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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Precisa-se de Velhos Palhaços


Um mundo obscuro e sem a menor graça


A desconstrução de falsas expectativas de um público que, eventualmente, comparece sem saber porque e que se esforça em busca de alguma palavra picaresca ou de uma pantomima jocosa que possa justificar um ensaio de gargalhada diante de três representantes do que há de mais genuíno no universo circense – o resgate da pureza dos clowns fruto da percepção do que o foram para um público capaz de fazer dessa experiência uma viagem a um passado pessoal e intransferível – duas dentre tantas possibilidades pelas quais o dramaturgo romeno naturalizado francês, Matei Visniec, impacta, com o seu teatro do absurdo, a plateia que se propõe a degustar “Precisa-se de Velhos Palhaços”.

A presença de uma veia cômica ambientada somente no consciente de quem a procura, custe o que custar, na verdade se trata de um drama cuja representação é tão fiel ao texto de Visniec quanto genuína é a formação e o idealismo do trio de atores da região da baixada fluminense que se propõe a alavancar uma produção artística com profissionalismo e garra inversamente proporcional ao investimento no setor da cultura, em um município de representativa importância econômica e turística.

Em meio a um cenário metafórico, de simplicidade marcante em sua essência, sob a responsabilidade de O Grupo, eis que surgem três palhaços: Nicollo – sensivelmente realizado por Fábio Mateus; Felippo – delineado maliciosamente por Felipe Villela e Peppino – versatilmente propagado por Johnny Rocha, onde a competição se faz presente em uma demonstração de suas aptidões para com o ofício demandado.  A potente direção do espetáculo é orquestrada por Anderson Marques, que segmenta a dramatização em crises existenciais pertinentes a Nicollo, Felippo e Peppino que, atendendo a um anúncio de emprego, pretendem conseguir a única vaga disponível. A tradução e adaptação do texto “A Petit Boulot Pour Vieux Clown”, por Pedro Sette-Câmara, reagem de maneira corrosiva e perversa, fazendo com que a suposta criança que ainda, por ventura exista dentro de cada espectador, corra, em prantos, para os braços acolhedores de quem possa lhes proteger. O simbolismo presente no figurino e no visagismo, nada caricata e com uma pitada de surrealismo, assinados por Tiago Costa emergem na subjetividade dos três palhaços diante de suas frustrações, angústias, lembranças e histórias de vida – drama fomentado pelo desolador desenho de luz de Pablo Rodrigues, que fere com desdém, diante do que é proferido e vociferado pelos candidatos à vaga. 

O enquadramento do espectador entre quatro paredes é inevitável no âmbito de “Precisa-se de Velhos Palhaços”, com a consequente dissociação das verdades sobre o que é ser humano em um mundo obscuro e sem a menor graça.


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