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domingo, 30 de abril de 2017

Musical Cartola - O Mundo é um Moinho


Uma história despojada de fantasias e repleta de realidade tão palpável quanto o fato das rosas não se pronunciarem através de palavras

Idealizado pelo ator e produtor Jô Santana e dramatizado pelo jornalista, escritor e tradutor Artur Xexéo, o musical “Cartola – O Mundo É Um Moinho” vem cumprindo o seu papel de atrair o grande público às salas de espetáculo – na atual temporada, ao Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio de Janeiro.
O transporte da essência da vida e da trajetória artística de Angenor de Oliveira para os palcos não teria sido tão genuína, não fosse o roteiro fundamentado na pesquisa da gestora cultural Nilcemar Nogueira – neta do Mestre e de sua esposa, Dona Zica – e formatado pela precisa direção e encenação de Roberto Lage.

Em cena, descortinam-se os meandros da vida de Cartola a partir de um núcleo de uma escola de samba fictícia – a Arengueiros de Curicica, cujo nome remete ao Bloco dos Arengueiros, criado por Cartola nos anos 1920 e que deu origem à Estação Primeira de Mangueira.

Assumindo a narrativa, o ator Hugo Germano incorpora Luizinho das Candongas – carnavalesco daquela agremiação, responsável pela concepção de um enredo em homenagem ao cantor e compositor. A sua eloquente capacidade de ciceronear a plateia conduz a apresentação em tempo presente que resgata o conteúdo do passado do protagonista – o relacionamento com seu pai, sua paixão pela Mangueira e o amor dedicado a Dona Zica, segundo cenas musicalizadas pela conjunção dos talentos de Rildo Hora – na direção musical e nos arranjos; de Guilherme Terra – na preparação e arranjos vocais, no piano e na regência; e de  Arlindo Cruz e Igor Leal – através da composição do samba-enredo “Mestre Cartola” – a única canção inédita do espetáculo; e dos oito músicos cuja execução instrumental e presença que se integram ao cenário e à sala de espetáculos como se parte deles o fossem – produtos criteriosamente depurados e traduzidos em sensações pelo desenho de som de Bruno Pinho.

Compartilhando a interface entre palco e plateia com Germano, segundo dosada carga de humor adicionada ao musical, o carisma do drag queen Silvetty Montilla – ator, cantor, apresentador, repórter e bailarino, considerado um dos maiores artistas da noite LGBT brasileira – conquista a simpatia da plateia como seu personagem, igualmente drag queen, Aurélia Pitangas.

No papel do protagonista, Flávio Bauraqui entrega de forma quase que involuntária e com a facilidade de quem o conhece profundamente e se permite ser tomado pela semelhança física e comportamental e pelo seu talento. Ao seu lado, Virgínia Rosa desempenha o papel de sua companheira, amante e esposa, com a mesma ternura e fidelidade que Dona Zica dedicara ao Mestre Mangueirense durante os vinte e seis anos que permaneceram casados.

Ressalta-se a relevância dos personagens Sebastião – pai de Cartola e de Carlos Cachaça – compositor que teve Cartola como parceiro mais constate, interpretados por Augusto Pompeo e Eduardo Silva, respectivamente, ao longo da sua vida. Outros doze atores alicerçam o roteiro e o próprio protagonista – Adriana Lessa, como Soninha e Deolinda; André Muato, o Dedé; Andrea Cavalheiro, a Valdirene; Flávia Saolli, no papel de Vevete; Gabriel Vicente, nos papéis de Francisco Alves e Chiquinho; Grazzi Brasil, como Giovanna; Ivan de Almeida, como Capitão; Larissa Noel, como Gigi; Lu Fogaça, se desdobrando em Lara e Donária; Paulo Américo, desempenhando o Bola 7; Renata Vilela, como Sullen; e Rodrigo Fernando, incorporando o Barão.

O Figurino assinado por Luciano Ferrari retrata o estar à vontade dentro dos barracos das favelas, o jeito simples e digno de se vestir, a beca para se frequentar os botecos e as casas noturnas, a identidade trangênera, o despojamento estiloso da classe artística e a fidelidade para com os fatores tempo e espaço. Em paralelo, o maquiador e caracterizador Eliseu Cabral, além de atender a todas aquelas demandas, assume o potencial de caracterização de cada ator para conceder-lhe a máxima similaridade ao seu personagem. Paula de Paoli concebe um projeto cenográfico através do qual exalta as cores verde e rosa e, com essas cores, complementadas por outras de tons neutros, alicerça as cenas com elementos alusivos aos barracos, aos botecos, aos palcos suspensos e o estilo art nouveau estilizado de seu guarda-corpo, o mundo que tritura os sonhos e reduz as ilusões a pó – retratado por moinhos. Fran Barros desenha sua luz no palco como se este fosse uma alegoria – evidencia os destaques, concede a penumbra aos reservados ao segundo plano, abre as cortinas do passado e instaura a apoteose. Finalmente, em se tratando de um musical cadenciado pelo samba, a coreografia de Alex Morenno se faz essencial e se apresenta de forma contagiante perante espectadores cujos pés não hesitam na tentativa de acompanharem a marcação dos passos de samba desenvolvida no palco.

Adicionalmente aos encantos garantidos aos espectadores pela produção, é prevista a presença de, ao menos, um intérprete de samba ou MPB em cada uma das seções do espetáculo. Na sessão da noite de 20 de abril de 2017, o Circuito Geral teve o prazer de assistir à exímia apresentação de Janaína Reis, interpretando “A sorrir” e “As Rosas Não Falam”.

“Cartola – O Mundo É Um Moinho” é uma história despojada de fantasias e repleta de realidade tão palpável quanto o fato das rosas não se pronunciarem através de palavras. É uma história de amores e dores de amor, de sucessos e insucessos, de alegrias e decepções, de prelúdios e despedidas, de encontros, desencontros e reencontros que induzem o espectador a rir em vez de chorar, a assistir o sol nascer, a ver as águas dos rios correr, a ouvir os pássaros cantar, a querer nascer, a querer viver e a se encontrar, mesmo sem precisar.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Teresa Cristina canta Cartola – Um poeta da Mangueira



Acompanhada pelo violonista mineiro de Leopoldina – Carlinhos 7 Cordas, Teresa Cristina transporta o público em uma viagem tematizada segundo os poemas musicalizados de Cartola

Noite de 5 de março de 2017, o Theatro Net São Paulo é alvo de uma legião de fãs dos sambas de autoria do cantor, compositor e violonista carioca Angenor de Oliveira – considerado como um dos maiores sambistas da história da música brasileira, na voz da cantora carioca de Bonsucesso, criada na Vila da Penha, Teresa Cristina Macedo Gomes – em apresentação única.

Acompanhada pelo violonista mineiro de Leopoldina – Carlinhos 7 Cordas, Teresa Cristina transporta o público em uma viagem tematizada segundo os poemas musicalizados de Cartola – espetáculo que teve origem na apresentação do show inédito “Teresa Cristina canta Cartola – Um poeta da Mangueira” estreado no Rio de Janeiro novembro de 2015.

Sem qualquer apelo cenográfico, mas somente banhado por um desenho de luz minimalista e policromático que destaca as figuras da dona da voz – elegantemente vestindo um figurino contemplando estamparia étnica – e do senhor dos dedos que percorrem sete cordas de um violão, o espetáculo intimista prima pela interpretação das canções com vistas à valorização das letras e pelo diálogo descontraído entre Teresa Cristina e a plateia, dando vez à emotiva participação desta ao cantarolar os inesquecíveis sucessos do Mestre da Estação Primeira de Mangueira.

O compartilhamento da arte de Cartola por Teresa Cristina, prestes a completar dois anos de sucesso de bilheteria em suas turnês nacional e internacional, promete vida longa e será lembrado como um grande tributo a quem só cairá no esquecimento do público quando as rosas proferirem suas primeiras palavras.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Perto do Coração Selvagem


Fragmentos multicoloridos e mutantes

O primeiro romance de Clarice Lispector é levado aos palcos através do espetáculo homônimo “Perto do Coração Selvagem” que, sob a direção fragmentada de Delson Antunes, estrutura a dramaturgia e a divide em duas partes – uma que alterna a vida adulta e a infância da protagonista Joana; outra, que tem início com o casamento de Joana com Otávio e permeia através da vida de ambos, até o epílogo. A linearidade dos pensamentos de Lispector é absorvida, como se por osmose, pelo grande elenco composto por Andreia Burle, Camila Rosa Lins, Daniela Salles Abreu, Júlia Cotta, Júlia Horta, Marianna Lobo, Michele Ribeiro, Monique Houat, Renata Caldas, Rodrigo Candelot, Ronan de Andrade Horta e Pedro Gosende, que se desdobram em dez personagens –  Joana, Otávio, Lídia, o Pai, a Tia, o Tio, o Professor, a Mulher do Professor, o Homem e a Mulher da Voz.

Joana, consciente de que apenas o mal pode ser responsável pela geração de prazer, e certa de que carrega o mal dentro de si, desde a infância demonstra sentir aversão à bondade das pessoas e que as demonstrações de carinho de sua tia são capazes de lhe causar ânsia de vômito. Mostra-se como um indivíduo amoral, sem consciência de seus atos. Desprovida de remorso, age como mera observadora das pessoas, sempre zelando para manter o devido distanciamento das mesmas.

A cenografia de José Dias não encoraja o fascínio da visão do mundo que os personagens necessitam, mas constitui um ambiente natural que transpõe a datada história de Joana. O desenho de luz de Aurélio de Simoni alterna os focos literários e o tempo cronológico que dá lugar ao psicológico, de modo extremo e intermitente nos flashbacks da protagonista – ora no passado, ora no presente – servindo de fio condutor de toda a trama. Joana Bueno assina um figurino introduzido na trama de forma exacerbada, com a dose de martírio que funde subjetividade com objetividade.

Assistir “Perto do Coração Selvagem” pode ser comparado à observação de composições de formas através de um caleidoscópio onírico, ao retratar a transição menina-mulher-amante a partir de fragmentos multicoloridos e mutantes que não se adaptam ao veneno da maldade.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Alô Alô Theatro Musical Brazileiro / SP


O espectador deve tomar ciência do processo seletivo que envolve esse trabalho, além de perceber o zelo que move toda a produção e direção do espetáculo

Mais do que mais um musical, dentre o crescente número de espetáculos do gênero produzidos no Brasil, um novo roteiro – assinado pela atriz, cantora e dançarina Amanda Acosta e pelo ator, diretor, cenógrafo, iluminador cênico e figurinista Kleber Montanheiro – leva aos palcos um registro histórico de músicas que foram criadas especificamente para espetáculos brasileiros.

O show “Alô Alô Theatro Musical Brazileiro”, também dirigido pela dupla Acosta e Montanheiro, percorre treze sucessos musicais desde 1890 até os tempos atuais, a começar por “O Mugunzá” de F. Carvalho – “lundu-bainano” cantado em peça brasileira produzida pela companhia portuguesa Sousa Bastos, cantada pela estrela espanhola Pepa Ruiz, apontando a importância da formação dos tipos “baiana” e “mulata” no teatro de revista brasileiro.

O espetáculo tem seguimento com o maxixe “Corta-Jaca” de autoria de Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, introduzidos na revista Cá e Lá – peça teatral datada de 1904, e com o choro “Feijoada do Brasil” utilizado por Chiquinha no primeiro ato da burleta de costumes cariocas Forrobodó.

“Linda Flor”, também conhecido como “Iaiá”, composto por Henrique Vogeler, Marques Porto e Luiz Peixoto, considerado o primeiro samba-canção da história da música brasileira, é a pérola que representa o final da década de 1920, cantado pela atriz Araci Cortes na revista Miss Brasil.

Na sequência, “No Rancho Fundo”, de autoria de Ary Barroso e Lamartine Babo – nascida a partir da introdução do poema do caricaturista J. Carlos, chamado “Na Grota Funda” na peça musical “É do Balaco-Baco”; “Na Batucada da Vida”, de autoria de Luis Peixoto e Ary Barroso – composta para uma revista musical, na qual era interpretada por Araci Cortes, sob o título de “A Canção da Enjeitada”; e “Sassaricando”, assinada por Luiz Antônio, Zé Mario e Odemar Magalhães – marcha cantada por Virgínia Lane, estrela da revista “Eu Quero Sassaricá” – marcam o início das décadas de 1930, 1940 e 1950, respectivamente.

Os meados dos anos 1960 – período de releitura da bossa nova por uma segunda geração de cantores do estilo que nascera no final dos anos 1950 – foram representados pela produção de Edu Lobo, “Zambi no Açoite”, composta para a peça “Arena Contra Zumbi”, concebida, em plena Ditadura Militar, pela Cia de Teatro Arena, da mesma forma que, em 1975, foi escrita e encenada a peça “Gota D’água”, tomando como base o contexto político brasileiro, para a qual foi composta a canção “Basta um Dia”, por Chico Buarque de Holanda, cuja parceria com Edu Lobo, em 1985, é celebrada com o resgate de “Tango de Nancy”, composta para a peça “O Corsário do Rei”, de autoria de Augusto Boal.

A homenagem às mulheres também se faz presente através do garimpo musical realizado por Acosta e Montanheiro com “Têmpera” – canção composta por Gonzaguinha em 1990 para o espetáculo “Elas por Ela”, que fez sucesso na voz de Marília Pêra.

“Cambaio” é mais um sucesso fruto da parceria entre Chico Buarque e Edu Lobo – composta especialmente para a peça teatral homônima, de autoria de João e Adriana Falcão, estreada no Teatro Sesc Vila Mariana, São Paulo, em 2001 – que se faz presente no palco de Alô Alô Theatro Musical Brazileiro.

Finalmente, antecedendo o bis com “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga que, indubitavelmente, levanta carnavalescos e plateias onde quer que seja executada, Amanda Acosta e Kleber Montanheiro apresentam ao público uma inusitada canção frente aos demais sucessos que compõem o seleto setlist do espetáculo - “A Análise da Água”, de autoria de Ricardo Severo, composta em 2016 para o musical Um, Dez, Cem Mil Inimigos do Povo – uma releitura do dramaturgo Cássio Pires inspirada na polarização política que tomou conta da sociedade brasileira.

Mais do que simplesmente assistir ao musical de Acosta e Montanheiro, o espectador deve tomar ciência do processo seletivo que envolve esse trabalho, além de perceber o zelo que move toda a produção e direção do espetáculo – desde o figurino e o desenho de luz como recursos cênicos que somam às atividades que envolvem a corresponsabilidade da direção e do roteiro por parte de Kleber Montanheiro, que aguçam a percepção da plateia tempo à dentro. Acompanhando a graciosa sonoridade do canto de Amanda Acosta, Demian Pinto, nos arranjos e no piano e Daniel Baraúna, na percussão. Coroando Acosta, o estiloso adereço de cabeça assinado por Paulo Bordhin é apropriadamente delineado pelo designer de cabelo e pelo visagismo de Anderson Bueno.



sábado, 8 de abril de 2017

Renato Russo – O Musical


Extremamente atual


A sombra turva do poço interior de águas límpidas de Renato Russo é desenhada com potencial indutor coletivo da sensação de euforia intensa e rápida provocada pelas evoluções em meio a voz e instrumentos, seguida imediatamente por sensação extremo oposta frente ao descortinar da história de vida do líder da banda mais importante do Rock Brasil. “Há Tempos” se traveste em prólogo de “Renato Russo – O Musical”, a partir do denso texto de Daniela Pereira de Carvalho, que cumpre o papel de resgatar as delicadas passagens e as imperfeições pessoais na biografia de Russo.

A direção de Mauro Mendonça Filho disseca a poesia e a sensibilidade do cantor, com enorme carga de significados de um nobre amante em estado de abandono, de subjugação e de condenação – tais como meros “Soldados”. A direção musical de Marcelo Alonso Neves toma forma ao articular os momentos históricos da época, desde “Geração Coca-Cola”, “Que País é Esse?” e “Perfeição”. O desenho de luz frenético de Wagner Pinto dissocia-se do punk de maneira lírica como “Vento no Litoral”. O projeto cenográfico de Bel Lobo e Bob Neri formata a evolução do humano ao mito, com a precisão de um relógio suíço diante do caos de um show de Rock Punk, sem os efeitos colaterais de um “Tempo Perdido”. O figurino de Jeane Figueiredo dialoga com a personalidade forte do Trovador Solitário e se encaixa com os números musicais e as suas interpretações tangenciando “Andrea Doria”.

Intensa, a ironia intelectualizada Bruce Gomlevsky dialoga com o espectador, atenuada pela sua impactante simplicidade carismática, a tal ponto capaz provocar estranheza por parte da plateia em não tentar, simplesmente, conhecer a vida de Renato Russo, mas sim, compreendê-la, como em “Índios”, a partir de quando “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”.

O espetáculo “Renato Russo – O Musical” é extremamente atual – em tempos em que os sentimentos são estatizados e transformados em algo governamental, tal e qual Russo declara que o “estado” dele é independente e que o “governo” deveria cuidar da justiça desafinada, tão humana e tão errada, como em “Baader-Meinhof Blues”.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Rafael Barros Castro – Beco das Garrafas


No coração da Princesinha do Mar, a noite de 31 de março de 2017 é lacrada com muito requinte musical no icônico e boêmio “Beco das Garrafas”. Na intimidade e aconchego do Bottle’s Bar, o show fica por conta do maestro, compositor, arranjador, pianista e cantor – Rafael Barros Castro, notoriamente acompanhado pelo talento dos instrumentistas Cláudio Alves, no contrabaixo e Reginaldo Vargas, na percussão.

No palco da casa tida como o berço da Bossa Nova e onde pisaram grandes expoentes da música brasileira, Barros dá início à sua apresentação homenageando Orlandivo, com “Tamanco No Samba (Samba Blim)” e prosseguindo na cadência com “Cidade de São Sebastião”, de Antônio Nássara e Wilson Batista. As participações especiais da noite presenteiam os espectadores com o som encorpado e doce da viola de Bernardo Fantini, acentuando a emoção contida no samba autoral de Barros – “Primavera no Rio”, abrindo alas para a apresentação de um outro samba, segundo o maestro, em estilo pré-bossa nova – “Sorriu pra Mim”, assinado por Aníbal Augusto Sardinha, mais conhecido como Garoto. Presenteando mais uma vez os espectadores do Bottle’s naquela acolhedora noite de sexta-feira, Jaime Alem – diretor musical dos espetáculos realizados por Maria Bethânia – sobe ao palco para, junto com Castro, entoarem “Pra Gente Cantar” – “um canto de amor cheio de paz, que vem em forma nobre de oração” – parceria entre Barros Castro e Rody da Mangueira, que deu origem a um clipe lançado em 2015.

Momento mais que descontraído do show, o maestro cantor dotado de uma voz adocicada – nata da essência do cantarolar de um canarinho petropolitano – após fazer menção ao músico, cantor, compositor e arranjador carioca Danilo Caymmi, convida seu público para o acompanhá-lo durante a execução de música de sua autoria – “Estrela Menina”, a partir de uma coreografia ingenuamente brejeira, seguida passo a passo por todos, quando do refrão – “Iê... estrela, Iê... menina”.

Taiguara também é lembrado por Barros a partir da música “Hoje”, antes de interromper o show por quinze minutos, durante os quais honrou a todos, individualmente, com um cativante e caloroso cumprimento e, após os quais a noite retoma a melodia a partir de um “Concerto para a Juventude” – um tributo a Cartola, com o instrumental de “As Rosas Não Falam”, “Corra e Olha o Céu” e do canto de “Alvorada”. A generosidade do anfitrião divide, mais uma vez, o palco do Bottle’s, ao som de “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” de Lô e Márcio Borges, interpretada por Nair Cândia e acompanhada por Jaime Alem, um dos momentos mais ovacionado pelo público.

O final do show homenageia Noel Rosa, com “Onde Está a Honestidade?”, quando palco e plateia se transformam em um coral uníssono, regido pela descontração e a amizade de Rafael Barros Castro, naquela noite memorável e intimista em uma das casas de shows mais autênticas das noites cariocas.