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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Capote


Denuncia, de forma exponencial, a futilidade, a prepotência e o preconceito latentes no texto de Gógol

“O Capote” – novela lançada em 1842, que conta a história de Akaki Akakiévitch – um funcionário público pertencente a uma classe menos favorecida financeiramente, relativamente aos seus colegas de repartição, apesar de pautar sua vida exclusivamente em função do seu ofício. Sua rotina diária se resume em, simplesmente – acordar; sair de casa para ir ao trabalho; no trabalho, fazer cópias de documentos; sair do trabalho de volta para casa, levando, consigo, alguns documentos  para adiantar o trabalho em casa. A ação começa quando Akaki se dá conta de que está precisando de um casaco novo – uma vez que, devido ao estado avançado de desgaste de seu traje, os colegas de repartição, jocosamente, passam a não mais se referirem à vestimenta de Akaki como casaco, mas pelo desdenhoso termo “capote”.

Com base no texto do proeminente escritor russo/ucraniano, estilo realista, Nikolai Gógol – cuja obra produzida na primeira metade do século XIX já apresentava traços do que viria a ser o surrealismo – a Companhia “Os Betessetes” apresenta, no Teatro dos Quatro na Gávea – Rio de Janeiro, o espetáculo “O Capote”. A adaptação elaborada a seis mãos – por Anna Paula Borges, Eduardo Vaccari e Leonardo da Selva – é atualíssima ao retratar a prática do bullying por parte dos colegas de repartição contra o protagonista. A direção de Eduardo Vaccari denuncia, de forma exponencial, a futilidade, a prepotência e o preconceito latentes no texto de Gógol, ao extrapolar a funcionalidade do traje simbolicamente a uma máscara, que não se basta como um agasalho, mas algo que carece de admiração por outrem. A direção musical de Charles Kahn fomenta o subterfúgio das máscaras individuais de cada um dos personagens – não necessariamente configuradas a partir de suas vestimentas – tornando-se um recurso essencial à degustação do espetáculo pelo público ao longo do desenvolvimento da trama. A direção vocal por Rose Gonçalves e a de movimento por Sueli Guerra se equilibram diante da faceta bufonesca e pantomímica dada ao espetáculo, com especial atenção à caricatura e aos exageros com que o protagonista Akaki é desenhado. A iluminação de Wilson Reiz define a frieza reinante no âmago dos personagens, colorindo o palco como uma doença que vai se agravando ao alucinar com a chegada da morte – alternando dinamismo e congelamento das cenas e definindo, através da atmosfera cerúlea, os momentos eminentemente surrealistas. O cenário e o figurino assinados por Nívea Faso são funcionais ao atender, dinamicamente, a transformação das cenas ocorridas em uma repartição, em cenas que transportam os espectadores às ruas de São Petersburgo, sempre marcadas por uma multiplicidade de capotes pendurados no palco em um fundo infinito.

Vinte e um atores em cena formam o grande elenco de “O Capote” – Aline Guioli, Anna Paula Borges, Aryela Reis, Bruno Barros, Camilla Malaquias, Chris Mello, Desirée Della Volpe, Flavia Bittencourt, Gabriella Busich, Henrique Lott, Ícaro Salek, Juliana Rolim, Leonardo da Selva, Luana Leal, Patrícia Caliari, Pedro Queiroz, Raphaella Vallone, Tássia Leite, Tayane Cully, Vitória Beatriz e Yndara Barbosa sintetizam a existência de Akaki Akakiévitch – o homem que copiava e consolidam um entusiasmante documento teatral sobre o que se repete e copia, no que tange ao essencial na vida, sem dar, na maioria das vezes, os devidos créditos aos seus verdadeiros autores.

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