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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A Reunificação das Duas Coreias


Um irônico retrato da sociedade contemporânea


A fragilidade de sentimentos totalmente desnudados pode ser constatada no espetáculo “A Reunificação das Duas Coreias” – cuja atual temporada 2016, no Teatro Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, chega à sua última semana.

Em cena, um festival de conflitos invade a racionalidade de cada um dos personagens, costura uma generosa sequência de esquetes, desconexos entre si mas com foco comum nas relações amorosas, e recebem títulos individualizados – dentre eles: “amizade”, “divórcio”, “morte”, “maternidade”, “amor”, “casamento”, “dinheiro” e “filhos” – que vão de encontro aos espectadores como caminhões desgovernados, não lhes dando a menor chance de anotar as placas, visando a um possível e eventual futuro acerto de contas com aqueles fragmentos de realidade. Tudo isso, graças ao desestruturado texto de autoria do escritor francês Joël Pommerat, depurado pela singular acidez extraída a partir dos sentimentos dos personagens, sob a acurada direção de João Fonseca e cujo produto se converte em uma vertiginosa dramaturgia atiçada pelo afinado elenco composto por Bianca Byington, Gustavo Machado, Louise Cardoso, Marcelo Valle, Reiner Tenente, Solange Badim e Verônica Debom. A mixagem sequencial dos esquetes é seguida pela articulação de um dinâmico cenário cujo projeto recebe a assinatura de Nello Marrense, potencializado pela sua integração ao texto que conduz o espectador à vitória contra o desapego. O figurino de Antônio Guedes exercita a impossibilidade de transformação dos ácidos personagens em exímios comediantes, retratando a filosofia das questões expurgadas por cada palavra proferida no palco, de mãos dadas com o visagismo de Diogo Nardes, acentuando as expressões faciais, com reflexo direto no semblante dos personagens. O desenho de luz cênica de Renato Machado é pródigo ao dar o devido desfecho a cada esquete de maneira dramática e ameaçadora, diante do que vem a seguir, dinamismo esse, também presente na direção de movimento de Alex Neoral – plenamente articulada e privilegiando todas as cenas, desde as minimalistas até as investidas de maior nível de complexidade.

O metafórico título do espetáculo traduz o reencontro de vidas amorosas apartadas pelo convívio e pelo tempo – fato presente na vida afetiva da maioria esmagadora dos núcleos afetivos, quer queira ser constatado, quer não. Por se tratar de um irônico retrato da sociedade contemporânea, “A Reunificação das Duas Coreias” demanda, tanto por parte do espectador solitário quanto dos acompanhados, momentos de reflexão ou debate sobre o atual conceito de amor, prestes a se tornar démodé, que sai da vida dos que se permitiram apaixonar, para entrar na história como um clássico exclusivo de uma seleta fração da sociedade.


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