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segunda-feira, 5 de junho de 2017

E O Vento Vai Levando Tudo Embora


Cavalos-Marinhos

O relacionamento interrompido entre duas pessoas – como se em um mar agitado onde suas ondas vão levando tudo embora, agitadas pelo vento que sopra todas as marcas indeléveis de uma paixão, em um balé cíclico do movimento da maré que traz tudo de volta à beira da praia – acaba se tornando mais leve, menos ingênuo, encharcado de saudade e pronto para seguir em frente.

O espetáculo “E O Vento Vai Levando Tudo Embora”, a partir do texto assinado por Regiana Antonini, marca a segunda produção da trilogia livremente inspirada em uma canção de Renato Russo – Vento no Litoral, depois de “Aonde Está Você Agora”. Antonini acumula a direção do espetáculo – contaminada por romantismo e poesia – iconizado pelo livro de bolso intitulado “O Livro da Sorte” de F. Ramon, responsável pela vertente simbólica que conduz as vidas entrelaçadas dos protagonistas. Os “eus” líricos da história ficam por conta da naturalidade e jovialidade presentes na interpretação de Gabriel Chadan, Josie Pessôa e Juliano Laham que se entregam psicológica e sentimentalmente aos seus papéis, como em um processo de simulação de um convite à plateia para ir até a praia, subir nas pedras em busca de um lugar para refletir e fazê-la pensar sobre se entregar a outro, por amor, ou não ser uma bobagem romântica.

A linha do horizonte que distrai como na canção, é realçada pelo desenho de luz de Cláudio Martani, direcionando os olhares da plateia, na mesma direção, sem perder o foco no amor incondicional – cem por cento presente no palco. A vigorosa simplicidade com que o cenário de Ruslan Alastair foi concebido se impõe como refúgio das ideias, dos sentimentos, dos complexos e do temor, assim como na canção que declara haver inconformismo diante de tanto lirismo. As músicas que embalam o romance encenado são porta-vozes do que não é explicito com palavras - “Walk On The Wild Side”, de Lou Reed;  “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo; “Black Dog”, de Led Zeppelin; “Mãos Atadas”, de Simone Saback,; “Vai”, de Ana Carolina; dentre muitas outras que Bruno Marques, o responsável pela seleta trilha sonora, enriquece ainda mais as declarações de amor contidas nas entrelinhas de Antonini. O despretensioso figurino de Cal Carpenter gerencia os anos de 1990 aos atuais anos 2000, com muita competência.

A proposta de “E O Vento Vai Levando Tudo Embora” parte da premissa dualística que confronta o amor entre um homem e uma mulher e o amor decorrente de uma amizade verdadeira. Ao perdedor, concede-se o privilégio de encontrar e se identificar com Cavalos Marinhos, como na canção de Renato Russo – animais de um gênero de peixes ósseos cujos filhotes são concebidos pelo macho após um belíssimo ritual de acasalamento para que, logo após, seja abandonado pela fêmea, restando-lhe apenas a plácida solidão das profundezas do mar. Enquanto na superfície, o vento se encarrega de levar tudo embora.

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