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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Chacrinha, O Musical


Trajetória do “Menino Levado da Breca” de forma bem compacta


A versão pocket de “Chacrinha, O Musical”, com sessenta minutos de duração, se traduz como uma singela homenagem por parte da produção do evento Arena Banco Original, prestada ao “Velho Guerreiro”, no último sábado, dia 21 de janeiro de 2017, no Armazém 3 do Boulevard Olímpico, no Centro do Rio de Janeiro.

O espetáculo, que tem início com um medley contemplando: “Samba Soul”; “A Noite Vai Chegar”; “Sandra Rosa Madalena”; “O Último Romântico”, dentre outras músicas, descreve trajetória do “Menino Levado da Breca” de forma bem compacta, deixando claro que naquela noite, o drama assume os moldes de festa. Dessa forma, o texto de autoria de Pedro Bial e de Rodrigo Nogueira cumpre o papel de uma sucessão de pequenos elos frente à abundância de números musicais, longe de assumir a função de contador da história daquele que veio para confundir, não para explicar – repleta de sutilezas e de essência humana.

A proposta parece dar certo enquanto mobiliza os espectadores a cantar, a dançar, a participar do programa de calouros, respondendo aos chamados por “Terezinha” e competindo entre si pelas peças inteiras de bacalhau que são lançadas em direção à plateia. A mágica da transformação, extrai a essência de se estar com tudo e não estar prosa, do talento de Stepan Nercessian em sua melhor forma, travestido do apresentador icônico e subversivo. A direção de Andrucha Waddington procura driblar as perdas do roteiro original do espetáculo em decorrência da sua compactação que, em muitos momentos, assume os moldes de uma cornucópia que extravasa somente uma profusão de músicas em detrimento da exploração da trajetória do “Velho Palhaço”. Sucessos como: “Inútil”; “O Amor e o Poder”; “Sonífera Ilha”; “Menina Veneno”; “Pai”; “Conga La Conga”; e “O Tempo Não Pára” são interpretados segundo um formato, muitas vezes, caricata, por um seleto e grande elenco que resgata, carinhosamente, as imagens de ídolos como: Roberto Carlos, Ritchie, Ney Matogrosso; Benito Di Paula, Rossana e Fábio Jr, dentre muitos outros. O cantor Jerry Adriani é o convidado especial do programa Cassino do Chacrinha, surpreendendo a plateia, que vai ao delírio com a sua aparição no palco.

A interpretação coletiva de “Aquele Abraço” é o prenúncio do fim do programa que acaba quando termina – dessa vez, com um terno adeus a Abelardo “Chacrinha” Barbosa.


sábado, 21 de janeiro de 2017

Jogo Aberto


Uma divertida prática de análise de assuntos acometidos pela auto censura e rotulados como tabu

Segundo o filósofo Nietzsche, antes do casamento, todos deveriam se perguntar sobre a sua capacidade de sentir prazer em dialogar com o parceiro escolhido para toda a vida, até que a morte venha lhes separar. Caso positivo, convém a união; caso negativo melhor sequer tentar. Esse pensamento, limita o sexo a um segundo plano, longe de se tornar o verdadeiro respaldo que justifique a união entre duas pessoas com vistas a viverem felizes para sempre.

A reducionista dramaturgia de Jeff Gould – que estampa a relação estruturada somente no sexo alinhavado no desejo e na satisfação como algo banal e sem futuro – ejacula profundas questões pertinentes, nos moldes epicuriano, pela alcunha de tradutor e diretor do espetáculo, pelos quais Isser Korik se faz responsável – o porquê da prática do sexo com outras pessoas, senão com seu próprio cônjuge; o porquê do sexo ser mais interessante com outras pessoas que não aquela com quem se compartilha o dia-a-dia;  o porquê do sexo não ser encarado como um sentimento emotivo e não somente um desejo carnal; o porquê do sexo não ser valorizado com a mesma intensidade do amor; dentre muitas outras que possam passar pelo imaginário de cada um dos espectadores atentos à mobilização das estratégias que se articulam no palco de “Jogo Aberto”. Democraticamente, as respostas para cada questão levantada é algo pessoal e intransferível, experiência essa fomentada pelo desenrolar da história sobre três casais que se reúnem socialmente na casa de um deles, sem saber que a partir de um determinado estágio da interatividade daquele encontro, todos se vêm frente à frente com revelações mútuas sobre assuntos íntimos, pertinentes a cada um dos presentes – traição, liberalidade, disfunção erétil, insatisfação, repreensão sexual, dentre outros, que passam, inesperadamente, de um estágio limitado ao diálogo à prática.

De forma despretensiosa – inicialmente, beirando à introdução de uma comédia apelativa – o desempenho do elenco carnal, instintivo e libidinoso formado por André Bankoff, Samara Felippo, Natallia Rodrigues, Eduardo Leão, Nina Morena, Pedro Henrique Moutinho e Gabriella Vergani se revela como uma divertida prática de análise de assuntos acometidos pela auto censura e rotulados como tabu. A dinâmica do grupo que transborda carisma, cada um a seu modo, não esgota a essência fundamental contida no texto, que transcende a boca de cena e ultrapassa a estética do comportamento social imposto por cada um dos espectadores. A cenografia dialoga com a prática definida pelos casais e faz as honras da casa perante uma plateia capaz de se identificar no ambiente concebido por Paula de Paoli, seduzindo o público à permissividade da sua entrega à ilusão de estarem participando daquele jogo. O figurino de Luciano Ferrari reflete a características de cada indivíduo, suas emoções, suas vontades, seus desejos, seus erros e acertos – não necessariamente daqueles que os vestem, mas daqueles que se permitem à entrega a um determinado jogo, e pagar para ver. O desenho de luz, que acumula a tríplice atividade de Isser Korik, não tem pretensões pirotécnicas – é contido, entrelaça os dilemas como movimentos de um ato sexual sem nenhum amor, apenas consciente que deve iluminar, resplandecer e apagar.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Assassin’s Creed


História independente, a despeito da compreensão dos que sequer ouviram falar do jogo

Callum Lynch é único descendente de Aguilar de Nerha – membro da Irmandade dos Assassinos, que viveu na época da Inquisição espanhola e último proprietário da Maçã do Éden – encarnado por  Michael Fassbender, que dá vida ao assombrado e traumatizado Lynch – o escolhido para reviver as memórias de seu antepassado, na busca do artefato de origem misteriosa que guarda o segredo de como aniquilar com o livre-arbítrio humano.

Refletindo a fidedignidade da franquia do jogo Assassin’s Creed, diretamente das telas do computador para as telas do cinema, o roteiro apaziguador assinado por Adam Cooper, Michael Lesslie e Bill Collage e a direção de Justin Kurzel não focam somente nos fãs do jogo, mas constroem uma história independente, a despeito da compreensão dos que sequer ouviram falar do jogo.

A qualidade cinematográfica tem respaldo nas atuações  de Marion Cotillard, Ariane Labed, Michael Kenneth Williams, Brendan Gleeson,  Charlotte Rampling, Rufus Wright e Jeremy Irons, na fotografia de Adam Arkapaw e na comedida trilha sonora de Jed Kurzel.

A ideologia do filme “Assassin’s Creed” se debruça no aperfeiçoamento da humanidade, através de duas vertentes: a dos Assassinos e a dos Templários, beirando ao extremo da tragédia, mas sem nenhuma pretensão de perder a razão, segundo uma das revelações de sua essência: “Quando os outros homens seguirem cegamente a verdade, lembra-te... nada é verdade. Quando os outros homens estiverem limitados pela moralidade ou pela lei, lembra-te... Tudo é permitido. Nós trabalhamos nas sombras para servir a luz. Nós somos Assassinos. Nada é verdade, tudo é permitido”.

Tão democrático quanto o livre arbítrio - há controvérsias.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Fernanda Abreu - Rio 40 Graus


Quente como o verão carioca

Segunda noite de intensa programação multientretenimento na “Arena Banco Original” instalada no Armazém 3 do Boulevard Olímpico no Rio de Janeiro – a partir das 23:00 do dia 7 de janeiro de 2017, o DJ Marcelinho da Lua prepara a vibe do público que chega e se posiciona em frente ao palco programado para o show daquela noite. Minutos após 1h da madrugada do dia 8, no interior do galpão, a sensação térmica é Fernanda Abreu com o seu “Rio 40 graus”, cuja abertura se dá com “Amor Geral” – propagando, em meio ao seu público, a batida que calibra o ritmo dançante que define a essência de suas apresentações. Atento aos pormenores técnicos e artísticos e registrando todos os momentos do espetáculo sob a ótica do espectador através do visor de sua câmera digital, o Circuito Geral acompanha o desempenho de Fernanda Abreu, acompanhada pelo vocal da cantora Alegria Mattos, pela coreografia da bailaria Victorya Devin e pela banda composta por Tuto Ferraz - na bateria, por André Carneiro - no baixo, por Fernando Vidal - na guitarra, por Donatinho - nos teclados e por Vanderlei Silva - na percussão. Dando sequência ao playlist da noite, outro sucesso consagrado se faz presente com “Outro Sim”, após o qual Fernanda mostra que vale a pena e que é só “Saber Chegar”.“Bidolibido” mostra como é viver no estilo de um filme do tipo cinema bandido, mixado com “De Noite na Cama” - de Caetano Veloso, embarcando o público sedento por Fernanda Abreu em uma viagem no tempo, diretamente para o ano de 1995, sob uma atmosfera repleta de suingue-balanço-funk e batuque-samba-funk, ao som de “Veneno da Lata”. O frisson toma conta da plateia e dá a deixa para mais um recuo no tempo, até 1990, presenteando todos com um medley do seu primeiro álbum “SLA”, introduzindo o estilo baile funk naquele galpão.

Primeiro convidado da noite – Tony Garrido se integra ao baile e acelera com “A Estrada” para, logo em seguida, compor um duo com Fernanda Abreu, entoando o hino da rapeize – “Solteiro no Rio de Janeiro”. De volta à sua apresentação solo, Fernanda induz o público acreditar, com “Baile da Pesada”, que a festa não terá fim. Aplacando o ritmo acelerado da batida, sem com isso, deixar de elevar a temperatura crescente, a sensualidade toma conta do palco com “Double Love” e sua coreografia beirando o erotismo, abrindo caminho para a entrada do segundo convidado da noite, autor desse último sucesso musical – o carioca sangue bom, Fausto Fawcett que, como é de se esperar, não se contém e manda na lata o que todos os cariocas estão sentindo sobre o estado de calamidade que se encontra o estado do Rio de Janeiro – uma Fênix com a bala alojada que, por mais se queime em cinzas, mais alto é capaz de voar, a cada renascer. “Garota Sangue Bom” explode com o acompanhamento vocal do público, potencializando o barulho com “Kátia Flávia”, aplacado somente com a saída de Faucett do palco, que o entrega, novamente, ao desempenho de Fernanda Abreu. Na sequência de homenagens prestadas pelo show, Afrika Bambaataa também é lembrado em “Tambor” – o prenúncio do fim do show. Contudo, diante de uma plateia inconformada com a finalização do espetáculo, Fernanda e sua banda retornam ao palco para o bis na companhia de Garrido – com quem divide a entoada e ovacionada “Jorge da Capadocia” –  e na de Fausto Fawcett com “Rio 40 Graus” – fechando o showzaço quente como o verão carioca.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Passageiros


Ar filosófico de que o homem não nasceu para viver só

Uma colisão por conta de asteroides provoca uma falha em uma das cinco mil cápsulas da nave espacial Starship Avalon que transporta 5.259 pessoas submetidas à hibernação criônica programada para uma viagem de 120 anos. Em função do acidente, falhas na câmara de sono do passageiro Jim Preston - engenheiro mecânico de Denver, vivido por Chris Prat – tem sua hibernação interrompida noventa anos antes do fim do processo originalmente programado e tenta encontrar um modo de manter a sua integridade e prosseguir viagem até chegar à colônia Homestead II. Meses após aquela ocorrência, a passageira Aurora Dunn – escritora de New York, interpretada por Jennifer Lawrence – por fatores distintos aos que provocaram o despertar de Jim, também tem sua hibernação interrompida. Juntos descobrem diversos outros problemas que põem em risco a integridade da Starship Avalon, que poderiam impedir a sua chegada ao destino programado. A partir de então, Aurora e Jim assumem o compromisso de salvar a espaçonave, desembocando em uma história de amor ciberespacial.  
 
De forma extremamente pragmática, essa é a primícia do filme “Passageiros” que, sob a direção de Morten Tyldum, captura a atenção do espectador em função de um roteiro futurístico espacial mesclado com romance, com dose certa de suspense e drama, repleto de belas imagens e contemplando um certo ar filosófico de que o homem não nasceu para viver só, mesmo que para isso, haja necessidade de se lançar mão da essência egoísta e mesquinha, presente em todo ser humano.