Counter

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Desculpe o Transtorno

Lamentável investida comercial amparada pela subutilização de talentos

A desculpa, para os românticos, pode ser interpretada como um ato de amor; para os religiosos, tomar para si a responsabilidade sobre os próprios atos e desejos; para os filósofos, uma redenção humana à sua capacidade de entender o seu papel no mundo; para os sofredores, amadurecimento emocional e a constatação de suas imperfeições; para os práticos, a inutilidade frente à resolução de seus problemas – sejam de ordem prática, financeira ou amorosa. Divagações à parte, o filme “Desculpe o Transtorno” é um belo exemplo de tudo isso. Sob a direção engessada de Tomás Portella, o longa exerce uma forte pressão sobre o espectador, durante infindáveis noventa minutos, para que o mesmo possa vir a encontrar a razão para que um pedido de desculpas seja aceito de todo o coração.

A assembleia de humoristas de ponta composta por Clarice Falcão, Dani Calabresa, Gregório Duvivier e Rafael Infante, que agrega as participações especiais dos artistas exponenciais Marcos Caruso e Zezé Polessa, é pulverizada em meio ao fraco roteiro de autoria de Tatiana Maciel e de Célio Porto, finalizado por Adriana Falcão, saturado de um humor de qualidade duvidosa e cujo potencial não vai além de provocar risos com ares de piedade por parte dos fãs menos exigentes. Infrutífero se faz qualquer traço de esforço com intenção de levar ao público, a história de um homem acometido pelo transtorno dissociativo de identidade – também conhecido como dupla personalidade – em decorrência de sua incapacidade de enfrentar situações limites que o levem a uma escolha e que se manifesta sempre quando se desloca no trecho Rio-São Paulo via ponte aérea – dessa forma tornando-se outra pessoa.
Lançando o seu olhar irônico contra a produção objeto desta abordagem, o Circuito Geral encontra traços comuns entre a formalidade expressa no pedido de perdão do protagonista pela sua perturbação congênita e uma possível tentativa de um tardio reparo moral, frente ao público, por parte da produção, por tê-lo feito sair da santa paz de seus lares, para constatar uma lamentável investida comercial amparada pela subutilização de talentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário