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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Gota D’Água [A Seco]



O verdadeiro sentimento que brota ao ser amado sem amar e ao se amar sem ser amado.

Compacta na quantificação do elenco e na releitura do texto gerador da obra musical e do livro, de autoria de Chico Buarque e de Paulo Pontes – concebida a partir de uma versão da tragédia grega clássica de Eurípedes, sobre o mito de Medeia, por Oduvaldo Viana Filho – a história de Joana e Jasão é reagente à química entre Laila Garin e Alejandro Claveaux, à arquitetura da adaptação e à concepção espacial onde ocorrem os fatos.

Sob a desafiante e ousada direção de Rafael Gomes, o casal de atores consegue a proeza de traduzir a banalidade da tragédia urbana existente no asfalto – precisamente, em um conjunto habitacional – quando do abandono de Joana e de seus dois filhos por Jasão, para se casar com a filha de um homem rico. Misturam-se àquela empatia consagrada, estrategicamente posicionados por entre os elementos cenográficos, os músicos Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira que, além das canções que fazem parte do musical original – tais como: “Gota D’Água”, “Flor da Idade” e “Basta um Dia” – também executam os seguintes sucessos de Chico Buarque, enriquecedora e habilmente enxertados no espetáculo – “Caçada”, “Eu Te Amo”, “Você Vai Me Seguir”, “Cálice, Mil Perdões”, “João e Maria”, “Pedaço de Mim” e “Mulheres de Atenas”.

A boca de cena é o portal para a pluridimensionalidade de um cenário concebido, por André Cortez, de forma conceitual e com requintes plásticos e funcionais que garantem dinâmica entre os atores e a tão necessária funcionalidade cênica – onde galões de água e focos de luz se misturam às estruturas metálicas, panos de vidro estilizados e plataformas de madeira, promovendo uma ilusão de ótica na qual o espectador se perde em meio a elementos vazados preenchidos pela evolução dos atores, em um desempenho quase circense, durante a abrasileirada dramaturgia grega. Fomentando o potencial escultórico quadridimencional da obra de Cortez, atravessando e projetando potentes e precisos fachos de luz aos desvarios de Joana e atenuantes estados de penumbra às ambições de Jasão, Wagner Antônio concebe um desenho de luz que define um contraste cujo espectro varia do deleite à amargura. Kika Lopes traduz as classes sociais dos protagonistas através de seu figurino, concedendo, em um extremo, a cor da pele ao vestual que retrata um estado sócio econômico que beira a indigência e, no outro, um visual belicista, autoritário e viril, próprio das vestimentas de quem detém o poder, mas não a intrepidez.

“Gota D’Água [A Seco]” enxuga treze personagens e noventa minutos da produção de 1975, mas esbanja qualidade e arrebata, com intensidade, a paixão, sob a direção musical de Pedro Luís que, ao contar a tragédia de Jasão e Joana através dos sucessos de Chico Buarque de Holanda, faz doer no espectador, a cada palavra cantada e proferida, o verdadeiro sentimento que brota ao ser amado sem amar e ao se amar sem ser amado.


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