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domingo, 13 de novembro de 2016

Antes do Café


Um espetáculo em um ato, sob dois pontos de observação

Um espetáculo em um ato, sob dois pontos de observação – de uma plateia em direção ao palco e de um palco em direção a uma plateia.
Sistematizada a partir da conjugação dos olhares, de forma indissociável, de seus redatores artístico e técnico, Paulo Sales e Mauro Senna, respectivamente, a série de resenhas publicadas pelo Circuito Geral se permitirá, pela primeira vez, apresentar, de forma individualizada, o ponto de vista de Sales – em meio aos acontecimentos no palco, juntamente com outros quatorze espectadores; e o de Senna – na plateia, lançando o seu olhar, em sua maior parte, através do visor ótico de sua câmera digital, como na grande maioria dos espetáculos cobertos fotograficamente.

Por Paulo Sales – em meio a um espaço conjugado, composto por uma grande sala mobiliada com duas mesas, sendo uma ladeada por uma cadeira e um outro assento sem encosto, posta para o café da manhã, e outra como apoio a utensílios de toucador, sobre a qual destaca-se um abajur; e por uma pequena cozinha equipada com uma bancada que serve de apoio a um diminuto fogão e uma pia cuja torneira de parede recebe a alimentação de água por intermédio de um reservatório fixado na parede, entre os quais, uma prateleira de madeira serve como descanso para toda sorte de produtos de cozinha e de acessórios culinários. Adjacente à cozinha, um hall íntimo, cuja parede sustenta um diploma emoldurado e uma pequena estante com livros, conduz ao quarto do casal Rowland.  Dado momento, supostamente ao alvorecer, a Sra. Rowland surge de sua alcova e inicia um percurso, pelo visto, rotineiro diário, através daquele espaço conjugado, pondo-se a refletir e a choramingar enquanto prepara o dejejum com o pouco disponível em sua improvisada dispensa, durante duros minutos de privação de qualquer verbalização por parte da personagem. No máximo, a emissão de sons que podem ser tomados por sussurros e gemidos de amargura – mas repletos de ruídos promovidos por seus passos, pela água que flui pela torneira e pelos objetos manuseados que cortam o silêncio ensurdecedor, que certamente comove, que perturba e que intervém no emocional dos espectadores sentados naquele aposento, compartilhando, inevitavelmente, daqueles aparentes infindáveis momentos que amarguram aquela mulher sofrida e totalmente desesperançada. Quebrando a sua auto imposição ao silêncio, durante os primeiros minutos da manhã, a Sra. Rowland clama por Alfred, seu marido, sem com isso receber qualquer resposta daquele que, aparentemente, ainda se dá o direito ao sono, vitimado pelas ofensas de sua esposa, que o faz lembrar ser um estorvo  desempregado e por não mais levar dinheiro para casa, há muito – e que, possivelmente, jamais mais será capaz de fazê-lo, mesmo que assim, o quisesse. Fontes de luz ofuscantemente desnudas e que parcamente iluminam a cena que se desenrola naquele palco, transforma a plateia em fundo infinito escurecido e opalescente, dando a nítida impressão de que os privilegiados quatorze eleitos para subir ao palco fossem os únicos presentes, invisíveis aos olhos da Sra. Rowland.

Por Mauro Senna – a partir de um semi breu sustentado pela ausência de uma iluminação teatral sistematizada, enquanto espectadores adentram a sala de espetáculos, plateias acomodadas, eis que se materializa uma boca de cena sob um desenho de luz composto por lâmpadas de filamento, expostas sem qualquer proteção de dispositivos que justifique denominá-las luminárias. Algumas delas, responsáveis por uma triste emissão luminosa comparável à luz de candeeiro, em sua maioria, ofuscando a percepção da infinidade de elementos cenográficos e complementos distribuídos em meio aquele espaço, contemplando funções de estar, de refeições, de lavanderia, de vestir, de pentear e de maquiar. Compondo o interior, de forma casual e involuntária, e retratando o estado de degradação do amor pela vida – uma poltrona no meio da sala se torna berço de restos daquilo que um dia poderia ser chamado de boneca / uma mesa de refeições aguarda a presença de duas pessoas, aparentemente, jamais presentes, visando ao compartilhando de momentos de prazer e de diálogo / outra mesa, em primeiro plano, acolhe sob si um baú de madeira, que somente Deus é capaz de conceber o que há em seu conteúdo, e sobre a qual um abajur, quando aceso, torna aquele conjunto, um dos melhores elementos de composição da cena / extrema esquerda, uma diminuta bancada engastada na parede, em parceria com uma prateleira suspensa e, em primeiro plano, uma mesinha de apoio em madeira torneada, compartilham suas superfícies  com objetos, utensílios, dispositivos de alimentação de água e de iluminação, definindo aquele espaço como cozinha, sob intenso contraste lumínico que define claros e escuros comparáveis a pinturas renascentistas “Rembrandtianas” / extrema direita, ao fundo, um varal de roupas improvisado, ocupado por peças íntimas e outros panos, se impõe como instalação mesclada ao que resta da estamparia, aparentemente floral, do revestimento das paredes, e sobre as quais, um quadro clama pela proteção divina daquela casa, outro quadro se perde em meio à desproporcionalidade entre seu tamanho e o da parede onde se encontra pendurado e marcas de outros tantos que não mais existentes, desafiam a intenção de, um dia, terem se tornado elementos decorativos / centralizados, ao fundo, um espelho de parede emoldurado por madeira escura, ladeado por um cabide de pé, sustentando roupas que, possivelmente, são usadas repetidamente, dia após dia, em decorrência de uma voluntária falta de opção / no limite extremo direito da boca de cena, não merecedor de resquícios de penumbra, sequer, se oculta um depósito, não necessariamente sob a forma de mobiliário, que parece abrigar utensílios de limpeza da casa / meio do caminho entre a cozinha e o cabide sentinela, a entrada do que pode supostamente se tratar do quarto de uma mulher e de um homem que, simplesmente, habitam sob o mesmo teto. Dá-se início ao espetáculo sob a demanda do estímulo aos sentidos da visão, da audição e do olfato, sob uma regência capaz de transportar os espectadores mais sensíveis, como em um passe de mágica, através do tempo, a situações há muito arquivadas em seu subconsciente. A passiva plateia no palco, transmite a formação de uma assembleia de fantasmas atônitos frente ao desespero da Sra. Rowland por uma luz no fim do túnel, possivelmente inatingível por opção, diante de uma acomodação involuntariamente desejada, ao longo da história de sua vida, e escrita, quem sabe, de seu próprio punho.

Tudo isso, “Antes do Café”, espetáculo cujo texto, de autoria de Eugene O'Neill – dramaturgo anarquista e socialista estadunidense, merecedor agraciado pelo Nobel de Literatura de 1936 e Prêmio Pulitzer, por várias vezes – é regido pela genial direção de Jorge Farjalla.  Camadas de injúrias, indignação, luto e traição faz da estrela Nadia Bambirra uma Sra. Rowland desagradavelmente real. A cenografia inconformista imaginativa e realista de Camila Rodrigues arquiteta o espaço necessário ao texto, impregnado de melancolia, conforme concebido pelo diretor, que também assina a direção de arte, o desenho de luz e o figurino que nos remete a miséria caótica e que consagram o conjunto da obra, sem escapismo e sem inspiração romântica – apenas uma encarnação de tudo que pode fazer parte de nossas vidas, que não são privilegiadas pelo zelo preciosista de Farjalla.


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