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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hortance, a Velha


Um paralelismo entre velhice e envelhecer

Considerada pelos estudiosos como um fenômeno biológico com consequências psicológicas comportamentais de caráter existencial e interpretada como uma fase de mudanças da percepção do mundo, inerente à evolução humana, a velhice é capaz de provocar nos indivíduos, sérias perturbações contra os relacionamentos sociais do cotidiano – reflexões que podem ser identificadas no cerne do espetáculo “Hortance, a Velha”, refletido pela, diretora, autora, humorista, cronista e produtora brasileira, Grace Gianoukas, que vai ao encontro do significado real da velhice dentro de um cabaré, repleto de lembranças e quinquilharias acumuladas ao longo da vida da idosa.

A meticulosa concepção cenográfica de Juliana Carneiro discorre um processo singular, com grande potencial de condução do espectador à reflexão e ao questionamento, sobre quanto tempo falta para que o fenômeno biológico se apodere de sua própria casa, de seus amigos e familiares - temporalidade essa marcada pela sugestão de uma goteira dentro de uma bacia que, de tão presente no contexto do espetáculo, é capaz de se tornar um membro da família imaginária de Hortance, juntamente com as peças de mobiliário e sacos plásticos lotados de objetos há muito não usados, mas longe de serem considerados lixo – todos responsáveis pela dinâmica marcação de palco. A direção de Fred Mayrink dá liga à tríade cenografia-figurino-iluminação de modo a aguçar a percepção dos estágios da vida de Hortance, aprofundando a sua existência ao longo de sua trajetória. O texto de Gabriel Chalita traz à tona ilimitados numéricos – Freud, Satre, Napoleão, Getúlio, Madame Satã, Picasso, Nostradamus, Maquiavel, Einstein, Che Guevara, dentre outros – como se fizessem parte da máquina, denominada por Hortance, de sociedade produtora de gente frustrada, da qual ela mesma faz parte. O figurino, assinado por Alessandra Barrios, caracteriza a velhice burocrata e vislumbra a situação econômica e social da protagonista, em total sintonia com o cromatismo, a textura e o panejamento do cenário de Carneiro. Responsável pelo fomento da atmosfera do envelhecimento que paira no palco, acentuando transparência, o contraste entre cores frias e quentes e remetendo algumas cenas a telas Rembrantianas, o projeto de luz de Paulo Brakarz confere luz própria à encantadora idosa.

Ao contrário do que possa parecer, “Hortance, a Velha” assume o compromisso, consigo mesmo, de não se apresentar somente como um veículo de diversão, mas um instrumento de reflexão e de ensinamento com foco nos princípios de cada idoso, bem como estabelecer um paralelismo entre velhice e envelhecer.

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