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sábado, 4 de junho de 2016

Buscado


A incômoda sensação de perda e a impulsividade da busca

“Buscado” – um puzzle incompleto, cuja procura pela peça faltante é sofrível e melancólica, tanto para quem o faz, quanto para quem observa.

O espetáculo, cujo texto leva a assinatura do pragmatismo da dramaturga argentina - Agustina Gatto, descreve a trajetória de um homem enquanto rastreador de seu filho, com requintes de degradação, em três cidades – Tóquio, México e Nova York.

A direção de Luiz Furlanetto age de forma perscrutante à luz do enredo proposto e lança os personagens em uma órbita que transcende o óbvio. O elenco coeso, formado por Daniel Rangel, Gabriela Werneck, Pedro Osório e Rogério Fróes, dilui, em seu desempenho, a ironia subliminar presente no texto, em conjunto com a voluntária desconstrução dos sentimentos que impõe, ao espectador, a incômoda sensação de perda e a impulsividade da busca em parceria com os personagens.  A iluminação de Eduardo Salino impera, ao sombrear o que não deve ser encontrado e ao iluminar a ignorância reinante, naqueles que observam o desenrolar do delírio presente no espetáculo. Mais uma vez, a simbiose entre desenho de luz e projeto cenográfico e videografismo se faz presente de forma indissociável, através da concepção espacial minimalista, assinada por Luiz Furlanetto – que se presta como base de um mapa videográfico projetado nas superfícies irregulares dos poucos elementos cênicos dispostos no palco – como também nos corpos dos personagens. Tal experiência conta com a ousada interatividade do videomapping e do set design de Jodele Larcher, responsável pela experiência virtual de uma viagem, sem volta, por diversas dimensões no tempo. A trilha sonora de Plínio Profeta e de Nado Leal atende, não somente ao conteúdo dramático, mas confere personalidade ao conjunto da obra, levando o espectador à ilusão complementar, quase hipnótica, através do sentido da audição.

Os quase cinquenta minutos de “Buscado” não lhe garante um desfecho, muito menos uma lógica – talvez pelo fato de retratar a vida como uma trilha definida por buscas incessantes e não por encontros perenes.


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