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sábado, 21 de janeiro de 2017

Jogo Aberto


Uma divertida prática de análise de assuntos acometidos pela auto censura e rotulados como tabu

Segundo o filósofo Nietzsche, antes do casamento, todos deveriam se perguntar sobre a sua capacidade de sentir prazer em dialogar com o parceiro escolhido para toda a vida, até que a morte venha lhes separar. Caso positivo, convém a união; caso negativo melhor sequer tentar. Esse pensamento, limita o sexo a um segundo plano, longe de se tornar o verdadeiro respaldo que justifique a união entre duas pessoas com vistas a viverem felizes para sempre.

A reducionista dramaturgia de Jeff Gould – que estampa a relação estruturada somente no sexo alinhavado no desejo e na satisfação como algo banal e sem futuro – ejacula profundas questões pertinentes, nos moldes epicuriano, pela alcunha de tradutor e diretor do espetáculo, pelos quais Isser Korik se faz responsável – o porquê da prática do sexo com outras pessoas, senão com seu próprio cônjuge; o porquê do sexo ser mais interessante com outras pessoas que não aquela com quem se compartilha o dia-a-dia;  o porquê do sexo não ser encarado como um sentimento emotivo e não somente um desejo carnal; o porquê do sexo não ser valorizado com a mesma intensidade do amor; dentre muitas outras que possam passar pelo imaginário de cada um dos espectadores atentos à mobilização das estratégias que se articulam no palco de “Jogo Aberto”. Democraticamente, as respostas para cada questão levantada é algo pessoal e intransferível, experiência essa fomentada pelo desenrolar da história sobre três casais que se reúnem socialmente na casa de um deles, sem saber que a partir de um determinado estágio da interatividade daquele encontro, todos se vêm frente à frente com revelações mútuas sobre assuntos íntimos, pertinentes a cada um dos presentes – traição, liberalidade, disfunção erétil, insatisfação, repreensão sexual, dentre outros, que passam, inesperadamente, de um estágio limitado ao diálogo à prática.

De forma despretensiosa – inicialmente, beirando à introdução de uma comédia apelativa – o desempenho do elenco carnal, instintivo e libidinoso formado por André Bankoff, Samara Felippo, Natallia Rodrigues, Eduardo Leão, Nina Morena, Pedro Henrique Moutinho e Gabriella Vergani se revela como uma divertida prática de análise de assuntos acometidos pela auto censura e rotulados como tabu. A dinâmica do grupo que transborda carisma, cada um a seu modo, não esgota a essência fundamental contida no texto, que transcende a boca de cena e ultrapassa a estética do comportamento social imposto por cada um dos espectadores. A cenografia dialoga com a prática definida pelos casais e faz as honras da casa perante uma plateia capaz de se identificar no ambiente concebido por Paula de Paoli, seduzindo o público à permissividade da sua entrega à ilusão de estarem participando daquele jogo. O figurino de Luciano Ferrari reflete a características de cada indivíduo, suas emoções, suas vontades, seus desejos, seus erros e acertos – não necessariamente daqueles que os vestem, mas daqueles que se permitem à entrega a um determinado jogo, e pagar para ver. O desenho de luz, que acumula a tríplice atividade de Isser Korik, não tem pretensões pirotécnicas – é contido, entrelaça os dilemas como movimentos de um ato sexual sem nenhum amor, apenas consciente que deve iluminar, resplandecer e apagar.


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