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domingo, 28 de agosto de 2016

Cinderella


“O sexo frágil”

A versão patriarcal da mulher sexo frágil que Charles Perrault introduz em seu conto de fadas “Cinderella” – delineando uma donzela que necessita da ajuda de um príncipe para resgatá-la de uma vida de sofrimentos provocados por sua madrasta e por suas duas filhas – é redesenhada no texto de Douglas Carter Beane, onde a subversão da gata borralheira, vai muito além da passividade da órfã de Perrault, que não quer ver nada além de seu umbigo.

O deslocamento do ponto de vista do observador promove uma perspectiva traçada com base em novos pontos de fuga definidos pela estruturada direção de Charles Möeller e Claudio Botelho, que capacita “Cinderella, de Rodgers e Hammerstein” satisfazer os anseios do público infantojuvenil e de seus acompanhantes adultos – e porque não dizer, os anseios do público adulto, permitindo-lhe a companhia de sua prole e agregados infantojuvenis. Trata-se de uma produção que lança mão da beleza e do potencial de voz, enquanto um espetáculo musical, mas também como um instrumento de revolução político-social confiado à protagonista borralheira, interpretada por Bianca Tadini. A tripudiante antagonista “Madrasta”, incorporada por Totia Meirelles, exitosamente abrilhanta e solidifica a base para o desenvolvimento de Bruno Narchi – no papel o príncipe Topher; de Ivanna Domenyco – a fada madrinha Marie; Raquel Antunes e Cristiana Pompeo respectivamente Charlotte e Gabrielle as filhas da madrasta; Bruno Sigrist o revolucionário Jean-Michel, e grande elenco composto por, Carlos Capeletti, Nick Vila Maior, Andrei Lamberg, Conrado Helt, Fabio Yoshihara, Laura Visconti, Letícia Mamede, Lia Canineu, Mariana Amaral, Naomy Schölling, Philipe Azevedo, Ricardo Mesquita, Thati Abra, Thiago Garça, Aline Campos, Barbara Mesquita, Flávio Rocha, Jorge Assunção, Mário Beckman e Patrícia Athayde.

A coreografia de Alonso Barros se agiganta de forma diretamente proporcional à boca de cena do Teatro Bradesco Rio – casa de espetáculos na qual o Circuito Geral constata a grandiosidade e requinte presentes na produção – tomada pela cenografia operesca de Rogério Falcão, que transita em meio à dicotomia hierárquica retratada pela plebe proletária e pelos nobres da realeza. O figurino de Carol Lobato constrói paradigmas onde a posição de gênero é enaltecida e definida nos simbolismos contidos na história. A iluminação de Maneco Quinderé materializa o irreal e dá o devido suporte ao desafiante ilusionismo que transporta para o palco surpreendentes personagens videográficos e encantadores efeitos especiais, dignos de superprodução. Coroando a tipologia do espetáculo, a vibrante direção musical de Carlos Bauzys dá o tom da festa, abrilhanta a coreografia e preenche de ternura a atmosfera romântica e os momentos em que os sonhos se tornam realidade.

Contrariando o paradigma da mulher como objeto da figura masculina, se desvencilhando da fragilidade ao se desprender das maldades de sua madrasta e, ainda assim, fazendo do perdão, uma metralhadora contra o inimigo, “Cinderella, o Musical” destrói o estereótipo da mulher como “o sexo frágil” e a coloca em um patamar que transpõe a fantasia presente no inconclusivo “e foram felizes para sempre”.

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