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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Acorda pra Cuspir


Horrores do humor perverso

O texto “Wake me up and smell the coffee”, de autoria de  Eric Bogosian, ganha versão nacional, por Mauricio Guilherme, sob o título “Acorda pra Cuspir”.  

Focada na confusão e na consternação do mundo atual, a direção de Daniel Herz surpreende ao transformar a boca de cena da sala de espetáculos em um enorme espelho, refletindo a consciência do espectador que se permite impactar pelos horrores do humor perverso – humor que embarga as risadas por parte de quem se identifica com o objeto da piada; humor sem compaixão para com as verdades individuais; humor sem paciência com aqueles que se tomam como seres especiais, amparados por suas crenças, mesmo conscientes de sua insignificância perante a vida louca. A mordaz atuação de Marcos Veras administra a sátira peculiar de Bogosian e desconstrói assuntos sobre religião, fama e materialismo, dentre outros, e faz com que o público “caia na real” e perceba o ator como um mero reflexo daquilo que não é permitido refletir - respaldado pela hipocrisia latente em meio a tantos na plateia, quiçá, seu vizinho de poltrona. O cenário sóbrio de Fernando Mello da Costa transpira Inteligência raivosa que destila a nefasta sagacidade do autor, manifestada por meio de manequins sósias do protagonista, espalhados por todo o palco, como se coadjuvantes passivos diante da angustiante busca por respostas que somente seus lábios serrados poderiam proferir. O figurino de Antônio Guedes potencializa a exposição de Veras e dos manequins figurantes, inserindo os mesmos no contexto do desencantador retrato da humanidade. Duda Maia dirige os movimentos como engrenagens que se utilizam de Veras e de seus sósias como eixos em contínuo disparo, tal e qual uma metralhadora apontada em direção ao extermínio de uma plateia, de forma impiedosa e sedenta pelo início de uma chacina contra a “ética amoral”. Como se prenunciando o apocalipse silencioso ou violentamente orgástico no momento em que as luzes se apagam, indicando o final do espetáculo, a iluminação de Aurélio de Simoni dá o tom do drama presente na narrativa do personagem, contrapondo com a comédia intrínseca na figura do ator, muito provavelmente, objeto de busca pela maioria dos espectadores.

Sem se esquivar das perturbadoras perguntas, “Acorda pra Cuspir” aponta o dedo na cara dos medos coletivos e, com isso, satiriza os subjetivos valores sociais do público presente, com uma inflexível e inigualável honestidade.

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