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sábado, 27 de maio de 2017

Alices


Intimidante, agressivo e amedrontador em dose delirantemente fatal

Parte integrante da vida de todo ser humano, a violência se faz presente, direta ou indiretamente, através das mais variadas formas, causando danos físicos, morais e materiais. A devastadora realidade em que se vive pode ter efeito anestesiador durante o trabalho, o lazer ou atividade funcional complementar do dia a dia. O potencial uso intencional de força física ou poder, se manifesta mesmo quando se testemunha e não se denuncia, quando se ouve falar e não se demonstra interesse, quando faz vítimas e os vitimados se envergonham em assumir o dolo – enquanto latente lhe é permitida aflorar através dos nervos.

O estranho fascínio que o espetáculo “Alices” desperta ao, intencionalmente, trazer o tema à baila, desloca a plateia da zona de conforto promovida pelo seu distanciamento da realidade – de onde se faz possível imputar a culpa às vítimas pela violência praticada – e lhe transfere a responsabilidade de analisar cada vírgula inserida no texto de Jarbas Capusso Filho.

O enfoque subjetivo sobre a violência, apropriadamente sequelado, é transmitido pela discorrência atemporal, em local geograficamente indefinido, das aflições de duas mulheres quaisquer, assumidas de corpo alma pelas atrizes Mitzi Evelyn e Carolina Stofella que levam, às vias de fato, o eficiente produto decorrente da direção e adaptação de Leo Gama.

A qualidade do desenho de luz do espetáculo, sob a responsabilidade de Aurélio de Simoni, define, de forma artisticamente conceitual e simbólica, a organização espacial das cenas em meio às pseudo-certezas e as dúvidas originais externadas pelas impactantes Alices. Seguindo a linha do conceito e do simbolismo, a concepção e a materialização cenográfica de Pati Faedo traduz o que não é explicitado verbalmente e convida o espectador a mergulhar em um mundo onde, o que se apresenta, não é bem aquilo o que se vê. De braços dados aos desenhos cenográfico e de luz, o expressivo e sugestivo figurino de Marie Salles caracteriza as envolvidas de modo físico, psicológico e moral, compartilhando a responsabilidade pela incompreensão da ideia central, que deve ser interpretada como uma denúncia contra a violência. A inebriante trilha sonora de João Paulo Mendonça altera a deficiência moral desenvolvida com o tempo, com os seus cinquenta minutos de espetáculo e lesiona a indiferença ao manter o espectador atento. O dissimulado visagismo de Deborah Rocha é intimidante, agressivo e amedrontador em dose delirantemente fatal e mascara a obviedade por detrás dos segredos guardados pelas protagonistas.

A persuasiva história de “Alices” transportada para o palco é a materialização de um espetáculo sensorial – um misto de temor e curiosidade que impulsiona e prende a atenção do espectador, que se manifesta através de sua respiração tensa, pela simples constatação do potencial de detonação da violência latente dentro de si.


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