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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Lady Christiny


“Ela é do sexo masculino”

Impulso homossexual – estímulo gerador de controvérsias, de repúdio e de manifestações violentamente contrárias à legitimidade de sua existência, como uma expressão natural da sexualidade humana, a despeito de qualquer escolha.

Divagações à parte, o Circuito Geral constata o conteúdo artístico do sexto projeto teatral de autoria da Documental.Cia – depois de Domésticas, O Pastor (https://goo.gl/JgnG8N), Acabou o Pó (https://goo.gl/aU052K), Nordestinos (https://goo.gl/EiumuO) e Volúpia da Cegueira (https://goo.gl/kTtEiW) – sem qualquer intenção de se prestar como um veículo de auto ajuda para os que têm dificuldade em aceitar e assumir sua própria sexualidade. Tampouco se propõe a se lançar como um espetáculo que apregoa a mudança de conceitos preconcebidos, mas simplesmente, contar uma história baseada em fatos reais com grande potencial para ampliar os horizontes do espectador disposto à assimilação de conteúdo capaz de lapidar a sua maneira de encarar o mundo. Uma história sobre Lady Christine – uma mulher de 42 anos, 174 cm de altura, 74 quilos, 105 cm de busto, 115 cm de quadril, 87 cm de cintura. Nascida em Gravatá, Pernambuco - como toda cidade do nordeste, é quente, mas à noite faz frio. Tem mãe, não tem pai. Sua mãe mora no Rio de Janeiro com ela porém, cada uma em sua própria casa. Lady Christine acha melhor assim. Ela é morena, pai de dois filhos. Viúva. Ela é diretora do SATED, sindicato dos artistas do Rio de Janeiro que não sabe para que serve até hoje. Seu sangue é B positivo – bacana, não é mesmo? Ela é do sexo masculino.

Dividido por momentos identificados por “Vamos Falar Sobre Celso” – especificamente sobre a sua heterossexualidade; “Tudo Bonitinho, Tudo Nos Conformes” – a união que se desdobrou no nascimento de dois filhos; “A Garota do Colégio” – quando se vê apaixonado por outro homem; “É Assim Que Tem Que Ser na Década de 1980” – o apoio dado pela esposa ao demonstrar a sua compreensão diante da paixão de seu marido por outro homem, sugerindo que Celso assuma a sua identidade feminina. O personagem incorporado por Alexandre Lino desperta para a sua homossexualidade, sujeita às avaliações veladamente preconceituosas, se resguardando perante à sociedade com vistas a não provocar reações contrárias ao seu comportamento por aqueles que pudesse julgar não aceitá-lo. O texto de Daniel Porto fundamenta o homoerotismo, argumenta a homofobia e desqualifica o impulso homossexual como passível de qualquer tipo de tratamento médico que se proponha a curar o indivíduo tomado pela manifestação da homo afetividade. A direção de Maria Maya é pulsante ao ajustar o discurso – amparado pela preparação vocal de Gina Martins – o gestual e o comportamento de Lino enquanto ele mesmo, enquanto Celso, enquanto Lady Christine. Maya define, desde o acesso do público à sala de espetáculo, uma atmosfera intimista ao som de músicas alternativas e em estilo Neo Cabaret e faz dos espectadores, personagens reais e atuantes, simbioticamente com o ator em cena, consagrando o que a Documental.Cia denomina Teatro do Pertencimento. A dramática iluminação de Renato Machado é marcante enquanto paralisa a busca contínua do personagem na tentativa de vivenciar o seu desejo e enquanto obscurece as cenas diante da exposição das razões de seus desejos – segundo sutil e eficaz sincronia.

Em um mundo em que comentários como – “Eu optei por me espelhar num Leonardo da Vinci, e não em um travesti de rua, que se veste de mulher e se prostitui” e ocupado por indivíduos que se dizem “a favor da família tradicional” e que colocam em dúvida a fertilização in vitro intitulando as crianças que nascem por esse processo de “sintéticas”, o espetáculo “Lady Christiny” corrobora a onipresença do preconceito, independentemente de lugar e de grupo social e aponta para a necessidade da reavaliação do preconceito de estimação arraigado nos indivíduos, de modo a lhes preservar a continuidade da vida a salvo dos efeitos causados pelas cargas pré-concebidas.

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