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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Hollywood


A sátira residente na loucura humana

A ausência da existência retratada pelo binômio que protagoniza a principal obra filosófica de Sartre – “O ser e o nada”, se manifesta no terceiro texto da trilogia de David Mamet – “Hollywood” que aborda o vazio contido na esfera das produções rotuladas como entretenimento capazes de seduzir indivíduos sofrivelmente qualificados como seres pensantes. Não se dão ao trabalho de avaliar, profundamente, determinados produtos que lhes são ofertados pela simples incapacidade de questionarem os objetos que lhes despertam interesse – quadro este que conduz à angustiante reflexão sobre o vazio existencial de uma fração não desprezível de consumidores de produtos voltados para lhes garantir duvidosos momentos de prazer.

Tomando o tempo como partícula fora do espaço imaginativo, Tony Miller iconiza uma entidade substancial no contexto do universo das produções de entretenimento, impudentemente encarnado por Claudio Gabriel. O recém-instalado chefe de produção do grande estúdio de cinema recebe a visita do expansivo colega de trabalho, Daniel Fox, defendido – a partir de flutuações aleatórias, em meio a ambição e condutas aéticas – por Ricardo Pereira. Parte de Fox uma oferta a Miller: a irrecusável possibilidade de uma produção cinematográfica, composta por um roteiro pífio porém, protagonizado por um célebre astro de cinema – uma chance de enriquecimento mútuo, na simples dependência da aprovação do projeto pelo principal executivo do estúdio. Articulando um triângulo com vértices pontuados pela ganância, pelo deslumbramento e pela concupiscência, surge Karen – com presença pungente, diretamente proporcional à entrega de Luciana Fávero à instigante secretária temporária de Miller, objeto de uma aposta entre os articuladores.

A surpreendente direção de Gustavo Paso – que também assina o projeto cenográfico repleto de simbolismo e de efêmera organicidade – injeta a dose certa da superficialidade do estado humano satelizado pela dor, pela tristeza, pela angústia, pela paixão, pela depressão, pela solidão e pela alegria, longe da intenção de qualquer análise ou constatação filosófica, mas demonstrar apenas o factual subjetivo, do “sentimento de poder” a despeito do “nada ser” em meio a um aflitivo leiaute precariamente definido e composto por peças de mobiliário ainda embaladas em plástico bolha. Simbioticamente, o cenário de Paso e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros revelam a inter-relação entre matéria versus luz e do cromatismo lumínico como promotor de multiplicidade cênica, capazes de ilusionar o olhar do espectador mais atento. O figurino de Sonia Soares e Mariana Baffa é coerente com a essência de cada personagem e acentua a equivocada bagagem emocional de Miller e de Fox enquanto amigos e rivais, alimentada por uma relação interpessoal homossocial, na qual percebe-se a exclusão, tacitamente pactuada, da figura feminina. Edio Nunes provoca a plateia com sua perturbadora coreografia injetando nos personagens uma pré-existência rigorosamente insignificante e libidinosamente frenética.

Sob zelosa produção e realização, a sátira residente na loucura humana é desenterrada pela CiaTeatro Epigenia através da tradução e adaptação do original “Speed The Plow”, que não se esgota frente à crescente demanda por debates sobre o descarte rotineiro de produtos culturais que devem ser ofertadas e consumidas como arte. 


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