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sábado, 8 de abril de 2017

Renato Russo – O Musical


Extremamente atual


A sombra turva do poço interior de águas límpidas de Renato Russo é desenhada com potencial indutor coletivo da sensação de euforia intensa e rápida provocada pelas evoluções em meio a voz e instrumentos, seguida imediatamente por sensação extremo oposta frente ao descortinar da história de vida do líder da banda mais importante do Rock Brasil. “Há Tempos” se traveste em prólogo de “Renato Russo – O Musical”, a partir do denso texto de Daniela Pereira de Carvalho, que cumpre o papel de resgatar as delicadas passagens e as imperfeições pessoais na biografia de Russo.

A direção de Mauro Mendonça Filho disseca a poesia e a sensibilidade do cantor, com enorme carga de significados de um nobre amante em estado de abandono, de subjugação e de condenação – tais como meros “Soldados”. A direção musical de Marcelo Alonso Neves toma forma ao articular os momentos históricos da época, desde “Geração Coca-Cola”, “Que País é Esse?” e “Perfeição”. O desenho de luz frenético de Wagner Pinto dissocia-se do punk de maneira lírica como “Vento no Litoral”. O projeto cenográfico de Bel Lobo e Bob Neri formata a evolução do humano ao mito, com a precisão de um relógio suíço diante do caos de um show de Rock Punk, sem os efeitos colaterais de um “Tempo Perdido”. O figurino de Jeane Figueiredo dialoga com a personalidade forte do Trovador Solitário e se encaixa com os números musicais e as suas interpretações tangenciando “Andrea Doria”.

Intensa, a ironia intelectualizada Bruce Gomlevsky dialoga com o espectador, atenuada pela sua impactante simplicidade carismática, a tal ponto capaz provocar estranheza por parte da plateia em não tentar, simplesmente, conhecer a vida de Renato Russo, mas sim, compreendê-la, como em “Índios”, a partir de quando “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”.

O espetáculo “Renato Russo – O Musical” é extremamente atual – em tempos em que os sentimentos são estatizados e transformados em algo governamental, tal e qual Russo declara que o “estado” dele é independente e que o “governo” deveria cuidar da justiça desafinada, tão humana e tão errada, como em “Baader-Meinhof Blues”.


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