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terça-feira, 28 de junho de 2016

Enfim, Nós



O fetiche da liberdade forçada

A eterna busca pela saída dos problemas que acometem os casais após o casamento é suavemente abordada pelo divertido texto escrito a quatro mãos, por Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga – “Enfim, Nos” – transportado para o palco sob a impecável e despretensiosa direção de Gonzaga.

A amizade, o companheirismo, a tolerância frente aos constantes deslizes, o respeito mútuo, a afinidade, a paixão avassaladora e o sexo ardente são denunciados em escala inversamente proporcional às dos preceitos defendidos pela instituição do casamento, inserida na categoria imperativa do “amor até que a morte os separe”.

O espetáculo coloca o espectador frente a frente aos atritos do cotidiano de um casal rumo ao fracasso do casamento convencional, como possível agente condutor da vida à dois a um convívio desinteressante, banhado de desamor e resignação, provocado pelo sentimento de repulsa, culminando na exclusão conjugal.

No palco, carismáticos atores casados na vida real traduzem, de maneira leve e de forma tal que permite imediata identificação consigo mesmo, por parte da maioria dos espectadores, a química complexa entre amor e casamento – Cássio Reis, interpretando o versátil esposo Zeca e Fernanda Vasconcellos, no papel da domesticada esposa Fernanda. O produto da combinação desses papéis no despertar de uma manhã, com potencial gerador de felicidade, é a pura aflição emanada por um casal preso no banheiro de seu próprio lar e que, na ânsia de escaparem daquela armadilha do destino, marido e mulher se empenham na destruição involuntária do amor que sentem um pelo outro, em meio a louças sanitárias, roupas de banho e flatulência concedida pelo compartilhamento da intimidade. O cenário de Edward Monteiro é tão eficiente e prático quanto os traços de uma revista em quadrinhos, contemplando um potencial efervescente bélico explorado pelo desenho de luz de Luiz Paulo Nenén, que potencializa a entropia presente naquele aposento, que alimenta o fetiche da liberdade forçada.

“Enfim, Nós” mostra para o que veio, longe de ser um espetáculo com fins elucidativos ou de autoajuda – garante bons momentos ao público que busca no teatro, momentos de lazer e de descontração, transformando as dores do amor em identidade cômica, poupando o público da busca pelo caminho da paz, mesmo que essa trilha se faça necessária ao alvorecer dos dias mais cinzentos.



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