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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Perto do Coração Selvagem


Fragmentos multicoloridos e mutantes

O primeiro romance de Clarice Lispector é levado aos palcos através do espetáculo homônimo “Perto do Coração Selvagem” que, sob a direção fragmentada de Delson Antunes, estrutura a dramaturgia e a divide em duas partes – uma que alterna a vida adulta e a infância da protagonista Joana; outra, que tem início com o casamento de Joana com Otávio e permeia através da vida de ambos, até o epílogo. A linearidade dos pensamentos de Lispector é absorvida, como se por osmose, pelo grande elenco composto por Andreia Burle, Camila Rosa Lins, Daniela Salles Abreu, Júlia Cotta, Júlia Horta, Marianna Lobo, Michele Ribeiro, Monique Houat, Renata Caldas, Rodrigo Candelot, Ronan de Andrade Horta e Pedro Gosende, que se desdobram em dez personagens –  Joana, Otávio, Lídia, o Pai, a Tia, o Tio, o Professor, a Mulher do Professor, o Homem e a Mulher da Voz.

Joana, consciente de que apenas o mal pode ser responsável pela geração de prazer, e certa de que carrega o mal dentro de si, desde a infância demonstra sentir aversão à bondade das pessoas e que as demonstrações de carinho de sua tia são capazes de lhe causar ânsia de vômito. Mostra-se como um indivíduo amoral, sem consciência de seus atos. Desprovida de remorso, age como mera observadora das pessoas, sempre zelando para manter o devido distanciamento das mesmas.

A cenografia de José Dias não encoraja o fascínio da visão do mundo que os personagens necessitam, mas constitui um ambiente natural que transpõe a datada história de Joana. O desenho de luz de Aurélio de Simoni alterna os focos literários e o tempo cronológico que dá lugar ao psicológico, de modo extremo e intermitente nos flashbacks da protagonista – ora no passado, ora no presente – servindo de fio condutor de toda a trama. Joana Bueno assina um figurino introduzido na trama de forma exacerbada, com a dose de martírio que funde subjetividade com objetividade.

Assistir “Perto do Coração Selvagem” pode ser comparado à observação de composições de formas através de um caleidoscópio onírico, ao retratar a transição menina-mulher-amante a partir de fragmentos multicoloridos e mutantes que não se adaptam ao veneno da maldade.


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