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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Ricardo III


Presenteia os apreciadores do bom teatro com a leitura do que há de mais atual no cerne de todos os seres humanos

“Ricardo III” – ficção histórica de autoria do dramaturgo inglês William Shakespeare, escrita entre 1592 e 1593, que se baseia em fatos reais da vida do Rei Ricardo III da Inglaterra, retratando a sua ascensão sanguinária ao trono e seu efêmero reinado – retorna aos palcos cariocas, dessa vez, no Teatro Café Pequeno em curta temporada, a preços populares.

Para a tranquilidade dos aversos da obra shakespeariana porém, apreciadores das ousadas e instigantes produções teatrais, o espetáculo que contempla a releitura e adaptação do clássico por Sérgio Módena em parceria com Gustavo Gasparini – ambos atores, diretores e dramaturgos cariocas – é dirigido, com precisão cirúrgica por Módena e habilmente representado por Gasparini que supera o desafio de materializar virtualmente, diante dos olhos dos atônitos espectadores, através de um monólogo, vinte e um do total de cinquenta e quatro personagens que, originalmente, fazem parte do drama composto de cinco atos, durante apenas noventa minutos ininterruptos.

A atmosfera medieval inglesa presente na dramaturgia de Shakespeare dá lugar a um palco travestido em uma acolhedora sala de aulas onde Gasparini – como se incorporando o papel de um mestre – instrui a plateia – como se composta por discípulos – a melhor maneira de assimilar uma aula de história prestes a ser dramatizada em meio a mobiliário e objetos familiares a um espaço acadêmico, aproximando os espectadores à obra do “Bardo do Avon”, de forma mais amigável.

Vestido com a simplicidade com a qual um professor se apresenta aos seus alunos, nos dias de hoje, com seus cabelos cortados, barba feita e sem aditivos que o possam maquiar excessivamente, o único ator presente no palco – após introduzir, de forma extremamente didática as dinastias de Iorque e de Lancastre, datadas em meio aos séculos XIV e XV – Gasparini induz a plateia a lançar mão da imaginação e assume o semblante e gestual do maquiavélico e despótico Ricardo – notadamente, preservando um ranço de humor, mesmo que negro, na tentativa de atenuar o peso do personagem obcecado pelo poder, sem limites para atingir os seus propósitos, assassino de seus irmãos, sobrinhos e de qualquer um que possa representar um obstáculo em sua vida.

A genialidade da produção de “Ricardo III” conta, adicionalmente, com a direção de movimento de Marcia Rubin, que imprime uma peculiar estranheza que traz, para o centro dos acontecimentos, a potência dos personagens que orbitam ao redor do manipulador Ricardo. A direção musical de Marcelo Alonso Neves corrobora na percepção e sedução do espectador em meio à encenação e narrativa. A cenografia de Aurora dos Campos internaliza, ao resumir em um quadro branco, as cartas de uma história sequenciada e comentada por Gasparini. O figurino de Marcelo Olinto, cria a empatia necessária ao transmitir a imagem de um acadêmico que ministra suas aulas com ajuda de adereços. O visagismo ponderado de Marcio Mello contribui nas encarnações de Gasparini – seja quando mulher, quando homem, quando jovens, quando velhacos.

É notório se perceber, em meio à dramatização adaptada de “Ricardo III”, a indução do espectador à definição de um paralelo entre a trajetória do tirano inglês e a sede de poder na política atual – na qual se faz presente o aético binômio “custe o que custar” e “a qualquer preço” de modo a garantir os interesses pessoais em detrimento do direito democrático – culminando em uma deliciosa cobertura de farsa teatral. Acima das expectativas, “Ricardo III” presenteia os apreciadores do bom teatro com a leitura do que há de mais atual no cerne de todos os seres humanos – sejam déspotas ou simplórios democratas, pois todos carecem de aceitação, uma vez que o desamparo e a rejeição são combustíveis indispensáveis para a aceleração de um mal – bem maior.

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