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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Aquarius


A luta pela preservação da individualidade e o total desprezo pelo próximo – limitado, até mesmo, pelo vizinho de porta

Sônia Braga, magistralmente, resplandece Clara – uma mulher de 66 anos, crítica musical aposentada, que deflagra uma guerra contra a construtora que ambiciona executar um projeto de um residencial, para o qual, se faz necessária a demolição do edifício onde mora, denominado “Aquarius”.  Mediante subjetivamente vantajosas ofertas de compra dos apartamentos pela construtora, a totalidade dos condôminos proprietários, excetuando Clara, aceitam a proposta de venda de seus imóveis, tornando Aquarius, um quase “edifício fantasma”, pelo qual e pelo seu direito de terminar os seus últimos dias de vida, Clara, definitivamente, passa a lutar. Os cento e quarenta e dois minutos de crescente tensão, presente no longa, se desenvolve em torno da história de vida e das memórias da protagonista e, pouco a pouco, definem a forte figura que resiste aos mais variados métodos de pressão por parte da construtora, com vistas a convencer Clara a vender seu imóvel. 

A estabilizada direção e o consistente roteiro – cuja essência faz parte do dia a dia do desenvolvimento dos grandes centros urbanos – fazem de “Aquarius” uma denúncia assinada por Kleber Mendonça Filho.  Sua obra é dissecada politicamente, na qual, a arrogância, a prepotência e, até mesmo, a falta de bom senso da protagonista, definem uma linha tênue entre ficção e realidade, retratando o “vale tudo!” em nome do progresso, a luta pela preservação da individualidade e o total desprezo pelo próximo – limitado, até mesmo, pelo vizinho de porta.


domingo, 28 de agosto de 2016

Cinderella


“O sexo frágil”

A versão patriarcal da mulher sexo frágil que Charles Perrault introduz em seu conto de fadas “Cinderella” – delineando uma donzela que necessita da ajuda de um príncipe para resgatá-la de uma vida de sofrimentos provocados por sua madrasta e por suas duas filhas – é redesenhada no texto de Douglas Carter Beane, onde a subversão da gata borralheira, vai muito além da passividade da órfã de Perrault, que não quer ver nada além de seu umbigo.

O deslocamento do ponto de vista do observador promove uma perspectiva traçada com base em novos pontos de fuga definidos pela estruturada direção de Charles Möeller e Claudio Botelho, que capacita “Cinderella, de Rodgers e Hammerstein” satisfazer os anseios do público infantojuvenil e de seus acompanhantes adultos – e porque não dizer, os anseios do público adulto, permitindo-lhe a companhia de sua prole e agregados infantojuvenis. Trata-se de uma produção que lança mão da beleza e do potencial de voz, enquanto um espetáculo musical, mas também como um instrumento de revolução político-social confiado à protagonista borralheira, interpretada por Bianca Tadini. A tripudiante antagonista “Madrasta”, incorporada por Totia Meirelles, exitosamente abrilhanta e solidifica a base para o desenvolvimento de Bruno Narchi – no papel o príncipe Topher; de Ivanna Domenyco – a fada madrinha Marie; Raquel Antunes e Cristiana Pompeo respectivamente Charlotte e Gabrielle as filhas da madrasta; Bruno Sigrist o revolucionário Jean-Michel, e grande elenco composto por, Carlos Capeletti, Nick Vila Maior, Andrei Lamberg, Conrado Helt, Fabio Yoshihara, Laura Visconti, Letícia Mamede, Lia Canineu, Mariana Amaral, Naomy Schölling, Philipe Azevedo, Ricardo Mesquita, Thati Abra, Thiago Garça, Aline Campos, Barbara Mesquita, Flávio Rocha, Jorge Assunção, Mário Beckman e Patrícia Athayde.

A coreografia de Alonso Barros se agiganta de forma diretamente proporcional à boca de cena do Teatro Bradesco Rio – casa de espetáculos na qual o Circuito Geral constata a grandiosidade e requinte presentes na produção – tomada pela cenografia operesca de Rogério Falcão, que transita em meio à dicotomia hierárquica retratada pela plebe proletária e pelos nobres da realeza. O figurino de Carol Lobato constrói paradigmas onde a posição de gênero é enaltecida e definida nos simbolismos contidos na história. A iluminação de Maneco Quinderé materializa o irreal e dá o devido suporte ao desafiante ilusionismo que transporta para o palco surpreendentes personagens videográficos e encantadores efeitos especiais, dignos de superprodução. Coroando a tipologia do espetáculo, a vibrante direção musical de Carlos Bauzys dá o tom da festa, abrilhanta a coreografia e preenche de ternura a atmosfera romântica e os momentos em que os sonhos se tornam realidade.

Contrariando o paradigma da mulher como objeto da figura masculina, se desvencilhando da fragilidade ao se desprender das maldades de sua madrasta e, ainda assim, fazendo do perdão, uma metralhadora contra o inimigo, “Cinderella, o Musical” destrói o estereótipo da mulher como “o sexo frágil” e a coloca em um patamar que transpõe a fantasia presente no inconclusivo “e foram felizes para sempre”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Águas Rasas


Intenso e agonizante

A minuciosa direção de Jaume Collet-Serra, a selvagem direção de fotografia de Flavio Martínez Labiano, a crescente tensão do roteiro de Anthony Jaswisnski e uma protagonista sob a égide do determinismo – interpretada por Blake Lively – fazem do filme “Águas Rasas” uma interessante experiência, ao contar a história da estudante de medicina Nancy que, após a morte de sua mãe, decide realinhar a vida em uma praia mexicana conhecida por poucos, mas que fora muito frequentada pela falecida.

Durante um momento de reflexão e de contemplação da formação das ondas do mar, Nancy é atacada por um tubarão, que a deixa encurralada em um recife de corais que, por sua vez, em poucas horas, seria tomado pela maré alta.

O ritmo do longa é intenso e agonizante, contrastando com a placidez das belas imagens – muito provavelmente, com o propósito de demostrar que aquilo que o coração sente, nem sempre, é o mesmo que os olhos enxergam.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A Reunificação das Duas Coreias


Um irônico retrato da sociedade contemporânea


A fragilidade de sentimentos totalmente desnudados pode ser constatada no espetáculo “A Reunificação das Duas Coreias” – cuja atual temporada 2016, no Teatro Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, chega à sua última semana.

Em cena, um festival de conflitos invade a racionalidade de cada um dos personagens, costura uma generosa sequência de esquetes, desconexos entre si mas com foco comum nas relações amorosas, e recebem títulos individualizados – dentre eles: “amizade”, “divórcio”, “morte”, “maternidade”, “amor”, “casamento”, “dinheiro” e “filhos” – que vão de encontro aos espectadores como caminhões desgovernados, não lhes dando a menor chance de anotar as placas, visando a um possível e eventual futuro acerto de contas com aqueles fragmentos de realidade. Tudo isso, graças ao desestruturado texto de autoria do escritor francês Joël Pommerat, depurado pela singular acidez extraída a partir dos sentimentos dos personagens, sob a acurada direção de João Fonseca e cujo produto se converte em uma vertiginosa dramaturgia atiçada pelo afinado elenco composto por Bianca Byington, Gustavo Machado, Louise Cardoso, Marcelo Valle, Reiner Tenente, Solange Badim e Verônica Debom. A mixagem sequencial dos esquetes é seguida pela articulação de um dinâmico cenário cujo projeto recebe a assinatura de Nello Marrense, potencializado pela sua integração ao texto que conduz o espectador à vitória contra o desapego. O figurino de Antônio Guedes exercita a impossibilidade de transformação dos ácidos personagens em exímios comediantes, retratando a filosofia das questões expurgadas por cada palavra proferida no palco, de mãos dadas com o visagismo de Diogo Nardes, acentuando as expressões faciais, com reflexo direto no semblante dos personagens. O desenho de luz cênica de Renato Machado é pródigo ao dar o devido desfecho a cada esquete de maneira dramática e ameaçadora, diante do que vem a seguir, dinamismo esse, também presente na direção de movimento de Alex Neoral – plenamente articulada e privilegiando todas as cenas, desde as minimalistas até as investidas de maior nível de complexidade.

O metafórico título do espetáculo traduz o reencontro de vidas amorosas apartadas pelo convívio e pelo tempo – fato presente na vida afetiva da maioria esmagadora dos núcleos afetivos, quer queira ser constatado, quer não. Por se tratar de um irônico retrato da sociedade contemporânea, “A Reunificação das Duas Coreias” demanda, tanto por parte do espectador solitário quanto dos acompanhados, momentos de reflexão ou debate sobre o atual conceito de amor, prestes a se tornar démodé, que sai da vida dos que se permitiram apaixonar, para entrar na história como um clássico exclusivo de uma seleta fração da sociedade.


sábado, 20 de agosto de 2016

Ben-Hur


Uma desnecessária e passiva panfletagem religiosa

O roteiro da atual releitura do clássico “Ben-Hur”, produzido para as telas de cinema, remonta o período cristão, quando o Império Romano, iniciado na política expansionista de conquista do mundo, chega a Jerusalém. A partir de então, dá-se início à história dos irmãos postiços – o judeu Ben-Hur, desempenhado por Jack Huston; e o descendente romano Messala, por Toby Kebbell – com suas trajetórias de vidas fraternais contaminadas por traições, ódio e vingança.

A direção etérea de Timur Bekmambetov rege um circo cheio de tolerância, de redenções e de fé cega que transcendem, de maneira ineficaz, tais virtudes que compunham, efetivamente, a receita do filme original de 1959. A atualidade enxertada em “Ben-Hur” de Bekmambetov se resume na sua versão em 3D, nas cenas tomadas por um frenesi convulsivo registradas por câmeras à beira de um ataque de nervos, em contraste com uma desnecessária e passiva panfletagem religiosa.

No frigir dos ovos, Bekmambetov lança no mercado cinematográfico um pouco mais daquilo que já existe – muito bem, obrigado – capaz de maravilhar os fãs de filmes épicos em meio a uma atmosfera bíblica e decepcionar aqueles que esperam uma roupagem nova para uma história, onde a psiquê dos personagens poderia promover, de forma contributiva, desde uma análise pessoal silenciosa consigo mesmo, até um debate coletivo sobre a essência dos seres humanos e suas relações interpessoais.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Como é que pode?


Universo de magia e ilusionismo que, como em um passe de mágica, é transformado em um simples palco com vistas à apresentação de uma comédia em pé

O melhor de um stand up comedy intercalado por esquetes conduzindo um surpreendente show de mágicas – “Como é que pode?” dá o nome à atração estrelada pelo talentoso e ousado Gabriel Louchard, cujas apresentações vem lotando o Teatro das Artes, na Gávea, durante a atual temporada 2016 – em uma das quais, o Circuito Geral se faz presente e constata a capacidade do comediante ilusionista de hipnotizar os olhares da plateia, independente da faixa etária de sua composição, em seu espetáculo para toda a família.

A dupla Maurício Rizzo e Louchard assina a autoria do projeto que induz o público a questionar como ser possível, por exemplo, um espectador desaparecer, de forma assombrosa, em pleno palco, diante da atenção de todos, dando total respaldo ao nome do espetáculo. A inspirada direção de Leandro Hassum faz da apresentação uma surpreendente e fascinante viagem a caminho de um inusitado mundo de ilusões, tanto para quem já foi, quanto ainda é ou permanece criança. O projeto de luz cênica, de autoria de Wilson Reiz, promove um forte aliado ao desempenho de Louchard, ao fazer com que a magia encenada se torne uma experiência pessoal e intransferível, diante daqueles à procura dos “erros” e em busca da lógica que desvendem os acertos do mágico humorista. O figurino de Paulo Barbosa redesenha um jovem ilusionista – longe dos estereótipos de seus antepassados mágicos circenses – traduzido para a atualidade de um contador de histórias engraçadas. O fundo infinito negro é a base do projeto cenográfico de Fernando Alexim que promove uma dimensão amigável para a concentração das atenções no universo de magia e ilusionismo que, como em um passe de mágica, é transformado em um simples palco com vistas à apresentação de uma comédia em pé. Créditos especiais – ao coadjuvante assistente de palco, Robson Junior, que favorece Louchard a ressaltar, de maneira divertida, os improvisos, as piadas e servindo, até mesmo, o de termômetro da plateia, a cada apresentação; e para a indispensável interatividade não constrangedora da plateia, junto a Louchard, no palco.

Os genuínos e merecedores aplausos constantes, ao longo de toda a apresentação, endossam a receptividade da ousada proposta de composição do espetáculo por parte do espectador exigente que, diante das ilusões levadas ao palco, se dá ao trabalho de questionar “Como é que Pode?” – de modo a estimular, cada vez mais, a criação de algo que, de tão simples, seja inovador, a ponto de provocar a resposta minimalista por parte de Louchard, como, simplesmente, “podendo”.

domingo, 14 de agosto de 2016

Perfeita é a Mãe


Possivelmente, um remédio a ser ministrado para aqueles que sofrem do transtorno patológico diagnosticado como perfeccionismo

“Bela, recatada e do lar” – conceitos que não se aplicam ao longa “Perfeita é a Mãe”, dirigido a quatro mãos, por Jon Lucas e Scott Moore. Seu argumento exalta as imperfeições femininas a partir da protagonista Amy Mitchell que, ao constatar ser traída pelo do marido, chuta o balde e abre mão das aparências como exemplo de mulher perfeita para a sociedade. Sua construção sem estereótipo, por Mila Kunis, surpreende ao ser responsável pelo enquadramento do filme como comédia sobre os costumes americanos, longe de qualquer aprofundamento visando à análise comportamental ou ao julgamento moral.  O roteiro, de autoria de Lucas e Moore, é certeiro ao expurgar qualquer ranço de seriedade, juntamente com os conceitos sobre mulher, mãe exemplar e de família. A voluntária imaturidade, a admissibilidade dos clichês, juntamente com obviedade presente nas atitudes dos personagens fazem de “Perfeita é a Mãe”, um filme empoderado pela sua imperfeição – possivelmente, um remédio a ser ministrado para aqueles que sofrem do transtorno patológico diagnosticado como perfeccionismo.


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Uma Noite Sem o Aspirador de Pó


A incapacidade de se descartar emoções e verdades

O desconfortante ato de “estar só” em meio a uma avalanche tecnológica imposta pelo mundo capitalista, sob luzes acesas durante a noite, à involuntária escuta de sons humanos emanados do apartamento vizinho, soterrado pelo silêncio do pensamento e afogado no vazio angustiante de uma mulher acometida por uma disposofobia que invade o universo de seus pensamentos e que encontra a resposta para os seus anseios junto à solidão medíocre de um homem.

Sob a direção compulsiva de Charles Asevedo, o espetáculo “Uma Noite Sem o Aspirador de Pó” repercute a incapacidade de se descartar emoções e verdades que, em sua plena desordem estéril, disponibiliza o sentido libertador dos incapazes de organizar seu espaço de convivência, seja ele real ou imaginário. Nesse contexto, Flávia Pucci é Aurea que, em sua comorbidade, sistematiza a carência de interlocução com seu aspirador de pó – a “quem”, afetivamente, lhe dá o nome de João Augusto – alimenta os laços afetivos por uma família imaginária composta por retratos 3x4 que vivem aos cuidados de uma valise batizada como Josephine, Tereza, uma tartaruga cega e Otto, um gato que prefere a companhia de Manuel – seu vizinho solitário e acometido pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo – interpretado por Joelson Medeiros – que após bater à sua porta, não consegue mais se desvencilhar daquela mulher.

O texto fantasioso de Priscila Gontijo, induz o espectador ao despertar sobre o estado de apatia diante da incompreensiva liberdade e suas distrações corriqueiras que causam medos e desamparos, imprimindo o que há de mais doentio no ser humano. A trilha sonora de Leonardo Netto preenche a ilusão camuflada de constatações, contemplando músicas de “Wynton Marsalis” e “Joey Altruda & His Cocktails Crew”. O projeto cenográfico de Carla Berri projeta a realidade dos problemas existenciais sem solução, dando total controle aos protagonistas, enquanto sala, cozinha, lar, cativeiro e mente. O figurino assinado por Maureen Miranda celebra a arte do encontro das diferenças – Aurea, em um universo sóbrio, mas inusitado no ponto de vista de Manuel, que por sua vez, é definido como um desapegado pelo visual segundo os seus valores sociais. A luminotecnia cênica de Valdemir Almeida é pungente, fomenta a dramatização dos transtornos presentes em cena e da angústia do sofrimento sem finalidade, de forma crua sem muitos efeitos, fornece a base das variantes dos desejos e vontades geradoras do existencialismo.

“Uma Noite Sem o Aspirador de Pó”, repleto de beleza estilística e de humor criativo e depurado de obviedade, seleciona os seus espectadores e os presenteia com uma reflexão filosófica da realidade mergulhada na resistência contra o incensado mundo vitimado pela terceira onda toffleriana.



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical


Transita entre o que é invisível e atinge o imaginário do espectador com as letras sob forma de declamação e canto

A forte veia ativista político-social latente nas canções de Gilberto Gil e presente em sua carreira desde os tempos da Tropicália, define a base do roteiro do espetáculo “Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical”, de autoria e direção de Gustavo Gasparani, destacando, em meio a livre narrativa, canções recortadas e levadas ao contexto ilustrado de um mensageiro que paira entre o céu e a terra.

A direção musical de Nando Duarte transita entre o que é invisível e atinge o imaginário do espectador com as letras sob forma de declamação e canto, dentre elas: “Esperando na Janela”, “O Compositor me Disse”, “Palco” e um grito de “Somos todos Gilberto Gil” – transformado em um mantra pela plateia. A direção de movimento e coreografia de Renato Vieira reavivam a origem da relação recorrente entre a tradição e o contemporâneo, nos movimentos ora delicados, ora viris. A cenografia assinada por Helio Eichbauer, em sua departamentalização que não se distancia dos conceitos religiosos que se cruzam com a política, torna indissociáveis personagens, letras, músicas, crenças e filosofias. O figurino de Marcelo Olinto dá a dimensão cultural exigida pelo artista homenageado, com toda a sua multiplicidade que transpassa o simples conceito de ilustração dos personagens. O projeto de luz de Paulo Cesar Medeiros é revelador e tenso, a cada polissemia eclodida por entre texto e música, propondo ao espectador poesia fluida em luminescência. O Videografismo de Thiago Stauffer registra as canções quase como um griot tecnológico e, dessa forma, promove a compreensão da história que se desenrola em doses homeopáticas, com efeitos alopáticos. O visagismo de Marcio Mello é eficiente no contexto sócio-econômico dos momentos históricos apresentados no espetáculo. O elenco composto por Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima transpota para o palco a filosófica viagem entre a crença em Deus e a preocupação com a existência humana proeminente em toda a obra de Gil, de maneira concisa e artisticamente encantadora.

“Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical” faz das letras de Gil um intenso texto acessível ao grande público pelas canções fundamentais que desenham um país carente do eterno Deus Mu Dança.


domingo, 7 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida


Pseudo sentimento de amizade e companheirismo

Como um prólogo acelerado – uma a uma das nove fichas criminais de um seleto processo de recrutamento em meio aos piores supervilões já presos por heróis são passadas à limpo, de forma dinâmica e eficiente, diante dos olhos dos cinéfilos sedentos pela dinâmica prestes a aflorar o que há de mais perverso e traiçoeiro no universo daqueles bandidos. A operação manobrada por uma agência governamental liderada por Amanda Waller (Viola Davis), com vistas ao extermínio de uma entidade que ameaça a paz, contraria as vocações e a essência da índole dos bandidos, e os forçam a combaterem o mal em troca da redução ou perdão total de suas sentenças. A coerção se faz através da ameaça de morte, por meio remoto, em caso de tentativa de fuga, de ameaça à segurança da missão ou, até mesmo, em caso de insucesso. Slipknot (Adam Beach), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez), Katana (Karen Fukuhara), Magia (Cara Delevingne), Pistoleiro (Wil Smith) e Rick Flag (Joel Kinnaman) protagonizam o “Esquadrão Suicida”, liderado por este último.

Os atualíssimos moldes dos HQs transportados para as telas, sob a fluídica direção de David Ayer, e a excelente trilha sonora que conta com a banda dos anos de 1960 - The Animals, Creedence Clearwater e das atuais Grimes e Panic! At The Disco – são responsáveis pelo tom assumido pelo longa durante os 130 minutos de projeção – desde as apresentações iniciais até os créditos finais, deixando em segundo plano os antecedentes criminais dos protagonistas, mas exaltando as suas capacidades frente à luta contra ameaças superpoderosas. O pseudo sentimento de amizade e companheirismo que permeia a história, equivale a uma ressaca na qual a dor de cabeça é uma constante e sem previsão de melhora, neste, sequer nos próximos filmes que o esquadrão venha a estrelar – talvez pela coerência impregnada na fala de Will Smith, a partir de seu “Pistoleiro” – “não esqueça, somos os caras maus”. Margot Robbie explora a sensualidade psicótica de Arlequina e transforma cada cena em que está presente em momentos violentamente divertidos.  As participações de The Flash e de Batman são meros mimos para seus fãs, sem qualquer intercessão com vistas à salvação da humanidade frente à destruição em progresso. O Coringa, incorporado por Jared Leto, tangencia a uma participação coadjuvante inserida em uma história e em um corpo aos quais não pertence. Contudo, ainda restam traços de promessa para a sequência do filme, muito em função das cenas extras pós créditos.

Pode não parecer, para os desavisados, mas a trilha percorrida pelo Esquadrão Suicida data do final dos anos 50, o que dá pano para manga para os aficionados na biografia dos personagens se sentirem no direito de emitirem suas opiniões sobre o processo criativo dos mesmos, nos moldes das telas de cinema, resultando em críticas positivas, negativas e apartes como profundos pesquisadores do universo HQ – o que, de fato, o são. Críticas à parte, o atual roteiro assinado por Ayer, sem sombra de dúvida, não só delega ao público o papel de cúmplices ao retirar os vilões da prisão e usá-los no combate ao crime, mas também o libera, ao sair das salas de projeção, com o sentimento de total inocência, digna daqueles acometidos pela sociopatia rotineira e louvada pelos anti heróis do mundo real.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Lenda de Tarzan


Mera releitura de um clássico que merece o status de, apenas, mais uma adaptação sobre a vida de Lorde Greystoke

Mais uma vez, a lendária história de Tarzan, originalmente concebida pelo escritor norte-americano, Edgar Rice Burroughs, em 1912, é reeleita para uma nova adaptação para as telas do cinema.

Diferente daquilo que o título sugere, “A Lenda de Tarzan” se empenha mais na apresentação de um novo episódio da saga do Homem Macaco, do que recontar, através de recursos inéditos, a sua origem, e de que forma conquistou a sua supremacia em meio aos animais da selva. O produto, digno de uma sessão televisiva vespertina, brota de um roteiro desinteressante, apesar do trabalhado a quatro mãos por Adam Cozad e Craig Brewer. Em meio a peças de um quebra cabeça formado por flashes, sem qualquer compromisso com a definição final de um quadro acabado, que sugerem o início da saga de Tarzan, é desenvolvida uma história ambientada na Londres do final do século XIX. Nesse contexto, Tarzan, já tramitado o seu processo de civilização, se apresenta como Jon Clayton III – interpretado por Alexander Skarsgard – toma conhecimento das intervenções do imperialismo europeu no Congo – lugar onde foi criado, a partir do qual ficou conhecido como Tarzan – sugerindo a instauração de um possível processo de escravidão envolvendo os habitantes daquela região.

A direção de David Yates soa dramática ao apresentar o sofrimento em forma de selvageria libertadora. Apesar do investimento em tecnologia de ponta para a produção, o que confere à película a capacidade de promover bons minutos de lazer – a partir de uma diversidade de cenas de ação estilizadas, com direito a deslocamentos pela selva por meio de cipós, ao brado emblemático do herói e à atmosfera romântica promovida pelo icônico relacionamento entre Tarzan e Jane – a fidelidade da fauna, criada a partir de efeitos especiais e computação gráfica, fica a desejar – fato agravante em se tratando da temática da história.

No frigir dos ovos, é possível constatar que os fãs do Homem Macaco podem passar muito bem sem a “A Lenda de Tarzan” de Yates – mera releitura de um clássico que merece o status de, apenas, mais uma adaptação sobre a vida de Lorde Greystoke.