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domingo, 17 de setembro de 2017

Tom na Fazenda


A química composta por tensão e angústia

Tom, um jovem publicitário, desolado com a morte de seu companheiro, viaja ao campo para o seu funeral. Ao chegar na fazenda da família do falecido, Tom constata a ignorância de todos sobre a sua existência e sobre a orientação sexual do morto – com exceção de seu irmão mais velho que, além de fazer de tudo para esconder a verdade de sua mãe, possui um histórico preocupante sobre uso de violência extrema contra um rapaz da cidade onde vive. Diante das circunstâncias, Tom se vê forçado, pelo irmão de seu falecido companheiro, a assumir um papel que não lhe pertence, diante daquela mãe, e a fazê-la acreditar na existência de uma sempre ausente namorada do morto que, por ela, passa a ser aguardada.

Texto original, de autoria do célebre dramaturgo contemporâneo canadense - Michel Marc Bouchard, tem sua tradução assinada por Armando Babaioff, que acumula a protagonização do espetáculo teatral “Tom na Fazenda”.

A panorâmica direção de Rodrigo Portella estabelece um distanciamento emotivo, mesmo ao aproximar o espectador da tragédia anunciada e costura, com perfeição, as cenas, a partir da impactante concepção sonora de Marcello Henrique. O projeto cenográfico, por Aurora Dos Campos, floresce, em angústia crescente, diante do espectador, que não encontra a possibilidade de fuga em meio ao barro hidratado e à claustrofóbica patologia do protagonista que o prende àquela dimensão rural, contida pelo breu infinito, como se não houvesse caminho de volta – artifício fomentado pelo estratégico e mágico desenho de luz de Tomás Ribas, que cromatiza, em meio a uma paleta de cores definida pela lama, cada lampejo de hipocrisia que se manifesta na tentativa de se estabelecer verdades através de mentiras. A objetividade dramatúrgica emanada pelo elenco, complementado por Kelzy Ecard, Camila Nhary e Gustavo Vaz, destaca-se pela valorização da força de seus personagens, que impede o menor desvio de atenção por parte do espectador. A química composta por tensão e angústia, destilada ao longo do espetáculo, define a essência dos personagens que sustentam o imperante figurino de Bruno Perlatto que, como se em um thriller de terror psicológico, brilha pela estranheza.

O organicismo presente em “Tom na Fazenda” põe o dedo na ferida exposta pela artificialidade do universo hetero – sobretudo, no quesito aceitação do amor, das verdades e das mentiras – em especial, naquela fazenda, onde se escondem os mais perturbadores segredos.


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