Counter

sábado, 16 de setembro de 2017

“Cenizas en las manos” / Teatro Payro - Buenos Aires


Personagens perturbados e torturados por uma angustiante ausência de vida

Névoa, luz difusa e sombra definem os limites da boca de cena. No palco, personagens perturbados e torturados por uma angustiante ausência de vida que, por um capricho e uma zelosa composição cênica se integram ao cenário assinado por Magali De Milo, Paula Nieves Tello e Adriana Ovelar. O conjunto da obra remete todos os espectadores a uma terra estéril, devastada e coberta de lixo, por onde caminham as solidificadas sobras daquilo que um dia nasceram como seres humanos.

A história se desenrola em um país devastado pela guerra, onde dois supostos coveiros cumprem o seu ofício de desaparecerem com cadáveres, queimando os mortos de guerra. Uma mulher sobrevive ao massacre. Esses homens a aceitam, mas com a condição de ajudá-los com a tarefa do crematório. Mas ela não fala com eles, ela só aborda os mortos.

Os explorados, esquecidos e rejeitados são interpretados, densamente, imbuídos de intensa força dramatúrgica por Enry Melinao, Julio Pallero e Sofia Vilaro que, introduzidos no figurino de Adriana Ovelar, consagram a vida como uma inútil e miserável existência, segundo as aparências das estranhas criaturas de autoria de Laurent Gaudé. A tradução de Jaime Arrambide centrifuga o texto de Gaudé a ponto de transformar angústia em lirismo, cromatizado, de forma dramática, pelo mágico desenho luz concebido por Rafael Albizúa e Adriana Ovelar. O espetáculo “Cenizas en las manos” é desolador, ao colocar os mortos como as únicas formas de contato com os vivos, como um lampejo de luz em um ambiente cercado pelo horror.


Nenhum comentário:

Postar um comentário