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quinta-feira, 9 de junho de 2016

João e Maria – Um Musical


Longe da intenção de levar aos palcos infantis um simples arremedo de um conto de fadas.

Era uma vez, uma família composta por um menino e uma menina, pelo pai legítimo e pela madrasta das crianças. O casal, sem condições financeiras para garantir as suas necessidades básicas de sobrevivência e, minimamente alimentar as crianças, devido ao estado de pobreza reinante naquela ocasião, decide abandoná-las na floresta.

Em linhas gerais, trata-se do argumento que deflagra a história contada no espetáculo “João e Maria – Um Musical”, com base no texto adaptado e sob a direção do jovem dramaturgo Daniel Porto. Longe da intenção de levar aos palcos infantis um simples arremedo de um conto de fadas, Porto retrata a essência sombria da dureza vivida por aqueles personagens em plena Idade Média, tal e qual concebido pelos acadêmicos e escritores – irmãos Grimm, no século XIX. A fome, que deveria ser mera coadjuvante do espetáculo, assume a proporção de protagonista – desintegrando o estereótipo do bom pai protetor e afetuoso, e da madrasta que toma lugar da condição de mãe legítima, como um atenuante deliberado da violência e do abando de incapazes – deixando os irmãos abandonados sob a sombra da dependência familiar bifurcada em meio à escolha de permanecerem vivos ou, simplesmente, se deixarem morrer.

Capacitado para cativar tanto o público adulto quanto o infantil, o elenco é composto por Antônio Carlos Feio – no papel do pai; por Luciana Victor – acumulando os papéis da madrasta e da maléfica moradora da casa feita de doces; por Alice Maria Paiva – incorporando Maria; e por Eduardo Cardoso – como João. A humanização dos personagens e a credibilidade transmitida pelos mesmos são consequentes da dedicação da trupe de atores a espetáculos infantis nos quais, a presença do público adulto também é levada em conta pela direção – o que justifica a facilidade de compreensão dos motivos pelos quais cada personagem é levado a assumir uma determinada conduta. Na plateia, os pequeninos espectadores são acalentados pela trilha sonora assinada pelo diretor musical – Tibor Fitel, como se aconchegados em um abraço materno capaz de amenizar toda a angústia sentida pelo casal de irmãos no palco. Karlla de Luca estimula a ludicidade através de seu cenário e figurino, onde cores e mobilidade interagem com inocência infantil, driblando e diluindo, com maestria, a carga de realidade presente nas escolhas inseridas no contexto da fábula. As nuances do desenho de luz de Guego Lima e de Romiro Vasquez definem contrastes entre o subconsciente infantil e a consciência da realidade cotidiana dos adultos, fazendo com que as diferentes gerações, presentes na sala de espetáculos, identifiquem os mundos paralelos dos quais são espectadores de uma história que se encerra em cinquenta minutos e atores em suas próprias vidas, cujo fim é imprevisível.


Testemunhos do público sobre o conteúdo moral no conto e no canto de “João e Maria – Um Musical” levam a crer que os adultos são induzidos à reflexão, não somente sobre a necessidade de amadurecimento como progenitores, mas também da aceitação de que a vida insistirá em cortar o cordão umbilical do seu João ou de sua Maria – nem sempre, lhes abrindo caminhos que os levem a casas feitas de doces.

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