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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Vanessa da Mata - “Delicadeza”


Simpatia, amor à arte e respeito ao seu público

Dia 21 de outubro de 2016, o Teatro Bradesco Rio acolhe, em seu palco, toda a graça de Vanessa da Mata, em única apresentação de “Delicadeza” – show intimista, acompanhado pelo piano de Danilo Andrade e pelo violão de Maurício Pacheco. 

“Viagem” abre a noite daquela sexta-feira sob uma atmosfera escarlate pontuada pela translucidez do figurino da cantora, compositora e escritora, que dá seguimento ao espetáculo com “Samba a Dois”, de Marcelo Camelo, ainda em pleno aquecimento junto à plateia. Ratificando a sua generosidade e adesão às parcerias que vem colecionando com tanto sucesso ao longo de sua brilhante carreira, Vanessa induz seus fãs, sem maiores esforços, a se manifestarem como segunda voz coletiva em “Espere Por Mim Morena”, de Gozaguinha. Tagarelice e descontração também fazem parte do perfil carismático de Vanessa que não poupa tempo de espetáculo com sua prosa que a qualifica como eximia contadora de histórias, transformando as apresentações de “Te Amo”, “Ainda Bem” e “Amado” em deliciosa viagem em meio a seletos sucessos de sua discografia, consagrados pela crítica e pelo público.

Na eminência da finalização do espetáculo, o aclamado bis acontece com a emissão dos primeiros acordes vocais de “Segue o Som” provenientes de um ponto inusitado – as últimas poltronas da plateia se tornam o palco a partir de onde Vanessa se entrega ao público, de corpo e alma, com direito a apertos de mãos, abraços e selfies. Cercada pelos seus fãs, Vanessa, sem qualquer intenção de acelerar aquele momento, se deixa ser vagarosamente conduzida ao palco oficial, enquanto se entrega à interpretação de “Nossa Canção”, transformando aquele momento em uma demonstração de simpatia, amor à arte e respeito ao seu público. A generosidade do bis reflete a essência da cantora que se despede do público com mais quatro canções, contemplando: “Nada Mais” – uma versão de Ronaldo Bastos para a música “Lately” de Stevie Wonder; “It’s Too Late” de Carole King; e fechando, brilhantemente com “Love Will Tear Us Apart” de Joy Division.

A turnê “Delicadeza” continua, no mês de novembro de 2016 – no dia 11, no Teatro Guarany, em Pelotas, RS e no dia 12, no Campus URI/FW, em Frederico Westphalen, SC.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Capote


Denuncia, de forma exponencial, a futilidade, a prepotência e o preconceito latentes no texto de Gógol

“O Capote” – novela lançada em 1842, que conta a história de Akaki Akakiévitch – um funcionário público pertencente a uma classe menos favorecida financeiramente, relativamente aos seus colegas de repartição, apesar de pautar sua vida exclusivamente em função do seu ofício. Sua rotina diária se resume em, simplesmente – acordar; sair de casa para ir ao trabalho; no trabalho, fazer cópias de documentos; sair do trabalho de volta para casa, levando, consigo, alguns documentos  para adiantar o trabalho em casa. A ação começa quando Akaki se dá conta de que está precisando de um casaco novo – uma vez que, devido ao estado avançado de desgaste de seu traje, os colegas de repartição, jocosamente, passam a não mais se referirem à vestimenta de Akaki como casaco, mas pelo desdenhoso termo “capote”.

Com base no texto do proeminente escritor russo/ucraniano, estilo realista, Nikolai Gógol – cuja obra produzida na primeira metade do século XIX já apresentava traços do que viria a ser o surrealismo – a Companhia “Os Betessetes” apresenta, no Teatro dos Quatro na Gávea – Rio de Janeiro, o espetáculo “O Capote”. A adaptação elaborada a seis mãos – por Anna Paula Borges, Eduardo Vaccari e Leonardo da Selva – é atualíssima ao retratar a prática do bullying por parte dos colegas de repartição contra o protagonista. A direção de Eduardo Vaccari denuncia, de forma exponencial, a futilidade, a prepotência e o preconceito latentes no texto de Gógol, ao extrapolar a funcionalidade do traje simbolicamente a uma máscara, que não se basta como um agasalho, mas algo que carece de admiração por outrem. A direção musical de Charles Kahn fomenta o subterfúgio das máscaras individuais de cada um dos personagens – não necessariamente configuradas a partir de suas vestimentas – tornando-se um recurso essencial à degustação do espetáculo pelo público ao longo do desenvolvimento da trama. A direção vocal por Rose Gonçalves e a de movimento por Sueli Guerra se equilibram diante da faceta bufonesca e pantomímica dada ao espetáculo, com especial atenção à caricatura e aos exageros com que o protagonista Akaki é desenhado. A iluminação de Wilson Reiz define a frieza reinante no âmago dos personagens, colorindo o palco como uma doença que vai se agravando ao alucinar com a chegada da morte – alternando dinamismo e congelamento das cenas e definindo, através da atmosfera cerúlea, os momentos eminentemente surrealistas. O cenário e o figurino assinados por Nívea Faso são funcionais ao atender, dinamicamente, a transformação das cenas ocorridas em uma repartição, em cenas que transportam os espectadores às ruas de São Petersburgo, sempre marcadas por uma multiplicidade de capotes pendurados no palco em um fundo infinito.

Vinte e um atores em cena formam o grande elenco de “O Capote” – Aline Guioli, Anna Paula Borges, Aryela Reis, Bruno Barros, Camilla Malaquias, Chris Mello, Desirée Della Volpe, Flavia Bittencourt, Gabriella Busich, Henrique Lott, Ícaro Salek, Juliana Rolim, Leonardo da Selva, Luana Leal, Patrícia Caliari, Pedro Queiroz, Raphaella Vallone, Tássia Leite, Tayane Cully, Vitória Beatriz e Yndara Barbosa sintetizam a existência de Akaki Akakiévitch – o homem que copiava e consolidam um entusiasmante documento teatral sobre o que se repete e copia, no que tange ao essencial na vida, sem dar, na maioria das vezes, os devidos créditos aos seus verdadeiros autores.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

5xComédia


Humor inteligente, em cinco tempos

... uma pausa na dura rotina da vida para degustação de puro humor inteligente, em cinco tempos, no palco do OI Casa Grande.

Segundo a psicoterapeuta e escritora norte-americana Betsy Cohen, o fato da decadência da imagem feminina refletida em um espelho ser imediatamente associada à sua idade é capaz de desencadear na mulher, um processo de pré-depressão, digno de se configurar em síndrome sob o ponto de vista clínico e social. Seguindo essa mesma vertente, o texto “Branca de Neve” de autoria de Julia Spadaccini é interpretado por Debora Lamm, com todo o potencial humorístico que a atriz traz em sua veia artística, personificando a princesa que, ao se enxergar desprezada, cheia de concorrentes, com a autoestima minada e totalmente insegura, discorre, de forma divertida, sobre o seu declínio físico e pessoal.

Em um segundo momento, a dura “realidade” dos contos de princesas é substituída pelo desvendar da dura “fantasia” escondida atrás da realização do sonho de um indivíduo pelo mistério da geração da vida, após a qual, se encontra vitimado pela experiência compartilhada com sua esposa, do processo “divino” de fertilização e de cultivo, durante nove longos meses, o fruto de um efêmero ato de amor. O texto “Nana, nenê”, assinado por Antônio Prata e “tragicomicamente” interpretado por Bruno Mazzeo, retrata a reviravolta na vida de um homem pela paternidade, que o lança em meio a uma experiência nada abençoada, mas inquietantemente engraçada.

Em continuidade à sequência dramática contida na vida de cada um dos personagens até então apresentados, a sociedade se faz presente através da hilária incorporação de uma “Arara Vermelha” por Fabiula Nascimento, que cumpre o seu esquete taramelando o texto escrito por Jô Bilac. Do alto de seu poleiro, no interior de uma Pet Shop, a esganiçada ave expõe ao público múltiplas formas de expressar as suas supostas verdades, a farsa do convívio, a hierarquia das classes, a festa da felicidade imaginária, o desamparo do amor próprio, o controle do politicamente correto, a diversidade unilateral e o profundo desejo por um mundo intrincado socialmente. Um mundo que, em um quarto momento, Pedro Kosovski impõe à personagem incorporada por Thalita Carauta em “Milho aos Pombos” – uma engraçadíssima reflexão acerca da segregação daqueles que estereotipam a profissão de figurante, estigmatizada como plataforma dos aspirantes a serem reconhecidos como famosos e célebres.

Finalmente, esgarçando o tecido da sociedade contemporânea, “Regras de Convivência”, escrito por Gregório Duvivier – considerado, pelo Circuito Geral, o texto menos divertido do espetáculo, apesar do frustrado insofismável empenho de Lúcio Mauro Filho em transformá-lo em uma máquina reprodutora de sinceras gargalhadas. A faceta desse esquete gira em torno de experiências de relações livres de um casal, a partir das quais o marido aceita se submeter à prática do poliamor, sem saber, ao certo, do que se trata. Porém, durante uma festinha íntima em seu apartamento, a esposa se expõe se relacionando com seus convidados, a inexperiência e o conservadorismo colocam em xeque o sentimento do marido pela sua mulher. Seria cômico se não fosse desconcertante.

Sob a mesma direção dos anos 1990, de Hamilton Vaz Pereira, com parceria de Monique Gardenberg na atual montagem, cinco seletos dramaturgos somados a cinco inquestionáveis comediantes revivem “5xComédia”, após um hiato de 20 anos fora dos palcos. A ficha técnica de primeira grandeza – contemplando cenário de Daniela Thomas e Camila Schimidt, iluminação de Maneco Quinderé e figurino de Cássio Brasil – faz do espetáculo um programa certeiro e que, sem sombra de dúvida, emplacará na história do teatro como o fez nos anos de 1990, quando Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães, Claudia Raia, Patrícia Travassos, Miguel Magno, Pedro Cardoso, Andréa Beltrão, Denise Fraga, Débora Bloch e Fernanda Torres marcaram suas presenças na memória afetiva de todos os apreciadores da segunda arte.

domingo, 16 de outubro de 2016

Inferno


“Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”

Após “O Código Da Vinci” e “Anjos e Demônios”, “Inferno” é o terceiro longa lançado com base nos sucessos literários do escritor norte-americano Dan Brown, protagonizado pelo professor de iconografia religiosa e simbologia da Universidade de Harvard – Robert Langdon, personificado, até então, por Tom Hanks . Mesmo seguindo o formato das produções anteriores, o roteiro de “Inferno”, assinado por David Koepp, inova enquanto fornece pílulas e informações cheias de reviravoltas que fazem do filme um verdadeiro percurso em montanha russa, ao longo dos mais de cento e vinte minutos de projeção. A direção de Ron Howard formula uma trama mirabolante que, a cada minuto, aguça a curiosidade do espectador, com muita ação e cenas que atingem em cheio os nervos do espectador.

O local é Florença - Itália, onde, em um hospital, Langdon desperta em meio a um quadro de amnésia, diagnosticado pela Dra. Sienna Brooks, interpretada por Felicity Jones que, através de sua doce aparência, capta o mistério e a inteligência da personagem de Brown, com extrema competência e carisma. Langdon, sem saber como chegou ao local, tem como pista somente um pequeno projetor que reproduz a obra Mappa dell’Inferno, de Botticelli que, após ser submetida à sua criteriosa avaliação, percebe ter sido adulterada.

Em “Inferno” o foco da trama se concentra na real preocupação com a superpopulação do planeta e consequente escassez dos recursos naturais para sustentá-la. Mesmo com o seu desfecho, de certa forma, decepcionante, o longa é capaz de cultivar, em cada um dos espectadores, o interesse em conhecer melhor cada uma das três partes do poema que faz parte do livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri – “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Lady Christiny


“Ela é do sexo masculino”

Impulso homossexual – estímulo gerador de controvérsias, de repúdio e de manifestações violentamente contrárias à legitimidade de sua existência, como uma expressão natural da sexualidade humana, a despeito de qualquer escolha.

Divagações à parte, o Circuito Geral constata o conteúdo artístico do sexto projeto teatral de autoria da Documental.Cia – depois de Domésticas, O Pastor (https://goo.gl/JgnG8N), Acabou o Pó (https://goo.gl/aU052K), Nordestinos (https://goo.gl/EiumuO) e Volúpia da Cegueira (https://goo.gl/kTtEiW) – sem qualquer intenção de se prestar como um veículo de auto ajuda para os que têm dificuldade em aceitar e assumir sua própria sexualidade. Tampouco se propõe a se lançar como um espetáculo que apregoa a mudança de conceitos preconcebidos, mas simplesmente, contar uma história baseada em fatos reais com grande potencial para ampliar os horizontes do espectador disposto à assimilação de conteúdo capaz de lapidar a sua maneira de encarar o mundo. Uma história sobre Lady Christine – uma mulher de 42 anos, 174 cm de altura, 74 quilos, 105 cm de busto, 115 cm de quadril, 87 cm de cintura. Nascida em Gravatá, Pernambuco - como toda cidade do nordeste, é quente, mas à noite faz frio. Tem mãe, não tem pai. Sua mãe mora no Rio de Janeiro com ela porém, cada uma em sua própria casa. Lady Christine acha melhor assim. Ela é morena, pai de dois filhos. Viúva. Ela é diretora do SATED, sindicato dos artistas do Rio de Janeiro que não sabe para que serve até hoje. Seu sangue é B positivo – bacana, não é mesmo? Ela é do sexo masculino.

Dividido por momentos identificados por “Vamos Falar Sobre Celso” – especificamente sobre a sua heterossexualidade; “Tudo Bonitinho, Tudo Nos Conformes” – a união que se desdobrou no nascimento de dois filhos; “A Garota do Colégio” – quando se vê apaixonado por outro homem; “É Assim Que Tem Que Ser na Década de 1980” – o apoio dado pela esposa ao demonstrar a sua compreensão diante da paixão de seu marido por outro homem, sugerindo que Celso assuma a sua identidade feminina. O personagem incorporado por Alexandre Lino desperta para a sua homossexualidade, sujeita às avaliações veladamente preconceituosas, se resguardando perante à sociedade com vistas a não provocar reações contrárias ao seu comportamento por aqueles que pudesse julgar não aceitá-lo. O texto de Daniel Porto fundamenta o homoerotismo, argumenta a homofobia e desqualifica o impulso homossexual como passível de qualquer tipo de tratamento médico que se proponha a curar o indivíduo tomado pela manifestação da homo afetividade. A direção de Maria Maya é pulsante ao ajustar o discurso – amparado pela preparação vocal de Gina Martins – o gestual e o comportamento de Lino enquanto ele mesmo, enquanto Celso, enquanto Lady Christine. Maya define, desde o acesso do público à sala de espetáculo, uma atmosfera intimista ao som de músicas alternativas e em estilo Neo Cabaret e faz dos espectadores, personagens reais e atuantes, simbioticamente com o ator em cena, consagrando o que a Documental.Cia denomina Teatro do Pertencimento. A dramática iluminação de Renato Machado é marcante enquanto paralisa a busca contínua do personagem na tentativa de vivenciar o seu desejo e enquanto obscurece as cenas diante da exposição das razões de seus desejos – segundo sutil e eficaz sincronia.

Em um mundo em que comentários como – “Eu optei por me espelhar num Leonardo da Vinci, e não em um travesti de rua, que se veste de mulher e se prostitui” e ocupado por indivíduos que se dizem “a favor da família tradicional” e que colocam em dúvida a fertilização in vitro intitulando as crianças que nascem por esse processo de “sintéticas”, o espetáculo “Lady Christiny” corrobora a onipresença do preconceito, independentemente de lugar e de grupo social e aponta para a necessidade da reavaliação do preconceito de estimação arraigado nos indivíduos, de modo a lhes preservar a continuidade da vida a salvo dos efeitos causados pelas cargas pré-concebidas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Festa da Salsicha


Massacra o fanatismo dos politicamente corretos


Uma história infantil politicamente correta, repleta de personagens carismáticos – em sua maioria, muito fofos – capazes de provocar a verbalização de interjeições que expressam encantamento por coisas dóceis – bem do tipo “awwwnnn” – nos adultos que, após a sessão, saem com os semblantes de quem acaba de promover um programa educativo para seus pimpolhos serelepes e fagueiros – que, por sua vez, extravasam a sua hiperatividade pelos corredores do cinema.

Pois bem, o filme “Festa da Salsicha” não se enquadra nesse contexto, muito menos na classificação etária dos pequenos, uma vez que sua produção tem um objetivo claramente definido: a exposição nua e crua de um mundo que contraria o conceito de homogenia e de moralidade concebido pelos idealistas, onde o sexo, opção sexual, drogas, preconceitos, racismo e religião, figurativamente, são componentes de um produto cuja acidez corrói os bons costumes, tão apregoados pelos indivíduos que comungam do “bem” e da “boa vontade”.

A destruidora direção de Conrad Vernon e Greg Tiernan invade, paulatinamente, a assimilação da história por parte dos espectadores e massacra o fanatismo dos politicamente corretos. O descarado roteiro assinado por Seth Rogen, Evan Goldberg, Ariel Shaffir e Kyle Hunter traz à luz o que se faz invisível ao olhar dos religiosos, dos humanistas e das pessoas guardiãs das subjetivas verdades absolutas. A versão brasileira conta com a parceria do “Porta dos Fundos”, garantindo, com base nas entrelinhas do humor negro, gargalhadas coerentes e despudoradas, provocadas pelas vozes de Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Antonio Tabet, Guilherme Briggs, Thati Lopes e Fábio Porchat.