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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Os Meninos que Enganavam Nazistas


Desprovido de qualquer tipo de sutileza ou de lirismo

Baseado na autobiografia do autor francês Joseph Joffo, o filme “Os Meninos que Enganavam Nazistas”, orquestrado pela fortíssima direção de Christian Duguay, discorre sobre os horrores do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto ainda criança.

Dorian Le Clech vive o pequeno protagonista juntamente com Batyste Fleurial – Maurice, seu irmão imediatamente mais velho, em meio a uma família composta por quatro filhos de pais judeus. Com aproximadamente cento e vinte minutos de projeção, o filme traça um suficiente panorama da situação francesa durante a ocupação nazista e da caça ao povo de Israel.


Desprovido de qualquer tipo de sutileza ou de lirismo frente aos infortúnios para sobreviverem às investidas dos homens de Hitler, a pesada jornada dos dois irmãos é perturbadora e de difícil digestão, apesar da bela trilha sonora de Armand Amar e das criteriosas tomadas fotográficas de Christophe Graillot.  “Os Meninos que Enganavam Nazistas” possui efeitos colaterais que podem impactar a respiração da plateia e alterar a sua zona de conforto – nem tanto pelos fatos históricos já tão explorados pelas produções cinematográficas, mas pela complexidade humana que, sem artificialismo, é capaz de atar um nó difícil de ser desfeito, na garganta de cada um dos espectadores.

domingo, 30 de julho de 2017

Como se Tornar um Conquistador


Famigerada ascensão

Na atual conjuntura político-social do mundo, é decretada a abolição do escrúpulo em se assumir, publicamente, ambicionar contravenções e meios escusos em busca de vantagens pessoais, seja qual for a escala definida para com o desrespeito à moral e aos bons costumes, dentre eles, o genuíno interesse por detrás da aproximação da riqueza, da fama e do poder, em detrimento de todo um universo pessoal pré-existente que possa contrariar a tão famigerada ascensão.

Normatizado pela divertida direção cinematográfica do ator, comediante e roteirista norte americano Ken Marino, o alpinismo social trabalha em favor da comédia “Como se Tornar um Conquistador”, na qual Eugenio Derbez protagoniza Maximo que, na sua infância, presencia a morte tragicômica de seu pai – um autêntico motorista de veículo de carga cuja aparente passiva aceitação de seu destino como trabalhador poderia estar estampada em uma suposta curta frase escrita no parachoque de seu caminhão: “Deus é Fiel”. A partir de então, Maximo constata, por sua conta e risco, não valer a pena o esforço da conquista do simplesmente básico para a sobrevivência, mas tudo aquilo que a vida possa lhe oferecer do bom e do melhor – mesmo que, para isso, o caminho mais curto a ser trilhado seja o casamento com abastadas senhoras, de preferência, em manifesta contagem regressiva para partir desta para melhor.

O impagável roteiro definido a quatro mão por Chris Spain e Jon Zack não trata o tema como algo nefasto, mas mostra as necessidades familiares, mesmo quando não coincidem com os anseios pessoais idealizados.

As hilárias atrapalhadas do protagonista contam com uma sedutora base elencar - Salma Hayek, Rob Lowe e Raquel Welch e formatam um filme fielmente perfilado dentro do padrão a que se propõe – a diversão no melhor sentido de um sedutor e aparente ingênuo descompromisso para os problemas cotidianos.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Dunkirk


Experiência sensorial extremamente reflexiva

A obsessiva direção de Christopher Nolan em “Dunkirk” extrapola a tela de cinema e atinge em cheio o espectador - em especial, aqueles que se põem na mira do formato de projeção contemplando a tecnologia de imagem máxima.

Dessa forma, cinéfilos passam a fazer parte de um realismo virtual no qual imagem e audição são portas de entrada de estímulos capazes de transportá-los para junto dos personagens – pura experiência sensorial extremamente reflexiva. Dispensando o uso de clichês, a ousadia de Nolan projeta o espectador para o olho do furacão de uma história real. À arquitetura da narrativa a partir de três perspectivas – o ar, a terra e o mar – é agregada a mente do espectador, como um quarto elemento que, inevitavelmente, faz com que a plateia assuma o papel de coadjuvante em meio à batalha de Dunquerque, ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial entre 24 de maio e 4 de junho de 1940, ao final da qual mais de 300.000 soldados aliados de uma enorme força britânica e francesa foram evacuados pelo mar, após terem sido encurralados por uma divisão alemã a nordeste da França e entre o canal costeiro de Calais.

A genialidade de Nolan reinventa uma nova forma de se assistir um filme – impulsionando a máxima que define o cinema como a maior diversão e compartilha, de forma diferenciada, não só momentos de tensão, de sofrimento e de dor, mas demostrando o quanto o ser humano pode ser solidário em meio a guerras que se mantém latentes, de forma fria, até os dias de hoje.

Em Ritmo de Fuga

Som e fúria

Uma espetacular trilha sonora mixada a frenéticas cenas de ação define a contextualização do filme “Em Ritmo de Fuga”. O espectador é capturado através do sentido da audição, arremessado ao passado musical e inserido em uma narrativa explosiva, em extrema sintonia com o protagonista – Baby, docilmente fatal por Ansel Elgort. Seu ofício – piloto de fuga de quadrilhas de assaltantes comandadas por Doc (Kevin Spacey). Seu estilo – fones de ouvido e tocador de mp3 como assessórios permanentes definindo ritmos para a multiplicidade de atividades do seu dia a dia, em especial ao pilotar para assaltantes. Seu passado – órfão de pai e mãe, mortos em trágico acidente automobilístico no qual estava presente, causando-lhe uma lesão auditiva conhecida por trauma acústico, rendendo-lhe um zumbido permanente. Seu tratamento paliativo – injeção de música em alto volume no seu aparelho auditivo de modo a mascarar o zumbido que lhe atordoa 24 horas por dia.

O romance que sateliza a história é mero coadjuvante do divertido roteiro de autoria de Edgard Wright, que acumula a direção do filme, deitando no colo do espectador um molho de clichês. Contudo, Wright é prudente em tornar crível os desejos e os objetivos do protagonista em comum com a sua habilidade como exímio “car driver”, repleta de som e fúria, desde início do filme com “Bellbottoms” – The Jon Spencer Blues Explosion atingindo a tranquila versão de “Easy” – Sky Ferreira, no limiar de seu final.



segunda-feira, 24 de julho de 2017

Precisa-se de Velhos Palhaços


Um mundo obscuro e sem a menor graça


A desconstrução de falsas expectativas de um público que, eventualmente, comparece sem saber porque e que se esforça em busca de alguma palavra picaresca ou de uma pantomima jocosa que possa justificar um ensaio de gargalhada diante de três representantes do que há de mais genuíno no universo circense – o resgate da pureza dos clowns fruto da percepção do que o foram para um público capaz de fazer dessa experiência uma viagem a um passado pessoal e intransferível – duas dentre tantas possibilidades pelas quais o dramaturgo romeno naturalizado francês, Matei Visniec, impacta, com o seu teatro do absurdo, a plateia que se propõe a degustar “Precisa-se de Velhos Palhaços”.

A presença de uma veia cômica ambientada somente no consciente de quem a procura, custe o que custar, na verdade se trata de um drama cuja representação é tão fiel ao texto de Visniec quanto genuína é a formação e o idealismo do trio de atores da região da baixada fluminense que se propõe a alavancar uma produção artística com profissionalismo e garra inversamente proporcional ao investimento no setor da cultura, em um município de representativa importância econômica e turística.

Em meio a um cenário metafórico, de simplicidade marcante em sua essência, sob a responsabilidade de O Grupo, eis que surgem três palhaços: Nicollo – sensivelmente realizado por Fábio Mateus; Felippo – delineado maliciosamente por Felipe Villela e Peppino – versatilmente propagado por Johnny Rocha, onde a competição se faz presente em uma demonstração de suas aptidões para com o ofício demandado.  A potente direção do espetáculo é orquestrada por Anderson Marques, que segmenta a dramatização em crises existenciais pertinentes a Nicollo, Felippo e Peppino que, atendendo a um anúncio de emprego, pretendem conseguir a única vaga disponível. A tradução e adaptação do texto “A Petit Boulot Pour Vieux Clown”, por Pedro Sette-Câmara, reagem de maneira corrosiva e perversa, fazendo com que a suposta criança que ainda, por ventura exista dentro de cada espectador, corra, em prantos, para os braços acolhedores de quem possa lhes proteger. O simbolismo presente no figurino e no visagismo, nada caricata e com uma pitada de surrealismo, assinados por Tiago Costa emergem na subjetividade dos três palhaços diante de suas frustrações, angústias, lembranças e histórias de vida – drama fomentado pelo desolador desenho de luz de Pablo Rodrigues, que fere com desdém, diante do que é proferido e vociferado pelos candidatos à vaga. 

O enquadramento do espectador entre quatro paredes é inevitável no âmbito de “Precisa-se de Velhos Palhaços”, com a consequente dissociação das verdades sobre o que é ser humano em um mundo obscuro e sem a menor graça.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Emilinha


Espetáculo em que fãs ovacionam e expressam seu amor incondicional a Emilinha Borba


Emília Savana da Silva Borba – popular cantora, coroada como Rainha do Rádio e principal representante da Era de Ouro do Rádio Brasileiro – ressurge em ato fulminante, diante dos olhos de uma plateia maciçamente composta por fãs genuínos, tamanha a capacidade da atriz Stella Maria Rodrigues de assimilar a essência e resgatar o carisma de Emilinha Borba ao longo dos 80 minutos do espetáculo musical “Emilinha”. A orquestrada e precisa direção geral e de movimento de Sueli Guerra insere uma plateia saudosista no centro da história. Aos pés de Emilinha, os espectadores se deleitam com o início do espetáculo ao som de “Tomara que chova” de Paquito e Romeu Gentil, assumindo o papel de coadjuvantes intérpretes que acompanham a estrela ao longo da apresentação de seu repertório que contempla, dentre outros sucessos, “Dez Anos” de Rafael Hernandez, “Chiquita Bacana” de Alberto Ribeiro e João de Barro. O frenesi se faz presente com o backing vocal da plateia respondendo ao comando de Emilinha em “Escandalosa” de Ramon Novaez, dando vez ao duo com participação do galante parceiro de palco – o cantor Fabrício Negri – em “Primavera no Rio” e “Copacabana” – ambos de autoria de Braguinha. O encontro com Luiz Gonzaga rende à plateia sucessos do Rei do Baião - “Paraíba Masculina” e “Asa Branca”, abrindo espaço para singelas lembranças da rivalidade entre Emilinha e Marlene.

O seletivo e coordenado desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros promove momentos que vai da nostalgia à euforia, concedendo ao público a percepção de que todos fazem parte de uma apresentação em um estúdio de rádio durante programas que outrora marcaram uma época. A ambientação cênica de Marcelo Marques manipula o imaginário do espectador, compondo com o trio de músicos, explicitamente no palco, cuja presença ostensiva é atenuada pela sutil cortina de fumaça que, por sua vez, pigmenta a boca de cena ao assimilar as cores dos fachos de luz de Medeiros. A direção musical de Cristina Bhering – que integra a banda como pianista, na companhia indissociável dos talentos de Afonso Neto, na bateria e de Raul Oliveira, no baixo – se expressa através da magnitude do repertório, quando uma senhorinha fã, externa o seu louvor ao seu ídolo ao entregar uma braçada de palmas a Stella que, as recebe tal e qual as receberiam Emilinha e que, em agradecimento ao gesto, lhe dedica “As Cantoras do Rádio”, de Alberto Ribeiro e João de Barro. O apoteótico figurino de Rosa Magalhães conta com a participação do acervo do fã clube de Emilinha e desenha o bom gosto e a delicadeza da artista diante de seus fãs e a faz leve par dançante com um eleito da plateia enquanto canta “Aqueles Olhos Verdes” de Braguinha. O visagismo de Sérgio Marks é estelar e realça os traços de Stella com os fossem de Emilinha, em uma trajetória temporal musicalizada até os anos 2000, quando “Fogueira”, de Ângela Rô Rô, é entoada.

O pout- pouri com músicas de João Roberto Kelly – “Mulata iê iê iê”;  de Antônio  Almeida e Oldemar Magalhães – “Marcha do remador”; e de Haroldo Barbosa e Carlos Cruz – “Can-Can no Carnaval” marcam o final de mais uma noite de emocionante espetáculo em que fãs ovacionam e expressam seu amor incondicional a Emilinha Borba, da sala de espetáculos ao foyer do Teatro Maison de France, no centro da Cidade Maravilhosa.


sábado, 15 de julho de 2017

Deuses Invisíveis – ou O Deus Dançante


Uma realidade que não existe para os personagens, mas que é estranhamente familiar aos espectadores

A alienação imaginativa de uma mulher diagnosticada como esquizofrênica, internada em uma clínica psiquiátrica, versus as reflexões do especialista e companheiro filosófico, fazem parte do processo cognitivo entre paciente e médico que captura o transitivismo do espetáculo “Deuses Invisíveis – ou O Deus Dançante”, da Cia Teatro Imediato.

O desmoronamento psicológico dos personagens é o resultado da sustentável dramaturgia e da atuação de Ludmila Brandão e de Thor Vaz que induz o espectador a vivenciar os fragmentos dos quatorze personagens que se confundem na perspectiva alienante da contadora das fábulas sociais.  Submersa em uma fantasmagórica e, ao mesmo tempo, lírica trilha sonora assinada por Leopoldo Vaz Eustáquio, “Deuses Invisíveis...” constrói uma realidade suplente diante daquilo que não está sendo contado – uma realidade que não existe para os personagens, mas que é estranhamente familiar aos espectadores - de forma latente anterior à apresentação, identificável durante a encenação e palpável uma vez findo o espetáculo.

A expressiva produção de Javier Rubin age de forma nosológica a cada aparente manifestação esquizofrênica nossa de cada dia. “Deuses Invisíveis...” conecta o espectador em uma espécie de déjà-vu a cada frase projetada em meio ao videografismo de Laura Fragoso, tal e qual um projétil pungente atirado nos alvos individuais que compõem a totalidade da plateia. “Quem faz da família um estranho, em cada estranho encontra uma família. Mas quando você mais precisar...só restam os estranhos” é simplesmente uma das pérolas de um rosário proferidas em meio ao descortinar das inconsciências presentes, trazendo à tona questões de desconfortável abordagem como: a invisibilidade das minorias, a falta de consciência a respeito de quem somos e como nos relacionamos, a dificuldade de encontrar-se em si e no outro, a nossa função no todo universal, a escassez no afeto mesmo entre familiares, o sentido vazio de moralidade e dever na propagação dos padrões afetivos, as relações extraconjugais, as relações amorosas abusivas, a questão de gênero, a noção de valores entre a fama versus o anonimato e o abismo que separa dois seres que moram no mesmo edifício – construindo, de forma intrigante, cenas cotidianas que podem ser vividas por qualquer indivíduo.

O desenho cenográfico se confunde com o luminotécnico cênico, concebidos de forma minimalista pela Cia Teatro Imediato, convive de forma simbiótica com o dinamismo das projeções de Fragoso. “Deuses Invisíveis...” é capaz de dispensar qualquer manifestação ruidosa como reconhecimento ao desempenho impecável de toda uma ficha técnica mas, essencialmente, a retirada silenciosa da sala de espetáculos seria capaz de reproduzir a sensação de invasão do íntimo de cada um dos espectadores.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

KINOPLEX - 100 anos de Magia e Emoção


100 anos de Magia e Emoção

Há exatamente cem anos, no dia 14 de julho de 1917, é inaugurado o Cine-Theatro Majestic Palace em um arranha-céu de quatro andares, localizado na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza – CE. Como um local de entretenimento, o estabelecimento dá início a uma trajetória definida pelo empreendedorismo exibidor de Luiz Severiano Ribeiro, através de luzes, de câmera, e de ação, culminando na consagração do cinema como a maior diversão.

Kinoplex, marca que representa a nova geração de cinemas Severiano Ribeiro, abre as portas de seu complexo Rio Sul, no Rio de Janeiro, no dia 04 de julho de 2017 e recebe mais de 500 convidados em uma pré comemoração aos 100 anos da maior rede de cinemas 100% brasileira.

No amplo foyer do primeiro complexo de cinemas inteiramente premium da Zona Sul do Rio de Janeiro – inaugurado em 14 de abril de 2016, contemplando seis salas de exibição digital equipadas com telas gigantes com imagem 3D full HD, além de som e imagem de última geração – as boas-vindas ao evento ficam por conta da atuação performática de diversos personagens de clássicos do cinema e pelo embalo musical desempenhado pela contagiante banda temática “The Sound Trackers: os tocadores de trilhas” com Claudia Gomes e Fabio Nogueira (voz), Rodrigo Rodrigues (violão e guitarra), Fabio Effori (baixo), Michel Membrive (teclado), Amauri Souza (guitarra) e Pedro Rangel (bateria), apresentando sucessos cinematográficos dos anos 50 até os dias atuais.

Durante o evento, um set especial aguarda por artistas e demais celebridades do universo cultural para registros multimídia e depoimentos conduzidos por Raíssa Venâncio – apresentadora da websérie “Na Poltrona” criada pelo CAMPO-comunidade produtiva de ideias, com produção da Cajamanga para o Kinoplex – e outros veículos de TV.

Os convidados foram presenteados com a exibição de quatro filmes: “O Filme da Minha Vida”, dirigido por Selton Mello, estrelando Bruna Linzmeyer, Johnny Massaro, Selton Mello e Vincent Cassel; “João, o Maestro”, sob a direção de Mauro Lima, com Alexandre Nero, Alinne Moraes, Caco Ciocler e Rodrigo Pandolfo – ambos com estreia prevista para 3 de agosto; “O Jantar”, dirigido por Oren Moverman, com Laura Linney, Richard Gere e Steve Coogan no elenco – estreia em 17 de agosto; e o Homem-Aranha: de Volta para o Lar, dirigido por Jon Watts, com Michael Keaton, Tom Holland, e Robert Downey Jr.– estreado em 6 de julho – cujas sessões foram abertas com a apresentação de um curta documentário sobre a trajetória do Grupo Severiano Ribeiro no mercado de distribuição cinematográfica, dirigido por Luiz Baez e Maurício Salgueiro.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Homem-Aranha – De Volta ao Lar


Excede um pouco, mas não satura muito

Uma terceira versão do “amigo de sempre” em “De Volta ao Lar” surge após a releitura de Sam Raimi e Marc Webb – que já concederam ares mais joviais e contemporâneos a Peter Parker – e assume um estilo eminentemente “teen”, através de um jeito meio mangá chibi de ser, em contraposição ao Parker concebido no início dos anos 60 que, apesar dos seus ainda 15 anos de idade, apresentava traços de maturidade física comportamental da década rebelde. Sem dó nem piedade, no vácuo da reformatação do alter ego do Aranha, todos os demais personagens da série clássica parecem ter bebido um cadinho da fonte almejada por Ponde de León no século XVI.

Na sequência de “Capitão América: Guerra Civil”, Peter Parker – atualmente, incorporado por Tom Holland – aguarda o contato de Happy Hogan – o guarda-costas e motorista de Tony Stark – os desde sempre, Jonathan Kolia Favreau e Robert Downey Junior, respectivamente. Sem sucesso, Parker toma a iniciativa de se lançar por Nova York como Homem-Aranha, assumindo o uniforme repleto de tecnologia e gadgets que lhe foi presenteado por Stark, e se depara com uma quadrilha liderada pelo Abutre, o outro lado de Adrian Toomes – incorporado por Michael Keaton – personagem que, antes de se tornar o vilão da vez, já ganhava seu sustento como catador dos armamentos e dos destroços remanescentes da última batalha dos Vingadores, visando à sua venda no mercado paralelo.

Uma trilha sonora pop, uma pitada de comicidade adolescente e um insight de referências para fãs mais conservadores, fazem parte de uma composição criativa em meio a um produto um tanto quanto prolixo – que excede um pouco, mas não satura muito. A hiperativa direção de Jon Watts segue a vertente da contemporaneidade, na qual a inclusão em um universo diversificado e suas específicas conexões no núcleo Marvel fazem do atual Homem Aranha um projeto que tem tudo para vingar e se transformar em uma franquia de sucesso duradouro, como o do lar para onde acaba de voltar.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Uma Família de Dois


Reprodutor de risos e de lágrimas

O argumento é lugar comum e já há muito explorado – um homem imaturo, ao descobrir a força da paternidade, assume todas as responsabilidades para garantir a felicidade do seu rebento e afastá-lo do sofrimento. De algo que poderia ser confundido como uma pedra, a fluente direção de Hugo Gélin consegue tirar água. E dessa forma é produzido “Uma Família de Dois”, a partir do amor e da cumplicidade entre os protagonistas: Samuel – um homem imaturo e a sua cria Glória – uma cativante menininha, que conseguem suplantar a dose de carisma possível de se transmitir em uma tela de cinema, graças à naturalidade e à verdade com que os intérpretes Omar Sy e Gloria Colston se entregam a seus papéis.

Um roteiro tão bem elaborado, a quatro mãos, por Gélin e Jean-André Yerles, evidencia a liga existente entre os dois personagens – tal e qual o hábito de Samuel se fingir de morto para que Gloria, logo em seguida, o “ressuscite”. A ritmada adaptação assinada por Yerles, do filme mexicano “No se aceptan devoluciones”, de Eugenio Derbez, garante ser um núcleo reprodutor de risos e de lágrimas, de certezas e de desconfianças, de apatia e de impacto frente ao excesso de falsas evidências. O plot twist é forte e cem por cento surpreendente, a tal ponto de forçar o espectador rebobinar o filme, mentalmente, em busca do sentido de uma suposta finalização capaz de induzir o espectador ao erro até o último segundo.