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domingo, 25 de junho de 2017

Rita Formiga


Uma crônica levada ao palco, com dose exata de humor


A pegada tropicalista retrata o status definido pela posse de uma linha telefônica e, consequentemente, define a temporalidade do espetáculo “Rita Formiga” – finalzinho dos anos 1960, início dos 1970 – ambientado em um apartamento localizado no pacato Bairro Peixoto, na zona sul do Rio de Janeiro. Longe da intenção de ser chamado lar, sob o ponto de vista convencional, vivenciado pela tradicional família protagonista de comercial de margarina – aquele pequeno e aconchegante refúgio era habitado pelo ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira que, invariavelmente, recebia a visita diária de sua vizinha Rita, entre 16:00 e 18:00, com a intenção de usar seu telefone, através do qual matinha longos períodos de prosa com a sua amiga Iris. Não fosse um observador dos hábitos cotidianos alheios, que muitas vezes lhe servia como base de seus textos, Domingos de Oliveira, inescrupulosamente e tomado por óbvias intenções, reservou-se o direito de gravar a parcela audível do diálogo telefônico entre Rita e Iris.

Priscila Steinman cede ao papel de Rita a sua graciosidade nata e sustenta a protagonista como uma intrépida mulher independente, sexualmente bem definida, satisfeita com sua profissão de atriz,  inimiga ferrenha da hipocrisia e tomada por incontestável sincericídio – seguindo uma vertente “Diniziana” ditada pela Leila de então.

A direção de Fernando Philbert vai na contramão da filosofia de Jim Rohn – autor do conceito de que “formigas pensam inverno durante todo o verão” – e faz o sol resplandecer em Rita, através da luminosidade de Steinman, potencializando a visão otimista e ganância da protagonista por momentos que seguem sempre melhores que os atuais, presentes em cada uma das quatro cenas que compõem o texto, a começar pelo “O Império da Burrice”, seguido de “Terra Prometida”, “Rita vê o Amor Chegar” e, epilogando com “A Volta do Cotidiano”. O prólogo que amacia a plateia com um tratado sobre o ser burro versus o ser inteligente, verbalizado digitalmente pelo próprio Domingos de Oliveira, sem qualquer intenção de subtrair o espetáculo de todas as qualidades que lhe são conferidas, já vale, a cada espectador, a posição de ouvinte diante da imagem projetada do autor.

O projeto cenográfico de Natália Lana é remetente a um passado glorioso, culturalmente produtivo, ao mesmo tempo que presta um louvável tributo a Oliveira – segundo uma simplicidade permissiva, a arte de Lana também glorifica o figurino. A paleta de cores e o jogo da distribuição focal adotados pelo desenho de luz de Vilmar Olos traduz a essência do cafofo de Oliveira enquanto espaço do cedente e a atmosfera emanada pela cessionária. Em franco sincronismo com a luminotecnia cênica, o videografismo de Jeff Arcanjo e Rafael Blasi se responsabiliza pelas lembranças fotográficas de Domingos de Oliveira e pela potencialização do clima portenho ao som de Adios Nonino de Astor Piazolla, sob a direção musical de Maíra Freitas.

Tão despojado quanto seu autor, “Rita Formiga” não pretende ser mais do que uma crônica levada ao palco, com dose exata de humor extraída de um cotidiano genuíno que vai muito além de possíveis reflexões sobre a sua cronologia coincidente com os anos de chumbo.


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