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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Parem de Fala Mal da Rotina


Inferninho particular

Fugindo da tipologia dramatúrgica fundamentada por uma história roteirizada, composta por início, meio e fim, Elisa Lucinda opta pela interatividade informal junto ao espectador, sem a menor preocupação para com o convencional dimensionamento da duração de um espetáculo. Dessa forma, Lucinda vem conduzindo “Parem de Fala Mal da Rotina” desde 2002, cuja essência, transformada em livro de mesmo nome em 2010, põe em pauta uma seleta diversidade de perfis existenciais de alguns seres humanos.

Submetendo-se à direção de si mesma, e roteirizada por um texto de sua autoria, Lucinda se expõe como uma mulher inquieta e totalmente liberta para se expressar, externando tudo o que lhe vem à mente, como se no domínio de um cativante show de improvisos, durante o qual discorre sobre a sua atuação no Curso de Poesia Falada ministrado no Departamento Geral de Ações Socioeducativas – Degase; sobre o amigo mendigo chamado Júlio; sobre Romualdo Guedes – o pedófilo; sobre o holocausto dos cabelos cacheados; sobre a ação “criptoniana” da água nas escovas progressivas; sobre as mulheres formadoras de machistas; sobre a educação subliminar – com tônica racista e religiosa; e sobre infelizes expressões preconceituosas, tais como: “cabelo ruim”, dentre tanto outros assuntos. A cada novo tema, o espectador reage, interage, toma a iniciativa de interferir, sem a menor cerimônia, na sequência do texto, fazendo apartes, debatendo, concordando e discordando. De tempos em tempos, Lucinda derrama pérolas sobre a plateia – sugerindo que a felicidade pode advir da escuta da conversa alheia pelo simples fato de denunciar a existência de pessoas mais ferradas do que os próprios ouvintes; proclamando a necessidade do encontro entre a vida e a escola; relatando fato passado em um hotel, no qual fora oferecido um cantinho na lavanderia, para a babá do filho de um casal prestes a se hospedar no estabelecimento; e, muito frequentemente, atuando como inibidora ferrenha dos espectadores acometidos pela síndrome da má educação conjugada à dependência dos dispositivos móveis que, sem o menor escrúpulo, atendem e fazem ligações, pesquisam, recebem e enviam mensagens, descontraída e diretamente de seus lugares, durante o espetáculo.

O projeto cenográfico de Gisele Licht sugere, de forma subliminar, se tratar de um ambiente que delineia o aconchego do lar de Lucinda – seu inferninho particular, sob os efeitos da iluminação cênica de Djalma Amaral. O resultado dessa parceria é a descontraída impulsividade da plateia na participação do espetáculo, enquanto bate papo, que beira o pecado banhado pela calorosa difusividade lumínica escarlate. Finalmente, o figurino de Christina Cordeiro adorna o corpo da mulher, da menina, da doidivana, do emotivo ícone dentre tantas pérolas negras do meio artístico, com vestes que não cobrem a sua essência, mas apenas realçam o simples fato de trajarem o despojamento com que Lucinda se apresenta no palco.

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