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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Alô Alô Theatro Musical Brazileiro / SP


O espectador deve tomar ciência do processo seletivo que envolve esse trabalho, além de perceber o zelo que move toda a produção e direção do espetáculo

Mais do que mais um musical, dentre o crescente número de espetáculos do gênero produzidos no Brasil, um novo roteiro – assinado pela atriz, cantora e dançarina Amanda Acosta e pelo ator, diretor, cenógrafo, iluminador cênico e figurinista Kleber Montanheiro – leva aos palcos um registro histórico de músicas que foram criadas especificamente para espetáculos brasileiros.

O show “Alô Alô Theatro Musical Brazileiro”, também dirigido pela dupla Acosta e Montanheiro, percorre treze sucessos musicais desde 1890 até os tempos atuais, a começar por “O Mugunzá” de F. Carvalho – “lundu-bainano” cantado em peça brasileira produzida pela companhia portuguesa Sousa Bastos, cantada pela estrela espanhola Pepa Ruiz, apontando a importância da formação dos tipos “baiana” e “mulata” no teatro de revista brasileiro.

O espetáculo tem seguimento com o maxixe “Corta-Jaca” de autoria de Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, introduzidos na revista Cá e Lá – peça teatral datada de 1904, e com o choro “Feijoada do Brasil” utilizado por Chiquinha no primeiro ato da burleta de costumes cariocas Forrobodó.

“Linda Flor”, também conhecido como “Iaiá”, composto por Henrique Vogeler, Marques Porto e Luiz Peixoto, considerado o primeiro samba-canção da história da música brasileira, é a pérola que representa o final da década de 1920, cantado pela atriz Araci Cortes na revista Miss Brasil.

Na sequência, “No Rancho Fundo”, de autoria de Ary Barroso e Lamartine Babo – nascida a partir da introdução do poema do caricaturista J. Carlos, chamado “Na Grota Funda” na peça musical “É do Balaco-Baco”; “Na Batucada da Vida”, de autoria de Luis Peixoto e Ary Barroso – composta para uma revista musical, na qual era interpretada por Araci Cortes, sob o título de “A Canção da Enjeitada”; e “Sassaricando”, assinada por Luiz Antônio, Zé Mario e Odemar Magalhães – marcha cantada por Virgínia Lane, estrela da revista “Eu Quero Sassaricá” – marcam o início das décadas de 1930, 1940 e 1950, respectivamente.

Os meados dos anos 1960 – período de releitura da bossa nova por uma segunda geração de cantores do estilo que nascera no final dos anos 1950 – foram representados pela produção de Edu Lobo, “Zambi no Açoite”, composta para a peça “Arena Contra Zumbi”, concebida, em plena Ditadura Militar, pela Cia de Teatro Arena, da mesma forma que, em 1975, foi escrita e encenada a peça “Gota D’água”, tomando como base o contexto político brasileiro, para a qual foi composta a canção “Basta um Dia”, por Chico Buarque de Holanda, cuja parceria com Edu Lobo, em 1985, é celebrada com o resgate de “Tango de Nancy”, composta para a peça “O Corsário do Rei”, de autoria de Augusto Boal.

A homenagem às mulheres também se faz presente através do garimpo musical realizado por Acosta e Montanheiro com “Têmpera” – canção composta por Gonzaguinha em 1990 para o espetáculo “Elas por Ela”, que fez sucesso na voz de Marília Pêra.

“Cambaio” é mais um sucesso fruto da parceria entre Chico Buarque e Edu Lobo – composta especialmente para a peça teatral homônima, de autoria de João e Adriana Falcão, estreada no Teatro Sesc Vila Mariana, São Paulo, em 2001 – que se faz presente no palco de Alô Alô Theatro Musical Brazileiro.

Finalmente, antecedendo o bis com “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga que, indubitavelmente, levanta carnavalescos e plateias onde quer que seja executada, Amanda Acosta e Kleber Montanheiro apresentam ao público uma inusitada canção frente aos demais sucessos que compõem o seleto setlist do espetáculo - “A Análise da Água”, de autoria de Ricardo Severo, composta em 2016 para o musical Um, Dez, Cem Mil Inimigos do Povo – uma releitura do dramaturgo Cássio Pires inspirada na polarização política que tomou conta da sociedade brasileira.

Mais do que simplesmente assistir ao musical de Acosta e Montanheiro, o espectador deve tomar ciência do processo seletivo que envolve esse trabalho, além de perceber o zelo que move toda a produção e direção do espetáculo – desde o figurino e o desenho de luz como recursos cênicos que somam às atividades que envolvem a corresponsabilidade da direção e do roteiro por parte de Kleber Montanheiro, que aguçam a percepção da plateia tempo à dentro. Acompanhando a graciosa sonoridade do canto de Amanda Acosta, Demian Pinto, nos arranjos e no piano e Daniel Baraúna, na percussão. Coroando Acosta, o estiloso adereço de cabeça assinado por Paulo Bordhin é apropriadamente delineado pelo designer de cabelo e pelo visagismo de Anderson Bueno.



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