele ao vestual que retrata um estado sócio econômico que beira a indigência e, no outro, um visual belicista, autoritário e viril, próprio das vestimentas de quem detém o poder, mas não a intrepidez.

“Gota D’Água [A Seco]” enxuga treze personagens e noventa minutos da produção de 1975, mas esbanja qualidade e arrebata, com intensidade, a paixão, sob a direção musical de Pedro Luís que, ao contar a tragédia de Jasão e Joana através dos sucessos de Chico Buarque de Holanda, faz doer no espectador, a cada palavra cantada e proferida, o verdadeiro sentimento que brota ao ser amado sem amar e ao se amar sem ser amado.


sábado, 4 de junho de 2016

Buscado


A incômoda sensação de perda e a impulsividade da busca

“Buscado” – um puzzle incompleto, cuja procura pela peça faltante é sofrível e melancólica, tanto para quem o faz, quanto para quem observa.

O espetáculo, cujo texto leva a assinatura do pragmatismo da dramaturga argentina - Agustina Gatto, descreve a trajetória de um homem enquanto rastreador de seu filho, com requintes de degradação, em três cidades – Tóquio, México e Nova York.

A direção de Luiz Furlanetto age de forma perscrutante à luz do enredo proposto e lança os personagens em uma órbita que transcende o óbvio. O elenco coeso, formado por Daniel Rangel, Gabriela Werneck, Pedro Osório e Rogério Fróes, dilui, em seu desempenho, a ironia subliminar presente no texto, em conjunto com a voluntária desconstrução dos sentimentos que impõe, ao espectador, a incômoda sensação de perda e a impulsividade da busca em parceria com os personagens.  A iluminação de Eduardo Salino impera, ao sombrear o que não deve ser encontrado e ao iluminar a ignorância reinante, naqueles que observam o desenrolar do delírio presente no espetáculo. Mais uma vez, a simbiose entre desenho de luz e projeto cenográfico e videografismo se faz presente de forma indissociável, através da concepção espacial minimalista, assinada por Luiz Furlanetto – que se presta como base de um mapa videográfico projetado nas superfícies irregulares dos poucos elementos cênicos dispostos no palco – como também nos corpos dos personagens. Tal experiência conta com a ousada interatividade do videomapping e do set design de Jodele Larcher, responsável pela experiência virtual de uma viagem, sem volta, por diversas dimensões no tempo. A trilha sonora de Plínio Profeta e de Nado Leal atende, não somente ao conteúdo dramático, mas confere personalidade ao conjunto da obra, levando o espectador à ilusão complementar, quase hipnótica, através do sentido da audição.

Os quase cinquenta minutos de “Buscado” não lhe garante um desfecho, muito menos uma lógica – talvez pelo fato de retratar a vida como uma trilha definida por buscas incessantes e não por encontros perenes.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Rock em Cabul


A delicadeza gentil dos sonhos

O estilo musical Rock, banido do Irã nos anos 1980, influencia a banda The Clash para a composição da letra de Rock The Casbah – título original do filme dirigido por Barry Levinson, “Rock em Cabul”, conforme intitulado no Brasil.

Segundo o roteiro, as vidas de Richie Lanz – interpretado por Bill Murray, que vende a sua imagem como o agente de talentos que descobriu Madonna – e de Salima Khan – uma jovem afegã incorporada de forma misteriosa, delicada e carismática, por Leem Lubany, se cruzam no Afeganistão. Khan tem como hábito alimentar um velho televisor em uma fonte de energia no interior de uma caverna sombria, durante a noite, para assistir um programa nos moldes de American Idol – “Afghan Star”, durante o qual demonstra a sua paixão pela música e o seu desejo por cantar – apesar de pertencer a uma cultura onde o canto feminino é considerado uma desonra para a família, passível de condenação à pena de morte.

A composição do elenco, a partir da participação de Bruce Willis, Kate Hudson, Zooey Deschanel, Danny McBride e Scott Caan, interage somente como um verniz e não se impõe como contribuição relevante, frente ao roteiro de Mitch Glazer,  que mistura a atmosfera belicista ao frescor propagado pelo humor, gerando a delicadeza gentil dos sonhos. A trilha sonora – que ecoa em meio às cenas áridas, sujas e desconcertantes, mas apelativas aos sentimentos – conta com os talentos de Blind Faith, de Harry Nilsson e de Bob Dylan, além de presentear o espectador com uma belíssima versão de "Peace Train" de Cat Stevens, ao final da película, interpretada pela própria Lubany.

Baseado em personagem da vida real, “Rock em Cabul” homenageia Setara – a primeira mulher a cantar e dançar no programa “Afghan Star” e que provocou marcante polêmica ao desafiar as restrições impostas à população feminina no Afeganistão. Mesmo tendo sido classificada como finalista naquele programa televisivo, as ameaças de morte a fizeram abandonar a sua origem e partir para a Alemanha – fato esse que se configura em uma outra história, que não pertence ao “Rock em Cabul”.