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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A História de Nós 2

O reincidente e equivocado conceito de romantismo que ainda tem a sua fabricação em larga escala e data de validade cada vez menor

A constante reedição da dramaturgia que envolve o relacionamento entre casais, seja sob o manto negro da discordância interpessoal que, por sua vez, pode ser atenuada pela leveza lúdica da comédia, tem sido uma fórmula infalível capaz de levar o espectador atento ao texto à reflexão, provocando-lhe sensação de desconforto ou frouxos de risos tamanha a possibilidade de levá-lo à identificação do relacionamento fictício apresentado em cena com sua própria vida conjugal e amorosa.

Ao imprimir a atmosfera solitária de um casal em seu texto, materializado no espetáculo “A História de Nós 2”, Licia Manzo consegue convencer o espectador que nenhuma relação suprime a carência hereditária do achismo constante e que, o amor, por si só, é incapaz de matar a solidão. A direção de Ernesto Piccolo enriquece o conteúdo pragmático de Manzo e faz com que o espectador entenda, que só é possível manter um bom relacionamento quem está, primeiramente, bem consigo mesmo, independente de status social definido por condições financeiras, de questões sexuais bem ou mal resolvidas ou de satisfação pessoal com sua vida profissional. A cenografia de Clívia Cohen se impõe de maneira oportuna e acolhedora, mas ao mesmo tempo evasiva, representada pelos compartimentos individuais não identificados que cada um leva dentro de si, cercados de egoísmo, responsáveis pela garantia da infelicidade dos casais representados pelos protagonistas reinventados por Manzo. A trilha sonora de Rodrigo Penna é inclusiva e primordial às distintas etapas da vida pelas quais atravessam Lena e Edu, Mammy e Duca e Maria Helena e Carlos Eduardo, através de sucessos de Coldplay, The Cinematic Orchestra, George Michael, Rachel Yamagata, dentre outros. A iluminação de Maneco Quinderé fideliza o universo claustrofóbico do casal e abrange a angustiante conclusão de que cada fim é um novo começo ao apagar de cada refletor.

A interpretação de Alexandra Richter e Bruno Garcia – reforçada pela direção de movimento de Márcia Rubin, que organiza, com segurança, o ritmo de desenvoltura dos futuros separados – responde, de forma coercitiva, as óbvias questões que põem na berlinda, o prazer da vida a dois que já não mais podem ser chamados de casal, restando punir o reincidente e equivocado conceito de romantismo que ainda tem a sua fabricação em larga escala e data de validade cada vez menor.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Cura

Extrai beleza das piores e mais dolorosas cenas de horror sem perder a empalidecida tensão

A valetudinária estética apresentada no filme “A Cura” desperta o interesse e inebria os olhos do espectador de maneira impecavelmente mórbida.

O workaholic que Dane DeHaan protagoniza é enviado por sua empresa aos Alpes Suíços incumbido de trazer de volta o Diretor Executivo da mesma, que se encontra em um “Centro de Cura”, quando sofre um acidente de automóvel e acaba sendo internado naquela instituição, cercada de mistérios.

A direção de Gore Verbinski extrai beleza das piores e mais dolorosas cenas de horror sem perder a empalidecida tensão que o roteiro de Justin Haythe provoca na produção que definha aos olhos do espectador. A fotografia de Bojan Bazelli é lírica mas não faz com que a enferma história encontre “A Cura” em seus cento e quarenta e sete minutos.


Aliados


Apenas mais um filme

A história do espião canadense Max Vatan - Brad Pitt e da líder da resistência francesa Marianne Beausejour - Marion Cotillard que lutam contra o poderio nazista é o ponto de partida do filme “Aliados”, sob a direção de Robert Lee Zemeckis.

O roteiro assinado por Steven Knight consegue prender a atenção do espectador mas não surpreende e a desconstrução dos personagens não é capaz de criar a empatia necessária à direção de Zemeckis, fazendo de “Aliados”, apenas mais um filme da carreira do diretor, produtor e roteirista estadunidense.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Batistério


Purificação através do pecado

Aspersão ácida pulverizada a partir de argumentos bíblicos, sacramenta a purificação através do pecado – o espetáculo “Batistério” confronta o espectador com indivíduos tidos como criaturas da obra Divina, com veladas possíveis intenções de lhe fazer sentir incluído entre os que tomam o Santo Nome como forma a mascarar a sua hipocrisia. 

O espetáculo materializa a livre adaptação do texto de Rosmersholm de Henrik Ibsen com o remissivo texto de João Cícero, sob a égide de sua irrefutável direção. O projeto e objetos cenográficos concebidos por Ticiana Passos, além de ocupar toda a extensão do palco, expõe ao olhar do espectador, as coxias e os diversos subcenários onde se desenvolvem as cenas que acendem e apagam ao sabor do desenho de luz de Tomás Ribas que, por sua vez, lança fachos sobre os personagens, sem qualquer pudor, revelando sua imagem e semelhança ao Todo Poderoso, como os fanáticos religiosos apregoam, amparados por uma fé pouco convincente. A ritualística direção de movimento de Laura Samy disciplina a interpretação do elenco, composto por Ana Paula Novellino, Evandro Manchini, Laura Nielsen e Ricardo Ricco Lima, deixando transparecer a falta de espiritualidade preponderante diante do dilema de seus personagens.

As sagradas escrituras por Romanos, Coríntios, João, Mateus e Marcos são proferidas como prólogos de cada uma das cenas desenvolvidas pela família composta pelo Pastor Jacó, sua esposa – a cadeirante Rute, a empregada Hilda e o filho pródigo Davi, nas quais o fanatismo assume ares de doença, com seu pretexto de ajudar os que precisam, cegando-lhes e tirando-lhes a autoestima e redirecionando-os ao caminho do sacrifício místico.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hortance, a Velha


Um paralelismo entre velhice e envelhecer

Considerada pelos estudiosos como um fenômeno biológico com consequências psicológicas comportamentais de caráter existencial e interpretada como uma fase de mudanças da percepção do mundo, inerente à evolução humana, a velhice é capaz de provocar nos indivíduos, sérias perturbações contra os relacionamentos sociais do cotidiano – reflexões que podem ser identificadas no cerne do espetáculo “Hortance, a Velha”, refletido pela, diretora, autora, humorista, cronista e produtora brasileira, Grace Gianoukas, que vai ao encontro do significado real da velhice dentro de um cabaré, repleto de lembranças e quinquilharias acumuladas ao longo da vida da idosa.

A meticulosa concepção cenográfica de Juliana Carneiro discorre um processo singular, com grande potencial de condução do espectador à reflexão e ao questionamento, sobre quanto tempo falta para que o fenômeno biológico se apodere de sua própria casa, de seus amigos e familiares - temporalidade essa marcada pela sugestão de uma goteira dentro de uma bacia que, de tão presente no contexto do espetáculo, é capaz de se tornar um membro da família imaginária de Hortance, juntamente com as peças de mobiliário e sacos plásticos lotados de objetos há muito não usados, mas longe de serem considerados lixo – todos responsáveis pela dinâmica marcação de palco. A direção de Fred Mayrink dá liga à tríade cenografia-figurino-iluminação de modo a aguçar a percepção dos estágios da vida de Hortance, aprofundando a sua existência ao longo de sua trajetória. O texto de Gabriel Chalita traz à tona ilimitados numéricos – Freud, Satre, Napoleão, Getúlio, Madame Satã, Picasso, Nostradamus, Maquiavel, Einstein, Che Guevara, dentre outros – como se fizessem parte da máquina, denominada por Hortance, de sociedade produtora de gente frustrada, da qual ela mesma faz parte. O figurino, assinado por Alessandra Barrios, caracteriza a velhice burocrata e vislumbra a situação econômica e social da protagonista, em total sintonia com o cromatismo, a textura e o panejamento do cenário de Carneiro. Responsável pelo fomento da atmosfera do envelhecimento que paira no palco, acentuando transparência, o contraste entre cores frias e quentes e remetendo algumas cenas a telas Rembrantianas, o projeto de luz de Paulo Brakarz confere luz própria à encantadora idosa.

Ao contrário do que possa parecer, “Hortance, a Velha” assume o compromisso, consigo mesmo, de não se apresentar somente como um veículo de diversão, mas um instrumento de reflexão e de ensinamento com foco nos princípios de cada idoso, bem como estabelecer um paralelismo entre velhice e envelhecer.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Redemoinho


Fiel depositário de licenças poéticas baseadas no livro “O Mundo Inimigo – Inferno Provisório Vol. II” de Luiz Ruffato

A imanente direção de José Luiz Villamarim dedicada ao filme “Redemoinho” transcende a condição humana de seus personagens, a partir da tríade passado-presente-futuro, configurando a antiga amizade entre dois moradores da interiorana cidade de Cataguases, Minas Gerais – Luzimar e Gildo, fenomenalmente interpretados por Irandhir Santos e Júlio Andrade, respectivamente.

O drama tem início com a chegada de Gildo a Cataguases – vindo de São Paulo, para passar o Natal com sua mãe, interpretada por Cássia Kiss Magro; e com o retorno de Luzimar a sua casa após um dia de trabalho – esperado por sua esposa, defendida por Dira Paes, que o aguarda para passarem a véspera de Natal em família. Durante seus respectivos trajetos, seus caminhos se cruzam e os amigos se reencontram. A partir desse momento, a turbulência presente no passado comum os direciona para um intenso acerto de contas. A atemporalidade do roteiro de George Moura remete o espectador a uma cronicidade expansiva, confrontando-os com a pequenez humana dos personagens e fazendo-os com que a enxerguem em si mesmos. A infinitude fotográfica de Walter Carvalho sobrepõe as cenas ao texto, elucidando os hiatos entre os antes e os depois presentes nas vidas de cada personagem.

“Redemoinho” é fiel depositário de licenças poéticas baseadas no livro “O Mundo Inimigo – Inferno Provisório Vol. II” de Luiz Ruffato, o que engrandece, ainda mais, a linguagem contemplativa e a qualidade cinematográfica de Villamarim.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Frejat


“Pro Dia Nascer Feliz” – como de fato, acabara de  nascer, aquela madrugada de domingo

Ainda sob o impacto causado pelo lançamento de seu último CD “Frejat 2016”, o cantor, compositor e guitarrista brasileiro, no auge dos seus 54 anos, cumpre a sua tão esperada participação na agenda da “Arena Banco Original” – no Armazém 3 do Boulervard Olímpico, no sábado, dia 21 de janeiro de 2017, marcada por uma lotação beirando ao esgotamento da bilheteria. Com muito jogo de cintura – ao primeiro riff de sua guitarra e sem retorno de voz para o público devido a uma falha técnica – Frejat reinicia o show com “Maior Abandonado”, levando a plateia a participar ativamente consigo daquela canção que completa, nada menos, que 30 anos sucesso.

Dando sequência à sua apresentação, Frejat faz com que a sua versão de “Você Não Entende Nada”, de Caetano Veloso, fomente a euforia do público que, em seguida, devolve os cumprimentos de boa noite sob forma de devota ovação ao artista que passa a dividir o palco com Maria Gadú, cumprindo um repertório de abalar a estrutura daquele mais recente espaço alternativo, em plena zona portuária carioca – “Amor Para Recomeçar”, “Malandragem” e “Bete Balanço”. Com “Exagerado”, Gadú dá por encerrada a sua participação, para o desespero da plateia que, mesmo após a sua despedida do palco, se manifesta como se desejoso pela permanência do duo até a finalização do play list da noite. Ciente do clamor do público por muito mais de seu ídolo, Frejat presta uma singela homenagem ao Rock Brasil através dos sucessos: “Como Vovó Já Dizia” – de Raul Seixas; “Quando” – de Roberto Carlos; e “Agora Só Falta Você” – de Rita Lee. 


Uma breve pausa em nome da cordialidade, Frejat reverencia Jerry Adriani que prestigia o show do roqueiro com sua presença no Armazém 3. “Por que que a Gente é Assim” sugere o fim de um show para uma plateia eletrizante e inconformada com a despedida do artista, fazendo com que Frejat retorne ao palco, apresente a sua banda – composta por Billy Brandão, na guitarra; por Marcelinho da Costa, na bateria; por Bruno Migliari, no baixo; e por Maurício Barros, no teclado – e dê início ao bis com “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, seguida por “Puro Êxtase” e fechando a noite, em grande estilo, com “Pro Dia Nascer Feliz” – como de fato, acabara de  nascer, aquela madrugada de domingo.