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sábado, 9 de julho de 2016

Galileu Galilei


“Só os mortos não se deixam envolver por um bom argumento”

Contrariando o estado de passividade daqueles que simplesmente assistem uma peça teatral sem, sequer, questionar o que lhes são trazidos ao palco, Cibele Forjaz, com sua direção intencionalmente pedagógica e estimulante, transforma o público em pensadores críticos, estimulados por um elenco que se utiliza do distanciamento da realidade promovido pelos efeitos das máscaras, entre atos musicais e painéis, durante os quais, ação assume formato dissertativo e cuja ação é discorrida ao longo de comentários. Denise Fraga, Ary França, Lúcia Romano, Theo Werneck, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Sílvio Restiffe e Daniel Warren expõem, em “Galileu Galilei”, espetáculo baseado na obra de Bertolt Brecht teorias revolucionárias científicas através de encenações exemplares.

A trilha sonora de responsabilidade de Lincoln Antônio e Théo Werneck – que também toma parte no espetáculo, como ator – a partir de seu forte conteúdo crítico e político, é repleta de humor e de ironia, e introduz no contexto da história, ícones dentre marchinhas carnavalescas e samba, tais como “Me dá um Dinheiro Aí” e “Caramba... Galileu da Galileia”. A concepção do projeto cenográfico, a cargo de Márcio Medina, consolida a responsabilidade da ciência ao abordar o movimento giratório da Terra ao redor do Sol, ao mesmo tempo em que o obscurantismo insiste em um Deus sentinela e passivo em sua redoma de vidro, onde se encontra inserido o planeta azul imóvel e solto no espaço. O figurino de Marina Reis é magnético e prolifera o sonambulismo social da época da Renascença. A luminotecnia cênica assinada por Wagner Antônio, por sua vez, cria um ambiente fértil ao fascismo que condena, ao esquecimento, aqueles que não consolidam a sua fé à fidelidade religiosa, em um período ironicamente conhecida como “Época das Luzes”, durante o qual, temas giram em torno da liberdade.

Apesar de datado nos anos 1930, o texto original conquista uma atualidade espantosa, uma vez que a obra denuncia indivíduos responsáveis pela elaboração de leis parciais, pela manipulação das mídias sociais, pela ilusão dos incautos com a eternidade do “Paraíso”, e pela intolerância aos que pensam que “só os mortos não se deixam envolver por um bom argumento”.


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