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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Krum


O infundado sentido de utilidade da existência do ser

A absurda sordidez de dois grupos que transitam por entre: a miséria humana, o tédio da continuidade da vida, a alienação imposta pela sociedade e a ânsia decorrente da possibilidade da estagnação diante do próximo, assume a veia estrutural do texto de Hanoch Levin, que define perspectivas de vida disfarçadas de ilusão, materializado pelo espetáculo “Krum” – através do quarentão que retorna à casa materna, carregando sua mala de roupas sujas, de mãos vazias e com a medíocre arrogância de quem tentou escapar da ausência das escolhas ofertadas pela vida, mas não obteve sucesso.

 A irremediável postura filosófica, impressa na direção de Marcio Abreu, faz do fim, um eterno retorno a um caminho que não leva a lugar algum e, deixa como legado, uma espécie de felicidade inversa aos personagens que conduzem as condições humanas resignadas às interpretações de Cris Larin, Danilo Grangheia, Edson Rocha, Grace Passô, Inez Viana, Ranierei Gonzalez, Renata Sorrah, Rodrigo Bolzan e Rodrigo Ferrarini. A intensa carga dramática de “Krum” é fomentada pelo desenho de luz de Nadja Naira – sufocante em meio ao breu, à penumbra e o ofuscamento cortantes, sob uma atmosfera enevoada que envolve toda a sala de espetáculos, e que aprisionam, não somente os personagens presentes no palco, mas como também, a plateia que se reconhece em franca cumplicidade das miseráveis almas e que se coloca como, não mais do que mera expectadora, em muitos momentos do espetáculo. O projeto cenográfico de Fernando Marés parece definir o infundado sentido de utilidade da existência do ser, instalando antigas cadeiras de madeira, outrora usadas em cinemas e teatro, montadas em longarinas, acomodando cada um dos envolvidos para que assistam as mazelas de seu próximo, como um verdadeiro bálsamo à sua própria falência humana. A trilha sonora de Felipe Storino é amarga e de difícil degustação, uma vez que dilacera o drama de maneira a torná-lo parte integrante da intimidade dos personagens e do espectador. O figurino de Ticiana Passos é fugaz e sexualmente estéril, mas que, à sua maneira, orquestra, em modo performático, a falta de carisma dos míseros mortais junto à sua comunidade.

A imóvel indiferença descrita em “Krum” provoca uma catarse cruel ao espectador que, ao se dar conta que “os olhares passam por ele, mas não se fixam”, enxerga melhor sua própria vida, seu próprio lar e a sua própria instituição familiar.

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