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domingo, 12 de junho de 2016

A Salto Alto – Entre Gentilezas e Extermínios



História que se auto destrói ao som das doze badaladas noturnas

Dança e circo – engrenagens responsáveis pelo desempenho dos personagens de “A Salto Alto – Entre Gentilezas e Extermínios” que, simbolicamente, se debruça na essência do conto da Gata Borralheira porém, com total desapego à inocência com que a história fora originalmente concebida e contada ao longo dos séculos. A realização do espetáculo fica a cargo do Circo No Ato​, que transforma a apresentação em um grande fetiche onírico, cujo efeito sobre a plateia pode ser interpretado como algo proporcionado por um beck que bate mal, convertendo a experiência individual em uma viagem coletiva de ida – marcada pela maresia potencializada pela assimilação do figurino, do visagismo e dos movimentos corporais coreográficos ao som da trilha musical – com volta prevista para o plano concreto da sala de espetáculos.

A dramaturgia de Diogo Liberano​ remete a uma cena de um cão correndo em círculos, na tentativa de morder seu próprio rabo, desfocando início, meio e fim, desconstruindo as etapas definidas por uma apresentação convencional. Tal figuração respalda a proposta de Liberano que deixa a plateia, genuinamente, à vontade para se manifestar através de risos e gargalhadas, como se ainda estivesse sob o efeito da Canabis – outra figuração sob a égide da liberdade poética – responsável pelo delírio coletivo, que afasta a carga dramática presente na realidade, direcionando o foco do espectador somente em direção à reflexão individual. A aparente inconsciência da direção do Circo no Ato é inusitada por não estabelecer uma lógica para a história, onde o gestual e a coreografia assumem seus papeis como protagonistas, que simplesmente, tomam emprestados os corpos do elenco composto por Carol Costa​, Cássia Cristina, Luís Fernando Martins, Mário Martins, Natássia Vello​, Rafael Garrido e Rodrigo Ceribelli. A direção musical de Raquel Coutinho segue a linha do incomum, comanda os movimentos performáticos desenvolvidos no placo e satisfaz a larica do espectador, tendo em vista a sua demanda pelo visual e pelo auditivo. A iluminação de João Gioia​ define a fronteira entre a adrenalina e o sono apático – tão comum quando o barato chega ao seu final.


Ao descerrar os olhos, os espectadores, simplesmente, se deparam com uma trupe competente interagindo com um conto incongruente e, significantemente feminino, numa história que se auto destrói ao som das doze badaladas noturnas, quando ocorre a perda do sapatinho.

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