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sábado, 15 de julho de 2017

Deuses Invisíveis – ou O Deus Dançante


Uma realidade que não existe para os personagens, mas que é estranhamente familiar aos espectadores

A alienação imaginativa de uma mulher diagnosticada como esquizofrênica, internada em uma clínica psiquiátrica, versus as reflexões do especialista e companheiro filosófico, fazem parte do processo cognitivo entre paciente e médico que captura o transitivismo do espetáculo “Deuses Invisíveis – ou O Deus Dançante”, da Cia Teatro Imediato.

O desmoronamento psicológico dos personagens é o resultado da sustentável dramaturgia e da atuação de Ludmila Brandão e de Thor Vaz que induz o espectador a vivenciar os fragmentos dos quatorze personagens que se confundem na perspectiva alienante da contadora das fábulas sociais.  Submersa em uma fantasmagórica e, ao mesmo tempo, lírica trilha sonora assinada por Leopoldo Vaz Eustáquio, “Deuses Invisíveis...” constrói uma realidade suplente diante daquilo que não está sendo contado – uma realidade que não existe para os personagens, mas que é estranhamente familiar aos espectadores - de forma latente anterior à apresentação, identificável durante a encenação e palpável uma vez findo o espetáculo.

A expressiva produção de Javier Rubin age de forma nosológica a cada aparente manifestação esquizofrênica nossa de cada dia. “Deuses Invisíveis...” conecta o espectador em uma espécie de déjà-vu a cada frase projetada em meio ao videografismo de Laura Fragoso, tal e qual um projétil pungente atirado nos alvos individuais que compõem a totalidade da plateia. “Quem faz da família um estranho, em cada estranho encontra uma família. Mas quando você mais precisar...só restam os estranhos” é simplesmente uma das pérolas de um rosário proferidas em meio ao descortinar das inconsciências presentes, trazendo à tona questões de desconfortável abordagem como: a invisibilidade das minorias, a falta de consciência a respeito de quem somos e como nos relacionamos, a dificuldade de encontrar-se em si e no outro, a nossa função no todo universal, a escassez no afeto mesmo entre familiares, o sentido vazio de moralidade e dever na propagação dos padrões afetivos, as relações extraconjugais, as relações amorosas abusivas, a questão de gênero, a noção de valores entre a fama versus o anonimato e o abismo que separa dois seres que moram no mesmo edifício – construindo, de forma intrigante, cenas cotidianas que podem ser vividas por qualquer indivíduo.

O desenho cenográfico se confunde com o luminotécnico cênico, concebidos de forma minimalista pela Cia Teatro Imediato, convive de forma simbiótica com o dinamismo das projeções de Fragoso. “Deuses Invisíveis...” é capaz de dispensar qualquer manifestação ruidosa como reconhecimento ao desempenho impecável de toda uma ficha técnica mas, essencialmente, a retirada silenciosa da sala de espetáculos seria capaz de reproduzir a sensação de invasão do íntimo de cada um dos espectadores.


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