Counter

domingo, 18 de junho de 2017

Cidade Correria


A arte retratando a vida, tal e qual se vem mostrando refém de um modelo político, há muito, falido

Consciência civil e política marca a concepção e o desempenho dramatúrgico do Coletivo Bonobando ao retratar a essência da diversidade inserida no processo de ocupação urbana em “Cidade Correria”, sem qualquer apelo às influências de tradicionais movimentos sociais e sem qualquer menção direta às articulações de partidos políticos.

A perturbadora verticalidade hierárquica encrustada na delirante e irônica direção de Adriana Schneider e Lucas Oradovschi identifica uma cidade sem local e nome específico, à deriva, onde o caos, o carnaval, a revolução e as contradições do dia a dia atuam a partir de seus próprios movimentos autonomistas, diante do transbordamento da hipocrisia social. Seus habitantes são formados por atores de territórios populares do Rio de Janeiro - Daniela Joyce, Hugo Bernardo, Igor da Silva, Jardila Baptista, Karla Suarez, Livia Laso, Marcelo Magano, Patrick Sonata, Thiago Rosa, Vanessa Rocha; atriz substituta: Camila Krishna – que brincam com a fluidez, a flexibilidade e o dinamismo como interlocutores da velha política que desafia os novos modelos de representatividade institucional. A direção de movimento de Cátia Costa e Mariana Mordente interdita os espaços vazios e insere o espectador em meio à atmosfera dramatúrgica implantada na sala de espetáculos. Nina Balbi assina um desenho de luz que fortalece o conteúdo do roteiro, abrilhantando todos os personagens em conjunto, em uníssono com a direção musical de Ricardo Cotrim.

Adequada a uma realidade extremamente atual e já, há muito, duradoura, a convocação de “Cidade Correria” assume um viés que margeia a falta de representatividade governamental e política da periferia em uma cidade concreta e partida – a arte retratando a vida, tal e qual se vem mostrando refém de um modelo político, há muito, falido.



Nenhum comentário:

Postar um comentário