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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

“Luces, la Revolución” - Teatro Ciego / Buenos Aires


Projeto cenográfico, desenho de luz, figurino e visagismo são técnicas teatrais dispensáveis

Buenos Aires, 1810 – palco de uma série de acontecimentos reconhecida como “A Revolução de Maio” – argumento do espetáculo sensorial “Luces, la Revolución” de autoria do ator cordobés que exerceu a economia como hobby - Martín Bondone – em cartaz no “Teatro Ciego” em Buenos Aires.

Sob a ousada direção de Gerardo Bentatti, a encenação que se passa em total escuridão no interior da sala de espetáculos, conta a história do romance entre um aristocrata e uma escrava, em meio ao sofrimento durante os anos de luta pela independência argentina.

Minutos que antecedem o início do espetáculo, no foyer da sede do “Teatro Ciego”, sob uma tênue difusão lumínica, os espectadores são orientados a se agruparem em filas, a partir de quando são conduzidos à sala de espetáculos pelas mãos de um guia, sob total ausência de luz, e auxiliados, individualmente, a tomar seus assentos. Dá-se início a uma experiência inusitada de uma plateia composta, em sua esmagadora e provável maioria, por pessoas dotadas do sentido da visão, através da qual são temporariamente privadas da percepção visual. Vale ressaltar que os espetáculos do “Teatro Ciego” não são produzidos para pessoas cegas – o que não as exclui como espectadores. Mas tem como objetivo maior, a inclusão de pessoas não deficientes visuais no desenvolvimento, mesmo que por um curto espaço de tempo, do potencial dos demais sentidos, cuja habilidade é naturalmente incrementada pelos invisuais.

Uma diversidade tipológica de sons de alta qualidade, juntamente com as falas dos atores e a trilha sonora de Lucas, criteriosamente distribuída na sala, definindo a percepção de tridimensionalidade, é aliada a fragrâncias que surpreendem cada um dos espectadores, como se cada estímulo aos demais sentidos ainda atuantes, atue como uma dádiva que, involuntariamente, é capaz de induzi-lo a estampar um sorriso na face. O calor emanado pela proximidade dos atores, a sensação ao eventual toque entre estes e espectadores pela simples passagem do elenco, tangenciando os presentes à plateia que se encontram no fluxo das marcações de cena, contrastam com o frescor do vento e de gotículas de água aspergida indiscriminada e aleatoriamente – em meio a um elenco composto por Gerardo Bentatti, Mario Colussi, Pablo Delgado, Sabrina Heisecke, Marta Traina, Sandra Ferraro, Miguel Pardo e Darío Tripicchio – em meio a uma equipe de setenta pessoas dentre as quais, 40% são acometidas por cegueira ou baixo índice de visão.

Projeto cenográfico, desenho de luz, figurino e visagismo são técnicas teatrais dispensáveis em “Luces, la Revolución” – como em todos os demais espetáculos da companhia. Porém, a capacidade de estímulo dos demais sentidos é mais do que suficiente para levar plateias sequenciais a uma viagem pela imaginação individual e intransferível de cada um dos espectadores que, ao final de cada apresentação, apesar da penumbra concedida, suficiente para deixarem a sala de espetáculos, demonstram necessidade de serem guiados, com a mesma segurança de quando entraram, até a porta de saída.      


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