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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Uma Noite Sem o Aspirador de Pó


A incapacidade de se descartar emoções e verdades

O desconfortante ato de “estar só” em meio a uma avalanche tecnológica imposta pelo mundo capitalista, sob luzes acesas durante a noite, à involuntária escuta de sons humanos emanados do apartamento vizinho, soterrado pelo silêncio do pensamento e afogado no vazio angustiante de uma mulher acometida por uma disposofobia que invade o universo de seus pensamentos e que encontra a resposta para os seus anseios junto à solidão medíocre de um homem.

Sob a direção compulsiva de Charles Asevedo, o espetáculo “Uma Noite Sem o Aspirador de Pó” repercute a incapacidade de se descartar emoções e verdades que, em sua plena desordem estéril, disponibiliza o sentido libertador dos incapazes de organizar seu espaço de convivência, seja ele real ou imaginário. Nesse contexto, Flávia Pucci é Aurea que, em sua comorbidade, sistematiza a carência de interlocução com seu aspirador de pó – a “quem”, afetivamente, lhe dá o nome de João Augusto – alimenta os laços afetivos por uma família imaginária composta por retratos 3x4 que vivem aos cuidados de uma valise batizada como Josephine, Tereza, uma tartaruga cega e Otto, um gato que prefere a companhia de Manuel – seu vizinho solitário e acometido pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo – interpretado por Joelson Medeiros – que após bater à sua porta, não consegue mais se desvencilhar daquela mulher.

O texto fantasioso de Priscila Gontijo, induz o espectador ao despertar sobre o estado de apatia diante da incompreensiva liberdade e suas distrações corriqueiras que causam medos e desamparos, imprimindo o que há de mais doentio no ser humano. A trilha sonora de Leonardo Netto preenche a ilusão camuflada de constatações, contemplando músicas de “Wynton Marsalis” e “Joey Altruda & His Cocktails Crew”. O projeto cenográfico de Carla Berri projeta a realidade dos problemas existenciais sem solução, dando total controle aos protagonistas, enquanto sala, cozinha, lar, cativeiro e mente. O figurino assinado por Maureen Miranda celebra a arte do encontro das diferenças – Aurea, em um universo sóbrio, mas inusitado no ponto de vista de Manuel, que por sua vez, é definido como um desapegado pelo visual segundo os seus valores sociais. A luminotecnia cênica de Valdemir Almeida é pungente, fomenta a dramatização dos transtornos presentes em cena e da angústia do sofrimento sem finalidade, de forma crua sem muitos efeitos, fornece a base das variantes dos desejos e vontades geradoras do existencialismo.

“Uma Noite Sem o Aspirador de Pó”, repleto de beleza estilística e de humor criativo e depurado de obviedade, seleciona os seus espectadores e os presenteia com uma reflexão filosófica da realidade mergulhada na resistência contra o incensado mundo vitimado pela terceira onda toffleriana.



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