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sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Grande Ressaca


Uma densa atmosfera surrealista

Um quebra-cabeça composto por onze textos do dramaturgo Romeno Matéi Visniec – reconhecido pela contemporaneidade e pela “Ionesca” influência do gênero teatro do absurdo em seus trabalhos – é arquitetado pela ousada direção de Fernando Philbert. Os textos de Visniec discorrem sobre temas do cotidiano relacionados à condição humana – o sentido da vida e da morte, o valor de cada ato, a tensão entre indivíduo e a sociedade, as crenças religiosas, políticas e afetivas, que questionam o homem enquanto ser solitário. Em meio a uma densa atmosfera surrealista, Philbert transforma o palco em uma galeria de arte quadridimensional e sensorial, traveste a poesia em realismo fantástico e apresenta o espetáculo “A Grande Ressaca”.

A força presente em cada um dos personagens demanda interpretação marcante, à altura da complexidade do ser contida no elementarismo de cada papel, amparado pela trupe que se entrega ao limiar da insanidade contida nos absurdos os quais proferem e desempenham – Allan Medeiros, Deborah Silveira, Djavan Fernandes, Gabi Soledade, Gonzalo Martinez Cortez, Lucas Gonjú, Marcelo Ferreira, Matheus Niquelatti, Nanda Teixeira, Otávio Tardelli, Relise Adami, Tadeu Azevedo.

Assinado por Philbert, o projeto cenográfico prioriza um andaime sobre rodas que, generosamente, compartilha breve momento no palco com uma cadeira e um telefone de baquelite preto do meado do século XX. De resto, adereços como guarda-chuvas, manequins, máquinas fotográficas, um biciclo, dentre outros objetos remontam à arte pictórica inspirada em instinto, em automatismo e em subconsciente quase circenses. Como em um turbilhão que envolve os personagens e os olhares atentos da plateia, capaz de transportar todos de uma dimensão para outra em segundos, o rodopio do andaime sobre rodas, embalado pelos solos de guitarra de Djavan Fernandez – que, juntamente com Philbert e Lucas Gonju, são responsáveis pela selvageria presente na trilha sonora do espetáculo – define a descontinuidade das onze cenas “linkadas” por linhas sinuosas, formas e cromatismo nos moldes dos delírios abstratos “Mironianos”. Ao encontro de tudo isso vão o dramático e contrastante desenho de luz de Wilson Reiz e o transitório figurino de Maria Duarte que humaniza e aglomera as referências individuais e coletivas conectadas à guerra, ao abandono e ao risco fronteiriço da sociedade.

Em meio a pessoas solitárias e perdidas – que não se fazem compreender, franco-atiradores prestes a matar civis a despeito de suas faixas etárias e à violência física e burocrata que impedem uma mãe de atravessar, com sua filha, a fronteira de regresso à sua casa – é criado um clima familiar capaz assombrar os mais fantasiosos contos de fadas ou assegurar o mundo em que vivemos, sem crendices religiosas. Na sala de espetáculos, a divisa entre palco e plateia se desfaz fazendo dos espectadores parte integrante daquela trupe e com ela compartilham o sentimento de estarem desempenhando o papel de palhaços, nem sempre engraçados. Coletivamente, assumem corajosa mas, passivamente, a função de sentinelas, sempre no aguardo da chegada de uma nova grande ressaca, à beira de um píer.


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