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sábado, 27 de maio de 2017

Alices


Intimidante, agressivo e amedrontador em dose delirantemente fatal

Parte integrante da vida de todo ser humano, a violência se faz presente, direta ou indiretamente, através das mais variadas formas, causando danos físicos, morais e materiais. A devastadora realidade em que se vive pode ter efeito anestesiador durante o trabalho, o lazer ou atividade funcional complementar do dia a dia. O potencial uso intencional de força física ou poder, se manifesta mesmo quando se testemunha e não se denuncia, quando se ouve falar e não se demonstra interesse, quando faz vítimas e os vitimados se envergonham em assumir o dolo – enquanto latente lhe é permitida aflorar através dos nervos.

O estranho fascínio que o espetáculo “Alices” desperta ao, intencionalmente, trazer o tema à baila, desloca a plateia da zona de conforto promovida pelo seu distanciamento da realidade – de onde se faz possível imputar a culpa às vítimas pela violência praticada – e lhe transfere a responsabilidade de analisar cada vírgula inserida no texto de Jarbas Capusso Filho.

O enfoque subjetivo sobre a violência, apropriadamente sequelado, é transmitido pela discorrência atemporal, em local geograficamente indefinido, das aflições de duas mulheres quaisquer, assumidas de corpo alma pelas atrizes Mitzi Evelyn e Carolina Stofella que levam, às vias de fato, o eficiente produto decorrente da direção e adaptação de Leo Gama.

A qualidade do desenho de luz do espetáculo, sob a responsabilidade de Aurélio de Simoni, define, de forma artisticamente conceitual e simbólica, a organização espacial das cenas em meio às pseudo-certezas e as dúvidas originais externadas pelas impactantes Alices. Seguindo a linha do conceito e do simbolismo, a concepção e a materialização cenográfica de Pati Faedo traduz o que não é explicitado verbalmente e convida o espectador a mergulhar em um mundo onde, o que se apresenta, não é bem aquilo o que se vê. De braços dados aos desenhos cenográfico e de luz, o expressivo e sugestivo figurino de Marie Salles caracteriza as envolvidas de modo físico, psicológico e moral, compartilhando a responsabilidade pela incompreensão da ideia central, que deve ser interpretada como uma denúncia contra a violência. A inebriante trilha sonora de João Paulo Mendonça altera a deficiência moral desenvolvida com o tempo, com os seus cinquenta minutos de espetáculo e lesiona a indiferença ao manter o espectador atento. O dissimulado visagismo de Deborah Rocha é intimidante, agressivo e amedrontador em dose delirantemente fatal e mascara a obviedade por detrás dos segredos guardados pelas protagonistas.

A persuasiva história de “Alices” transportada para o palco é a materialização de um espetáculo sensorial – um misto de temor e curiosidade que impulsiona e prende a atenção do espectador, que se manifesta através de sua respiração tensa, pela simples constatação do potencial de detonação da violência latente dentro de si.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Antes Que Eu Vá


Impregnado de jovial maturidade

Samantha Kingston, uma jovem com alto índice de popularidade em seu colégio, sofre um estranho acidente de carro com suas amigas ao voltar de uma festa. Imediatamente após o abrupto corte de cena, como se despertasse de um pesadelo, Samantha rebobina o seu dia anterior e o "revive", e o "revive", e o "revive"...

A crescente direção orquestrada por Ry Russo-Young, para o livro homônimo de Lauren Oliver, desenha o roteiro de Maria Maggenti, que muito o remete ao de “O Feitiço da Lua”, de Norman Jewisonde, lançado em 1987 – desta vez, sob um enfoque impregnado de jovial maturidade. A expressiva atuação de Zoey Deutch dá sentido aos sequenciais déjà-vu configurando um verdadeiro moto-contínuo que desagua em uma grande reviravolta nos acontecimentos da história.

A incerteza sobre a vinda do “amanhã” se contrapõe à certeza de que “hoje” será sempre a última vez. “Antes Que Eu Vá” desafia o espectador, de forma sugestiva, ao levá-lo à indagação sobre a plenitude e a satisfação com que leva a sua vida, a ponto de não vislumbrar a hipótese de alguma alteração de rumo em algum momento de sua existência.


domingo, 21 de maio de 2017

Peter Pan – O Musical


Um espetáculo mágico aos olhos dos adultos e das crianças

A abrasileirada versão da história do escocês J.M Berrie - “Peter and Wendy” ou, simplesmente, “Peter Pan” – conta como a família Darling conhece o menino que não quer crescer. Juntamente com Peter Pan, os irmãos Wendy, John e Michael se entregam em uma aventura em direção à “segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer”, onde localiza-se a Terra do Nunca – morada de Peter Pan, Sininho, e os Meninos Perdidos, entre outros – onde enfrentam piratas, que tem como líder o famigerado Capitão Gancho.

A inspirada direção de Billy Bond, como sempre, abraça os pequenos e seus acompanhantes, incluindo à clássica história, flashes da cultura pop que passa pela vilã de Aguinaldo Silva - Nazaré Tedesco; pelas sertanejas Marília Mendonça – “Infiel” e Naiara Azevedo – “50 Reais”; pelo funk de MC G15 – “Deu Onda”, MCs Nandinho & Nego Bam – “Malandramente” e Anitta – “Show das Poderosas”; o pop com Jota Quest – “Fácil” e até mesmo a política é levemente mencionada – “Operação Carne Fraca”. O entusiástico e versátil elenco é composto, em sua maioria, por atores mirins que, no palco, parecem estar em um parque de diversões onde extravasam o seu talento incorporando os personagens - Peter Pan (Matheus Ueta), Wendy (Giulia Nassa), Sininho (Maria Clara Rossi), Capitão Gancho (Álvaro de Padua), Chefe Índio (Fabio Galvão), Tigrinha (Tirzi Oliveira) Pirata sem dente (Marcio Yaccof), Pirata Barriga (Ítalo Rodrigues), Mulher do Capitão (Larissa Porrino), Michael (Beatricce Stoll), Jhon (Diego Fecini), Vô Paul (Marco Antonelli), Mãe (Titzi Oliveira), Pai (Marcio Yaccof), Cachorro Nanny, Crocodilo e Papagaio (Newton Yamassaki), Meninos Perdidos (Paula Canterini, Queren Simplicio, Sidney Simplicio, Gabriela Sega, Gui Zoboli e Gabriel Santana), Piratas, Índios e Sereias (Tayanne Zandonato, Paula Perillo, Carla Reis, Mayla Betti, Anton Uzhyk, Mateus Bertolli, William Santana, Uriel Trindade).

O extraordinário projeto cenográfico assinado por Silvio Galvão e por Bond é composto por um mix de elementos reais e virtuais, contemplando efeitos de fumaça, projeções em 4D, telões de LED, ocupando toda a sala de espetáculos do Teatro Bradesco como se parte integrante do palco. Adicionalmente, os efeitos especiais de Gabriele Fantine atingem toda a plateia com simulação de neve com espuma e chuva de papel picado, aromatiza o ambiente com aromas da floresta, transportando todos os espectadores para o contexto da história. O preciso desenho de luz de Paul Stewart engrandece o cenário, dinamiza a coreografia e toma parte dos efeitos especiais, tornando “Peter Pan – O Musical” um espetáculo mágico aos olhos dos adultos e das crianças. A sedutora e carismática direção musical de Bond e Villa define uma atmosfera de jovialidade com responsabilidade descompromissada. A coreografia extremamente estimulante de Italo Rodrigues e Paula Perillo e o figurino de Carlos Alberto Gardin endossam a porção infantil da história com a ingenuidade dos livros infantis.

Em meio a índios e piratas circulando em meio à plateia, emoção latente quando ovaciona Peter e vaia o Capitão Gancho, tudo isso sem deixar de acreditar em fadas.


quinta-feira, 18 de maio de 2017


...aposta nas cenas apavorantes decorrentes da exposição de um horror que emerge de uma realidade concreta, que vai muito além da projeção em uma tela de cinema

Um recado para os cinéfilos acostumados a identificar a qualidade de um filme de terror pela potência dos sustos que causa e pela tensão que provoca, em nome de uma resposta emocional em cadeia: não assistam “O Rastro”, pois esse filme não é feito para você.

O reenquadramento do estilo terror pela belíssima direção de J. C. Feyer faz de “O Rastro” uma produção heterogênea a partir de uma narrativa valorizada em detrimento dos rompantes de susto, como provocados pelos filmes de horror convencionais. O roteiro de André Pereira e Beatriz Manela apresenta critérios bem definidos para o desenrolar da trama e aposta nas cenas apavorantes decorrentes da exposição de um horror que emerge de uma realidade concreta, que vai muito além da projeção em uma tela de cinema.  

“O Rastro” conta a história do médico João Rocha – inquietamente interpretado por Rafael Cardoso – encarregado de remover todos os pacientes remanescentes de um hospital público em vias de ter suas portas fechadas, em função de uma crise que o deixa sem verba para mantê-lo em funcionamento.

O aspecto assustador do filme se manifesta pelo seu tangenciamento com a atual realidade brasileira na área da saúde pública e pela inescrupulosa trajetória política traçada pelos governantes. A fotografia irretocável de Gustavo Hadba desenha o mistério que orbita a trama e se acasala à trilha sonora dotada de esquizofrenia relevante assinada por Fabiano Krieger e Lucas Marcier. O elenco de “O Rastro” – que faz da película um trabalho de ficção-verdade convincente por se entregar com total receptividade ao terror proposto – é composto por Alberto Flaksman, Alice Wegmann, Cláudia Abreu, Érico Brás, Felipe Camargo, Gustavo Novaes, Jonas Bloch, Júlia Lund, Leandra Leal, Ricardo Ventura e Sura Berditchevsky.


Hollywood


A sátira residente na loucura humana

A ausência da existência retratada pelo binômio que protagoniza a principal obra filosófica de Sartre – “O ser e o nada”, se manifesta no terceiro texto da trilogia de David Mamet – “Hollywood” que aborda o vazio contido na esfera das produções rotuladas como entretenimento capazes de seduzir indivíduos sofrivelmente qualificados como seres pensantes. Não se dão ao trabalho de avaliar, profundamente, determinados produtos que lhes são ofertados pela simples incapacidade de questionarem os objetos que lhes despertam interesse – quadro este que conduz à angustiante reflexão sobre o vazio existencial de uma fração não desprezível de consumidores de produtos voltados para lhes garantir duvidosos momentos de prazer.

Tomando o tempo como partícula fora do espaço imaginativo, Tony Miller iconiza uma entidade substancial no contexto do universo das produções de entretenimento, impudentemente encarnado por Claudio Gabriel. O recém-instalado chefe de produção do grande estúdio de cinema recebe a visita do expansivo colega de trabalho, Daniel Fox, defendido – a partir de flutuações aleatórias, em meio a ambição e condutas aéticas – por Ricardo Pereira. Parte de Fox uma oferta a Miller: a irrecusável possibilidade de uma produção cinematográfica, composta por um roteiro pífio porém, protagonizado por um célebre astro de cinema – uma chance de enriquecimento mútuo, na simples dependência da aprovação do projeto pelo principal executivo do estúdio. Articulando um triângulo com vértices pontuados pela ganância, pelo deslumbramento e pela concupiscência, surge Karen – com presença pungente, diretamente proporcional à entrega de Luciana Fávero à instigante secretária temporária de Miller, objeto de uma aposta entre os articuladores.

A surpreendente direção de Gustavo Paso – que também assina o projeto cenográfico repleto de simbolismo e de efêmera organicidade – injeta a dose certa da superficialidade do estado humano satelizado pela dor, pela tristeza, pela angústia, pela paixão, pela depressão, pela solidão e pela alegria, longe da intenção de qualquer análise ou constatação filosófica, mas demonstrar apenas o factual subjetivo, do “sentimento de poder” a despeito do “nada ser” em meio a um aflitivo leiaute precariamente definido e composto por peças de mobiliário ainda embaladas em plástico bolha. Simbioticamente, o cenário de Paso e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros revelam a inter-relação entre matéria versus luz e do cromatismo lumínico como promotor de multiplicidade cênica, capazes de ilusionar o olhar do espectador mais atento. O figurino de Sonia Soares e Mariana Baffa é coerente com a essência de cada personagem e acentua a equivocada bagagem emocional de Miller e de Fox enquanto amigos e rivais, alimentada por uma relação interpessoal homossocial, na qual percebe-se a exclusão, tacitamente pactuada, da figura feminina. Edio Nunes provoca a plateia com sua perturbadora coreografia injetando nos personagens uma pré-existência rigorosamente insignificante e libidinosamente frenética.

Sob zelosa produção e realização, a sátira residente na loucura humana é desenterrada pela CiaTeatro Epigenia através da tradução e adaptação do original “Speed The Plow”, que não se esgota frente à crescente demanda por debates sobre o descarte rotineiro de produtos culturais que devem ser ofertadas e consumidas como arte. 


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Simone Mazzer & Cotonete


Uma trajetória com origem no país tropical e destino no hexágono europeu ocidental

Em plena noite de segunda-feira, 8 de maio de 2017, o Teatro Rival abre suas portas para apresentação única do show da atriz e cantora brasileira Simone Mazzer, acompanhada pelo grupo francês de jazz-funk Cotonete.

Presente nesse memorável e imperdível espetáculo, o Circuito Geral constata o processo através do qual Mazzer e Cotonete destilam, na íntegra, o novo álbum homônimo do show e presenteiam a plateia com algumas pérolas adicionais.

Após a abertura instrumental do octeto francês, Mazzer impõem a sua voz em “Se Você Pensa” de Roberto e Erasmo que, de rock, transforma-se em um potente groove dançante. O boa noite é suingado para os presentes com “Kriola” de Hélio Matheus seguida pelo soul “Ela Partiu” de Tim Maia – versão que leva o público ao arrepio. O trip house fica por conta de “Eu Bebo Sim” – samba de Luiz Antônio e João Violão, lançado em 1973.

Momento de apresentação da banda Cotonete à plateia, Mazzer nomeia cada um dos componentes e seus respectivos instrumentos: Frank Chatona, no sax; Farid Baha, na guitarra; Jean Claude Kebaili, no baixo; Benoît Giffard, no trombone; Paul Bouclier, no trompete; Christophe Touzalin, no trompete; David Georgelet, na bateria e Florian Pellissier, nos teclados. Sequenciando, a voz turbinada de Mazzer abre espaço para o som jazzista de “Onda” – de autoria de Cassiano, preparando terreno para a entrada da burlesca sensualidade da strip-tease de Isabel Chavarri –  a imagem, em carne e osso, da polêmica capa do álbum “Simone Mazzer & Cotonete” – ao som de “É Que Nessa Encarnação Eu Nasci Manga”- que recebe uma sedutora versão por Mazzer & Cotonete. Provocante, a ovacionada diva sonoriza a casa com o funk  soul “Pipoca Moderna” de Caetano Veloso. Em meio a mangas e pipocas, Mazzer concede espaço a dois sucessos dos anos 80, da banda Niagara – “L' Amour à la Plage” de Muriel Laporte e “Je Dois m'en Aller”, de Muriel Laporte e Daniel Chenevez. A genialidade e versatilidade de Mazzer e o brilhantismo de Paul Bouclier reinventam o inusitado e metamorfoseiam "Bacharelotte" – de autoria da cantora e compositora islandesa Björk, através de um arranjo que remete a uma simbiose entre fanfarra carnavalesca e marcha fúnebre. Em uníssono, a plateia acompanha a voz de Mazzer e o piano de Florian Pellissier durante a execução de “Estrela e Blue”.

Identidade, admiração e confiança aproximaram Simone Mazzer e o grupo Cotonete, permitindo que esse encontro se materializasse através de um show mais que profissional, apesar de festivo – com promessa de assumirem uma trajetória com origem no país tropical e destino no hexágono europeu ocidental.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Dia do Atentado


Sem drama e sem patriotismo

O registro fictício-documental em torno do atentado terrorista ocorrido durante a Maratona de Boston, no dia 15 de Abril de 2013 – quando a explosão de duas bombas feitas com panelas de pressão causou a morte de três pessoas e feriu outras 264 – é a tônica de mais uma obra de Peter Berg: “O Dia do Atentado”. O roteiro ditatorial, compartilhado entre Berg, Joshua Zetumer e Matt Cook, injeta dinamismo à narrativa, literalmente explosiva. O perfeccionismo injetado na produção é percebido desde a definição do brilhante elenco, composto por Mark Wahlberg; Kevin Bacon; John Goodman; J. K. Simmons, dentre outros, passando pela revelação dos diversos núcleos aparentemente desconexos que se juntam ao longo da trama, mergulhando na sequência do plano terrorista que eclode na execução do ato em si, dando seguimento à investigação e à captura dos irmãos chechenos Dzhokhar Tsarnaev e Tamerlan Tsarnaev, devastadoramente interpretados por Alex Wolff e Themo Melikidze.

À película lhe é conferida a capacidade de provocar no espectador todas os estados e emoções cabíveis pela proposta da produção – atenção, lembranças, conexões, horror, revolta, identificações e esperança. Paralelamente, o equilíbrio na descrição dos fatos relacionados ao ataque, humaniza os personagens que direta ou indiretamente, tiveram suas vidas modificadas, fato este que se conecta ao público de forma linear, sem drama e sem patriotismo, mas pelo fator humano a partir do qual os verdadeiros heróis deixam de ser fictícios.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien - Covenant


A promessa de produção de mais um filme sobre o indesejado passageiro

Mais um filme da franquia Alien, subtitulado “Covenant” – o novo episódio da saga dirigida por Ridley Scott concentra-se em um discurso mais filosófico, entre o binômio criatura e criador e o conceito de raça superior para a colonização de um novo mundo. Recheada de ação, a história tem início dentro do navio-colônia "Covenant" que transporta cerca de dois mil colonos em profundo sono criogênico, além da tripulação composta por Walter – um androide sintético assumido por Michael Fassbender; a especialista em terraformação, Daniels – defendida por Katherine Waterston;  seu marido Branson - James Franco; o capitão Billy Crudup, dentre outros que, após uma explosão estelar, são obrigados a despertar do crio-sono para repararem o navio-colônia, que recebe uma mensagem de rádio de um planeta próximo e aparentemente hospitaleiro.

A continuidade do filme “Prometheus”, conta com o terror peculiar de  “Alien: O Oitavo Passageiro” e da militarização de “Aliens – O Resgate”, sem descartar a promessa de produção de mais um filme sobre o indesejado passageiro.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Oi! Quer Teclar?


Focalizando o hábito sociocultural oportuno em tempos de “Tinder”, o espetáculo “Oi! Quer Teclar?” retrata, em um primeiro plano, os usuários de redes sociais e aplicativos de namoro que assumem território definido entre o mundo virtual e a realidade fantasiosa das cabeças esvoaçadas de seus usuários.

Amanda é uma mulher que se considera encalhada e que mora com o seu amigo gay Danilo, que dá uma de cupido ao se deparar com o perfil de um tal de Victor e lhe envia uma mensagem em nome de sua amiga. A partir desse momento, a promessa de um espetáculo movido pela contemporânea revolução das redes sociais se estilhaça em meio ao texto de Diogo Franco que se perde e que, sequer a dedicada direção de Thiago Grego consegue restaurar. 

Sessão de sexta-feira, dia 28 de abril de 2017, no Teatro Fashion Mall, o Circuito Geral se faz presente ao espetáculo, cuja composição do elenco contempla a atriz Thais Belchior – substituindo Josie Pessoa, Nando Cunha, Hugo Moura, Sheislane Hayalla e Kakau Berredo.  Sem escapatória, o quinteto cumpre, literalmente, com os seus papéis em um processo ininterrupto de comunicação que torna as presenças concomitantes dos personagens, uma infrutífera tentativa de realizar uma cadeia dialógica sobre a história apresentada, longe do título anunciado.

A iluminação de Fernanda Mattos consegue determinar o intercâmbio da comunicação, apresentando formas estáveis em sua construção composicional, valorizando o cenário de Wanderley do Nascimento que reflete e refrata a realidade de um espaço no qual os valores fundamentais de um grupo de pessoas se explicitam e se confrontam, a partir de, apenas, alguns simplificados caracteres. A concepção do figurino de Suzana Jardim tece as vestimentas através de um fio ideológico que serve à trama como um indicador de transformação social, transmitindo ao espectador tudo aquilo que não consta no texto.

A desgastada fórmula de provocar risos adotada tem, em sua medida prática, algo muito complexo – um processo contínuo e equivocadamente necessário de evolução do gênero que incorpora, não somente, o tom alto das falas, mas também a informalidade e a descontração presumível – demandando uma reconfiguração do formato adotado que, no caso de “Oi! Quer Teclar”, assume proporções consideráveis agravado pela abordagem superficial do tema originalmente proposto.


domingo, 7 de maio de 2017

Andança - Beth Carvalho, o Musical


Única mulher que o samba chamou de rainha


Noite de 23 de abril – última apresentação da curta temporada de “Andança - Beth Carvalho, o Musical” no tradicional e mais antigo teatro da cidade do Rio de Janeiro – o Teatro João Caetano.

Montado a partir do texto assinado por Rômulo Rodrigues, sob direção de Ernesto Piccolo, o espetáculo assume caráter biográfico-consagratório, em função dos 50 anos de carreira da cantora e compositora brasileira de samba completados em 2015 – ano em que o musical estreia no Rio de Janeiro, no Teatro Maison de France.

Ao discorrer sobre a vida de Beth Carvalho, “Andança” leva ao palco cenas que pontuam a sua vida pessoal. Sua juventude e a sua maturidade atual são papéis acumulados pela atriz Bárbara Mendes, sem qualquer artifício de maquiagem que possa denunciar as marcas dos anos na figura da protagonista integrada à direção de movimento de Sueli Guerra – manobra que reforça o trabalho de Mendes enquanto incorporação do gestual da protagonista.

De forma pragmática e simplista, somente o figurino assinado por Ney Madeira e Dani Vidal se encarrega de caracterizar todos os personagens ao longo da linha do tempo definida pelo espetáculo, ilustrada por fatos marcantes da história, embalados pelos sucessos musicais que definem a trajetória da carreira de Beth Carvalho.

De forma caricata, Isaura – fã inveterada da cantora, interpretada pela atriz Renata Tavares – assume as rédeas da narrativa do espetáculo, e conquista a plateia com suas tiradas cômicas. Na essência, Isaura registra o passar dos cinquenta anos da carreira da protagonista, dos avanços tecnológicos dos meios de comunicação e da inclusão do idoso como individuo ativo e participativo ao longo da evolução social, até então.

Os demais integrantes do coeso elenco, contemplando atores que desempenham múltiplos papéis, trazem ao palco parceiros de carreira de Beth Carvalho – Atila Soares, como Nelson Cavaquinho, Milton Nascimento e Arlindo Cruz; Bruno Ganem, desempenhando João, pai de Beth e Chacrinha;  Douglas Vergueiro – como Zeca Pagodinho e outros; Leo França, como Cartola, Silvio Caldas, Danilo Caymmi e outros; Paula Pardon, na pele da Prof. Julieta, da enfermeira e de outros; Paulo Ney, desempenhando Martinho da Vila e outros; Natasha Jascalevich, interpretando Maria Bethania, a mãe de Beth e outros;  e Wal Azzolini, assumindo Clementina de Jesus e outros – os remete à lembrança dos espectadores, graças a seus esforços pessoais quase pantomímicos, capazes de satisfazer as necessidades da plateia de se manifestarem através de risos genuínos – sem qualquer desmerecimento ao seu desempenho, mas à sombra dos programas televisivos formatados com vistas à facilidade de assimilação, baseados em quadros que levam à sitcom ou aos bordões.

A direção musical e o arranjo musical de Rildo Hora em comunhão com a preparação vocal e o arranjo vocal de Pedro Lima confere o status apoteótico ao espetáculo, coroado pela banda composta pelo piano de Marcio Eduardo Melo; pelo violão 7 cordas de Rafael Prates; pelo sopro de Ninil Lopes; pelo baixo de Mario Zazv e pela bateria de Helbe Machado e dinamizado e pela coreografia de Sueli Guerra.

Assumindo as funções de sutil anteparo visual permitindo visibilidade secundária dos músicos presentes em cena, fazendo vez de plano de fundo e, devido do sistema de deslizamento que lhe é conferido a partir de seu eixo, de entrada e de saída constante dos atores em meio à diversidade de cenas demandadas pelo roteiro, o projeto cenográfico de autoria de Clivia Cohen cumpre a funcionalidade exigida pela dinâmica de palco. Desempenhando funcionalidade similar, o desenho de luz de Djalma Amaral se atém a iluminar as cenas quantitativamente, declinando os efeitos que poderiam contribuir visualmente para com as cenas coreografadas e musicalizadas.


Longe da pretensão de tentar estabelecer qualquer comparação entre os espetáculos apresentados em temporadas anteriores, em casas de espetáculos distintas, às quais não esteve presente, o Circuito Geral infere a possibilidade de que a temporada de “Andança - Beth Carvalho, o Musical” no Teatro João Caetano tenha sofrido subtrações passíveis de serem percebidas pelo espectador atento. Contudo, constata a receptividade e a reação mais que positiva da plateia em tendo em vista a popularidade da única mulher que o samba chamou de rainha.