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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Demônios


Nos corpos de todos os indivíduos, habitam

Conflitos conjugais e perversões sexuais represadas são habilidosamente extraídos das entranhas do subconsciente de quatro personagens pela direção de “Demônios”, por Bruce Gomlevsky – espetáculo baseado no texto do dramaturgo sueco Lars Norén, que disseca um hostil relacionamento de dois casais e dos casais entre si.  A noite regada de humilhações, revelações e repressão sexual estremada é compartilhada com uma plateia atônita, identificada e, por que não dizer, silenciosamente participativa, pelos casais Frank e Catarina – incorporado por Gomlevsky e Luiza Maldonado; e Tomas e Jenna – defendido por Gustavo Damasceno e Thalita Godoi.

Como um comboio que a pluralidade de talentos lhe confere, Gomlevsky, em parceria com Bel Lobo, assinam o perscrutante projeto cenográfico que retrata certo nível de sofisticação trash, a partir de móveis com design contemporâneo que compõem ambientes distintos, porém conjugados, palco de roupas íntimas espalhadas e que retratam o total desprezo e falta de zelo pela vida à dois. O figurino de Andrea Fleury transparece a tortura de ser o que terceiros esperam do comportamento dos indivíduos, mesmo quando a nudez deixa de ser um balsamo para a alma, mas uma vestimenta imposta a si mesmo por possíveis carência afetiva e falta de amor próprio. O desenho de luz de Elisa Tandeta alimenta as ligações hostis dos personagens de maneira sóbria e implacavelmente dramática.

Posto isso, espectadores passam a ser testemunhos passíveis de identificação com os personagens e suas neuras, a partir de um espetáculo que não esconde a prostração do cotidiano mesquinho e o torpe dos relacionamentos doentios, e que descreve vidas à dois com a força do rancor, comparada somente com a impotência humana diante dos “Demônios” que, nos corpos de todos os indivíduos, habitam.


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