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domingo, 29 de outubro de 2017

O Formidável


Ingênuo, hipócrita e ultrapassado, mas sempre genial

A “Nouvelle Vague” – movimento do cinema francês que influenciou a sétima arte no mundo todo na década de 1960 – teve como seu exponente o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, marcado pela sua polêmica produção cinematográfica vanguardista, flexionada nos impasses e indefinições que marcaram o século XX.

Assumindo aquele molde, o longa-metragem “O Formidável” retrata o militante anarquista de centrismo, sob a notável direção Michel Hazanavicius, dando liga à biografia amorosa do cineasta, a partir do seu envolvimento amoroso com Anne Wiazemsky – uma jovem atriz, vinte anos mais nova que o protagonista – quando da  produção de “A Chinesa”, estrelado por Wiazemsky, por sua vez, vivida por Stacy Martin. Hazanavicius projeta na tela a perspectiva da jovem Anne que desmascara o íntimo do homem Godard, expondo a eclosão de comportamentos latentes, tais como crueldade, egoísmo e prepotência, que impregnaram o relacionamento com fragilidade e desprezo – mas sem afetar o mito vivo. Louis Garrel digere a direção de Hazanavicius e esmiúça Godard com sua interpretação potencializada diante da fama que atropela o controverso cineasta.

A desmistificação do complexo mito e o processo de desilusão do cinema defendido por Godard, com requintes de arrogância, fazem de “O Formidável”, um grande divisor de águas onde o cinema pode ser definido como arte de entretenimento ou diversão segundo formato político – ingênuo, hipócrita e ultrapassado, mas sempre genial.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Agosto


Humor perverso, personagens obscuros, relações inimagináveis e acidez comportamental acentuada

A assembleia de uma família disfuncional na casa da matriarca – após a morte do cônjuge, em pleno verão no meio oeste americano – dá a tônica ao espetáculo “Agosto” com o cortante texto assinado por Tracy Letts e traduzido por Guilherme Siman, que expõe, em doses homeopáticas, os podres daquele núcleo psicótico. André Paes Leme assina a direção e a adaptação de forma ritmada e sustenta a narrativa, surpreendentemente, com requintes hipnóticos sobre a plateia durante os cento e vinte minutos de espetáculo. Paulatinamente, segredos reservados por anos vêm, suavemente, à tona, alimentando a capacidade de interpretação e permitindo a captura individual dos momentos da trama pelo elenco composto por: Guida Vianna (Violet Weston), Letícia Isnard (Barbara Fordhan), Alexandre Dantas (Steve Heidebrecht), Claudia Ventura (Karen Weston), Claudio Mendes (Charlie Aiken), Eliane Costa (Mattie Fae Aiken), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly Weston/Bill Fordham), Julia Schaeffer (Johnna Monevata), Lorena Comparato (Jean Fordham) e Marianna Mac Niven (Ivy Weston). A diversidade de cenas e respectivos cômodos é materializada pela concepção cenográfica de Carlos Alberto Nunes – como se em uma instalação artística digna de uma mostra de arte – que aposta no imaginário do espectador, ao mesmo tempo que Renato Machado amplia o campo de visão com o seu desenho de luz que desafia a acuidade visual dos espectadores – ora com mínima sugestão de emissão lumínica, ora com o ofuscamento tão doloroso quanto as revelações impactantes em pleno seio familiar. O figurino enxuto de Patrícia Muniz evidencia o luto sem cair na tristeza intensa da situação.

O aprofundamento da história otimiza o drama contido em “Agosto” com humor perverso, personagens obscuros, relações inimagináveis e acidez comportamental acentuada a partir do momento que a plateia passa a identificar núcleos familiares e situações similares, muito presentes em suas vidas.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok


Longa passível de reconhecimento por parte dos cinéfilos amantes das histórias em quadrinhos publicadas pela
Marvel Comics

O terceiro filme da franquia do Rei do Trovão (Chris Hemsworth) intitulado “Thor: Ragnarok” se esforça para acertar a mão, tendo como paradigma diante as duas produções que o antecedem.

Em “Ragnarok”, o filho de Odin (Anthony Hopkins) corre contra o tempo para evitar a destruição da raça Asgardiana por sua irmã Hela (Cate Blanchett) – a deusa da morte. Em meio à ameaça fatal que paira sobre Asgard, as injeções de doses de humor em meio a cenas de conteúdo notável soam como subterfúgio para o não aprofundamento no conteúdo em potencial da história. A defensiva direção de Taika Waititi tende a explorar, ao máximo, o universo Marvel sem medo de rebaixar como coadjuvantes Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch); Hulk (Mark Ruffalo) e Korg - personagem do Planeta Hulk.

A interatividade de uma forte e intimidante vilã, de Thor, de Hulk e do essencial Loki (Tom Hiddleston), em meio a cenas de ação na dose certa, ao som de uma trilha sonora que contempla Immigrant Song (Led Zepelin) garantem momentos de adrenalina e de diversão ao longa passível de reconhecimento por parte dos cinéfilos amantes das histórias em quadrinhos publicadas pela Marvel Comics.


sábado, 21 de outubro de 2017

Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba


Revela ao público o lado humano do artista, com toda a irreverência peculiar ao, simplesmente, Jessé

“Pagodinho... Puxa-saco, cheio de pulga, canta porra nenhuma!” Dessa forma, o despojamento, a simplicidade e a capacidade de se doar ao próximo permite que Jessé Gomes da Silva Filho acate ser carinhosamente, ‘reverenciado’ por Baixinho – o caseiro do sítio em Xerém – figura marcante na vida da família do protagonista que profere esse bordão ao longo do espetáculo “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” – textualizado, roteirizado musicalmente e notavelmente dirigido pelo consagrado ator, diretor, produtor e professor Gustavo Gasparani.

A despeito do fato de Zeca figurar dentre os grandes nomes do samba e do pagode, com mais de vinte álbuns gravados, e cuja carreira teve os primeiros passos trilhados nas rodas de samba dos subúrbios do Rio de Janeiro, a obra de Gasparani revela ao público o lado humano do artista, com toda a irreverência peculiar ao, simplesmente, Jessé. Durante os cento e vinte minutos de espetáculo, dividido em dois atos, quarenta e cinco sucessos fazem parte da cronologia dos quadros que compõem o musical, através dos quais, o nascimento, a infância, a adolescência, a malandragem, o subúrbio, as vielas, os becos, a família, os amigos e a devoção contam a história da sua despretensiosa maturação como poeta rumo ao sucesso.

A edificante direção musical e arranjos de João Callado define com exatidão a ascensão de Jessé, mixando a sua história de vida com a de seus principais sucessos, conjuntamente com a coreografia assinada por Renato Vieira marcada pela aparente simplicidade do jeito malandro de ser, com muito swing. O encontro do artista com a fama e com a popularidade que o consagra é estilizado pela rica cenografia assinada por Gringo Cardia que dimensiona cada quadro descortinando e ilustrando a batalha travada entre as duas existências que residem num único ser – o da ficção e o da realidade; ora a partir de vídeos, ora a partir de áudios em playback. O despojamento, a leveza e a policromia do figurino de Marcelo Olinto transmite alegria e humor das crianças que os adultos carregam dentro de si por toda a vida. Potencializando todos os recursos cênicos disponíveis, Paulo Cesar Medeiros pincela a trajetória de Zeca quase como uma fábula escrita por linhas tortas e ilumina a cultura suburbana no mundo em que foi criado, através de seu desenho de luz. Qualidade indispensável ao elenco, o carisma é estampado na face, no gestual e nas falas de Ana Velloso, Beatriz Rabello, Bruno Quixotte, Douglas Vergueiro, Édio Nunes, Flavia Santana, Lu Vieira, Milton Filho, Psé Diminuta, Ricardo Souzedo e Wladimir Pinheiro que alicerçam o papel do menino que tem que lidar com a fama – desempenhado pelo corpo e pela alma  de Peter Brandão – e do adulto que tem a cara do povo brasileiro e que clama por deixar a vida levá-lo – apaixonadamente desenhado por Gustavo Gasparani. O ilustre grupo musical conduzido pela regência de João Callado e estrelado por Glauber Seixas, Lucas Brito, Naná Simões e Rodrigo Jesus, apesar de sua presença ser metamorfoseada pelo cenário de Cardia e atenuada pela iluminação de Medeiros, impõe com precisão a sua cadência rítmica com total endosso à autenticidade da obra do ícone do pagode e do samba.

Gasparani disseca, na dose certa, o ídolo representante da cultura suburbana ganhador de vários Grammys, e insere, em meio aos musicais tributos às celebridades artísticas brasileiras, “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” de forma singela, mas a tal ponto de emocionar toda a sua legião de fãs.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Tempestade: Planeta em Fúria


Déjà-vu

Em um futuro próximo, enquanto as condições climatológicas da Terra são controladas por uma rede de satélites que envolve o planeta, cognominado “Dutch Boy", falhas no sistema provocam sérios desiquilíbrios climáticos e ameaçam o mundo com uma tempestade desproporcional. A partir desse fato, dá-se início a uma corrida espacial com vistas à manutenção da integridade do planeta – linhas gerais do enredo do longa-catástrofe de Dean Devlin, também responsável pelo roteiro clichê de “Tempestade: Planeta em Fúria”. Elencado por atores de peso como: Jim Sturgess, Daniel Wu, Ed Harris, Andy Garcia e Gerard Butler, o filme não consegue aplacar o gosto de decepção do espectador diante das cenas insípidas, do texto sem conteúdo, dos personagens sem carisma, do vácuo no qual os efeitos especiais deixam as expectativas dos cinéfilos e da falta de consistência do antagonismo da trama principal. Um déjà-vu sem surpresas que se digna a inserir mais um ator na figura do presidente dos Estados Unidos da América, empunhando a bandeira da vitória do orgulho americano.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Entre Irmãs


Formatação dentro dos moldes de um épico

Através de uma ambiciosa direção, Breno Silveira transforma a adaptação do livro “A Costureira e o Cangaceiro”, de Frances de Pontes Peebles, em uma saga cinematográfica com exatos cento e sessenta minutos de duração, intitulada “Entre Irmãs” – protagonizada por Marjorie Estiano e Nanda Costa, que dão vida à delicada e sonhadora Emilia e à forte Luzia, respectivamente. No agreste pernambucano dos anos 1930, as irmãs aprendem, desde cedo, o ofício da tia - a costura. Mas o destino, por sua vez, lhes tece caminhos inesperadamente opostos - Luzia se integra a temíveis cangaceiros e passa a viver com o bando, no sertão, enquanto, Emília encontra, no casamento, a sua passagem para a tão sonhada vida na capital.

A força contida no filme “Entre Irmãs”, muito se dá pela coesão dos personagens elencados por Julio Machado, Rômulo Estrela e Letícia Colin, que fazem com que a emoção não se perca na dramaticidade conflitante do conjunto da obra, que tem como proposta a sua formatação dentro dos moldes de um épico.


sábado, 14 de outubro de 2017

O Rio não é Hollywood


Simbólica realidade de quem busca apenas viver da arte

O otimizado ponto de partida do espetáculo “O Rio Não é Hollywood” – o conceitual estado de felicidade almejado por todos, tendo como objetivo, a valorização das atividades humanas.

Bruna Fachetti é autora, produtora e atriz do monólogo, que não se contenta em apenas estabelecer uma sinergia entre personagem e espectador, mas expõe o desejo de uma mulher que sonha com sua performance como atriz nos palcos cariocas. Para isso, deixa sua terra natal – Blumenau - SC, sua família, seus amigos e a sensação de segurança que seu mundo lhe proporcionava – tudo por amor pelo ofício da arte do teatro.

A expressão da busca por momentos felizes é dirigida, de maneira motivadora, por Mauro Eduardo, que transforma a caminhada traçada por Fachetti em uma simbólica realidade de quem busca apenas viver da arte, complementada pela sensível direção de movimento de Clarice Silva e Paulo Denizot, que estende a ideia afirmada pela protagonista, sem criar estereótipo ou caricatura de alguém que deseja, a qualquer custo, o seu quinhão de felicidade momentânea. A sensibilidade natural do espetáculo é também delimitada pela direção musical de Marlon Yuri – elemento humano integrante do cenário, dedilhando um violão – que evidencia a meta desejada da personagem, focada em seu sonho – do Rio de Janeiro a Hollywood, embalada pela trilha sonora, também assinada por Mauro Eduardo, que atua como um alívio para a personagem em seus momentos de decepção. O dramático desenho de luz de Paulo Denizot enfatiza os momentos de sobrevivência da heroína, através de suas expressões faciais enquanto alegre, surpresa, empolgada, triste, deslumbrada, envergonhada... Fachetti assume o figurino de E. Antoine que define a razão do impulso dos sentidos expressados pela aparente ingenuidade e inocência da personagem de Fachetti.

A moral da história da ainda quase embrionária vida artística da protagonista brasileira, visando ao alcance da felicidade crônica na Cidade que ainda carrega o título de Maravilhosa, delega a aquele sentimento, a dependência de questões e resoluções conjuntas que estão fora do alcance de nossas mãos, demandando a necessária persistência na busca dos sonhos, mesmo nos momentos improváveis de sejam realizados – afinal, “O Rio não é Hollywood”.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

“Branche” - Hotel Tulip Inn / Restaurant Week

    foto:msenna

Um conceito informal praiano que agrega conforto, bom atendimento e qualidade gastronômica

Com acesso direto por uma das mais emblemáticas vias urbanas da cidade do Rio de Janeiro – a avenida Atlântica, que margeia a praia de Copacabana – o restaurante, bar e lounge “Branche”, anexo ao Hotel Tulip Inn, apresenta um conceito informal praiano que agrega conforto, bom atendimento e qualidade gastronômica, integrando bar, salão principal interno e varanda ao ar livre com vista para a praia.

O “Branche” faz parte do rol dos restaurantes da atual 17ª temporada do Restaurant Week 2017 Rio de Janeiro – evento que acontece até o dia 20 de outubro, sob o tema “Temperos de Quintal”, visando ao incentivo dos pequenos produtores locais e da agricultura brasileira com produção familiar. No dia 11 de outubro, A Deguste – Circuito Geral comparece ao “Branche” para degustação do cardápio especial, oferecido exclusivamente para o almoço, composto das seguintes opções – entrada: Shot de Salada Asiática, composta por Mix de Folhas Nobres, tiras de Manga, Morango, Gengibre e redução de Balsâmico; e Berinjela Assada e Tostada recheada com Queijos Diversos acompanhada de Salada de Rúcula e Tomate Cereja – prato principal: Filet de Peixe, com opção de dois tipos de pescado: Dourado e Rosado, selado no azeite e acompanhado por Batatas Hasselback e Legumes Saltados com Ervas Finas; e Carne Rôti, lentamente assada ao molho de limão siciliano, acompanhada por Arroz de Lula – e sobremesa: Torta com Biscuit de Castanha e recheio de Creme de Café com Amendoim Crocante, opção intitulada “Opera de Café”; e Profiterole recheado com Mousse de Chocolate e Caramelo de Coco. Completando a atmosfera lounge proposta pela casa, naquele momento, o som ambiente fica por conta de Cantoma feat. Pathaan e Jestofunk.

Ideologicamente, o “Branche” oferece uma experiência gastronômica que transcende uma simples percepção sensorial, através da qual o visual, a fragrância, a textura e o sabor de sua cozinha são alguns dos elementos potencializados pelo Chef Executivo Alex Barcelos, que utiliza somente alimentos orgânicos, temperos cem por cento naturais e baixo teor de sódio no preparo de seus pratos.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião


Remete o espectador ao contexto histórico de uma passagem, na qual o racismo e o preconceito, lamentavelmente, percorrem um caminho paralelo à atualidade

Uma operação policial sem planejamento dá origem a uma rebelião civil e fomenta uma devastadora revolta popular que toma conta da cidade de Detroit ao longo de cinco dias, no ano de 1967. O saldo daquela batalha campal registra nada menos que 43 mortos, 340 feridos, além de sete mil prédios queimados. Baseada em fatos reais, “Detroit em Rebelião”, sob a focada direção de Kathryn Bigelow, remete o espectador ao contexto histórico de uma passagem, na qual o racismo e o preconceito, lamentavelmente, percorrem um caminho paralelo à atualidade. Mark Boal roteiriza a produção de forma sucinta e confere à trama uma veracidade incômoda, potencializada pelo fantástico elenco composto por John Boyega, Algee Smith e Will Poulter que cede a sua impressionante capacidade de interpretação ao seu policial fascista, explorando os sentimentos antagonistas do amor, potencialmente adormecido no âmago do espectador.

A historicidade de “Detroit em Rebelião” é tensa e aflitiva, com um sequencial de imprudência que norteia brancos e negros na trama – nada do que uma brincadeira macabra em meio a uma rebelião que deflagra um jogo mortal, com a capacidade de resgate da responsável consciência social no mundo.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Imagina


Preciosos oitenta minutos de humor e diversão

O melhor mágico do Rio de Janeiro pelo Prêmio Sated em 1998 – classificado em segundo lugar no Festival Português de Ilusionismo em 2003; Top 10 no Festival de Mágicas na Suécia em 2006; campeão na Espanha e na França no Festival Europeu de Ilusionismo em 2007 e 2008; indicado por duas vezes ao Prêmio de Melhor Mágico de Palco pela Academia Americana de Artes Mágicas no Estados Unidos, em 2009 e 2011 – créditos ao ilusionista Andrély, em curtíssima temporada no Teatro Fashion Mall Rio de Janeiro, apresentando o show “Imagina”.

A partir de total interatividade junto ao espectador, adultos e crianças são levados ao palco aleatoriamente durante o espetáculo ilusionista que já percorreu diversos países porém, apresentando números inéditos no Brasil. A literalmente mágica e criativa direção de Andrély reserva ao público preciosos oitenta minutos de humor e diversão, diferenciando-se pela apresentação de números sob os olhares hipnotizados da plateia. O cenário de Wallace Corrêa não poderia ter sido mais adequado, contemplando a performance teatral de Andrély diante de um fundo infinito estrelado.

A grandiosa e generosa simplicidade contida no show “Imagina” não lança mão de pombas saindo de lenços tampouco de coelhos saindo de cartolas, mas manipula a percepção dos espectadores, despertando o potencial do sorriso e da emoção, latente em cada um dos presentes na plateia.


sábado, 7 de outubro de 2017

Ghost – O Musical


Flerta com os temas universais como amor, traição, inveja, ciúmes e superação fazendo com que os essenciais efeitos especiais passem a ser meros coadjuvantes da dinâmica interna dos diálogos e da força que move os personagens

Um homem e uma mulher apaixonados, ao voltarem para casa após uma sessão de teatro, são vítimas de uma tentativa de assalto. O homem reage, dá início a um embate corporal com o assaltante e é atingido por um tiro fatal.  De imediato, sua alma se desliga do corpo físico e, mesmo após tomar ciência de que não mais pertence a este plano, renitente, permanece junto à sua amada – momentos iniciais e combustível para o desenrolar do roteiro de “Ghost – O Musical”.

O homem é Sam Wheat, docemente interpretado pelo ator André Loddi; a mulher, é Molly Jensen, motivação da atriz Giulia Nadruz. Juntos, o casal emociona os espectadores em uma empreitada de cento e cinquenta minutos de duração da produção que leva para os palcos o clássico filme de 1990, “Ghost – Do Outro Lado da Vida”.

O singelo toque de espiritualidade encrustada na história não tem cunho religioso tampouco apela para crenças de qualquer sorte, definindo o texto de Bruce Joel Rubin como focado somente na força do amor entre duas pessoas. Contrapondo, o mal se faz presente na pele do assassino de Sam, Willie Lopez – “possuído” pelo ator Philipe Azevedo, enquanto que, a personificação da ambição fica por conta do amigo do casal e colega de trabalho de Sam, Carl Bruner – surpreendentemente bem conduzido por Igor Miranda. A esperança no ser humano é fidelizada pela caricata Ludmillah Anjos a partir da sua “Incorporação” no papel de Oda Mae Brown – uma charlatã que se passa como vidente para ganhar seu sustento, mas que, de fato possui aptidões mediúnicas que a capacitam ser a única pessoa com quem Sam descobre conseguir se comunicar em sua nova dimensão. Apesar das canções serem cantadas segundo suas versões em português por Ricardo Marques, a produção mantém a clássica música “Unchained Melody” de Hy Zaret e Alex North imortalizada pela dupla “The Righteous Brothers”, em sua versão original.

A híbrida direção de José Possi Neto flerta com os temas universais como amor, traição, inveja, ciúmes e superação fazendo com que os essenciais efeitos especiais passem a ser meros coadjuvantes da dinâmica interna dos diálogos e da força que move os personagens. A cenografia tecnológica de Renato Theobaldo é intensa e fluida com paredes gigantes de LEDs que colabora na construção do entendimento da história, mas que não surpreende, apesar de sua complexidade. O figurino funcional de Miko Hashimoto caracteriza e marca os personagens projetando-os nas cenas musicais. O substancial visagismo de Simone Momo apresenta variações de estilos e injeta vida no básico. O ritmado desenho de som de Gabriel D’Ângelo desintegra o lugar e o tempo que a história se passa acompanhando a imersão do desenho de luz de Paul Miller que coloca magia nos altos e baixos da narrativa da história. O transitório desenho de projeção e vídeo de Zachary Borovay enfatiza a proposta quase cinematográfica nas projeções.

Ao retratar o amor, a fé e a esperança “Ghost – O Musical” soa como clichê. Mas em um mundo contemporâneo onde as relações se limitam, cada vez mais, às redes sociais, o roteiro de Bruce Joel Rubin acena para a única certeza proferida pelo protagonista quando de sua apoteótica saída de cena, ao final do espetáculo – “o amor verdadeiro, levamos conosco”.


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049


O aprofundamento sobre o que nos torna diferentes das máquinas

Uma corajosa empreitada do cineasta Denis Villeneuve – dar continuidade a uma obra divisor de águas, idealizada por Ridley Scott em 1982. “Blade Runner 2049” é lançado em 2017 com surpreendente êxito ao replicar o brilho de “Blade Runner, O Caçador de Androides”. Villenuve consegue a façanha de capacitar e remixar os principais elementos que tornam a atual produção impecável – em um momento em que alguns reboots e sequencias contam com a falta de exigência intelectual do público – permitindo a entrada dos cinéfilos, amantes do clássico, na impecável atmosfera dos personagens e compreender a filosofia de seus enigmas.

Décadas após 2019, o mercado de androides é alimentado por uma profusão de replicantes muito mais avançados do que os produzidos pela falida Corporação Tyrell que, por sua vez, tem o seu espólio adquirido pela empresa de propriedade de Niander Wallace (Jared Leto), que crê no fim da raça humana e decreta que o futuro pertence aos seres criados pela bioengenharia. Em um outro cenário, os antigos modelos passam a ser uma ameaça à sociedade e são perseguidos por caçadores de recompensa afiliados à polícia, como K (Ryan Gosling) que, em umas de suas caçadas, “aposenta” uma unidade ultrapassada e se envolve em um mistério com potencial para dar início a uma grande revolução.

A ampliação do universo existencial de Scott – produtor executivo da atual obra dirigida por Villeneuve – muito se deve aos roteiristas Michael Green e Hampton Fancher que, com precisão conecta a essência das duas produções, respeitando a individualidade de cada uma e, ao mesmo tempo, exercendo a capacidade de fusão de ambas as obras em nome de um clássico que completa trinta e cinco anos de existência.

Reside, em “Blade Runner 2049”, o aprofundamento sobre o que nos torna diferentes das máquinas – memórias, sentimentos, sacrifícios, fragilidades, capacidade de perpetuação da espécie e capacidade de renovação ao longo da vida.


Churchill


Aposta na fragilidade de um já idoso e teimoso ser humano

O filme que ganha o nome do homem considerado por muitos, como uma das mais importantes figuras políticas britânicas, conta com a contaminante direção de Jonathan Teplitzky, impregnada por uma atmosfera depressiva, que relata sobre os quatro dias que antecedem o ataque à Normandia – também conhecido como “Operação Overlord”. “Churchill” projeta nas telas de cinema um homem atormentado pelos horrores da Primeira Guerra Mundial – episódio do qual tomou a frente em 1915 e que foi responsável por considerável baixa no exército britânico. As crises depressivas e nervosas do personagem são muito bem asseguradas por Brian Cox que dispensa a imagem bélica de Churchill e aposta na fragilidade de um já idoso e teimoso ser humano.

A falta de conhecimento prévio sobre a biografia de Winston Churchill pode dificultar a assimilação da história e dar margem a uma falsa impressão de que o roteiro gira em torno dos sintomas causados pela senilidade em um homem de idade avançada, posto de lado para não ser abandonado em um asilo.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Bistrô do Fellini


Um espaço lounge gastronômico, onde a simplicidade presente na combinação de cores, texturas e de sabores proporciona uma experiência gastronômica ímpar


O tradicional restaurante “Fellini”, localizado no Leblon há vinte anos, desde o mês de abril de 2017, abre, em seu segundo piso, o “Bistrô do Fellini”, com opções à la carte. A atmosfera da sala de refeições sob um desenho de luz intimista e segmentada em acolhedores recantos definidos pelo estratégico leiaute das mesas, é ambientada por objetos de arte, fotografias e composições alusivas às obras de um dos mais importantes cineastas italianos – Frederico Fellini, em especial, desenhos de autoria do também cartunista, criados durante a elaboração dos roteiros de seus filmes.

No dia 29 de setembro, a Deguste – Circuito Geral comparece ao “Bistrô do Fellini” para degustação do cardápio especial – sob a supervisão da nutricionista e sócia da casa, Ana Maria Fichtner – elaborado exclusivamente para a 17ª edição do Restaurant Week 2017 Rio de Janeiro, sob  o tema “Temperos do Quintal”, visando ao incentivo dos pequenos produtores locais e da agricultura brasileira com produção familiar. Para o evento gastronômico, o Bistrô apresenta as seguintes opções – entrada: Salmão Gravlax com Saladinha Verde; e Bolinhos de Bacalhau – prato principal: Filé de Pescada Amarela em Suave Crostra Aromática com Mousseline de Banana-da-Terra e Arroz de Coco; e Medalhões de Mignon com Batata da Casa – e sobremesa: Mousse de Chocolate com raspas de Laranja; e Pudim Abade de Prisco.

Harmonizando a degustação do cardápio naquela noite, a trilha sonora por Angus & Julia Stone e Minus 8 transforma o “Bistrô do Fellini” em um espaço lounge gastronômico, onde a simplicidade presente na combinação de cores, texturas e de sabores proporciona uma experiência gastronômica ímpar.



domingo, 1 de outubro de 2017

A Festa de Aniversário


Uma perturbadora história cujo contexto é esclarecido de forma pouco amigável


Obscuridade, medo, claustrofobia, omissão, asilo, alienação, traição, perseguição, histrionismo, tortura física e psicológica, sob o foco da irracionalidade, são os mais evidentes alicerces que edificam os oitenta minutos de encenação do texto de Harold Pinter – “A Festa de Aniversário”.

Como se em um observatório privilegiado, o espectador assiste a uma perturbadora história cujo contexto é esclarecido de forma pouco amigável. No palco, um cenário reproduz uma pensão, sem qualquer indício de vista para o exterior, mas somente um acesso por onde – ao ofuscar de um facho luminoso que se manifesta vez em quando, transformando-o em um portal entre dimensões desconexas – transita o elenco sob o transe da submersão na psiquê de cada um dos personagens:  Stanley (Alexandre Galindo) um pianista, primeiro e único hóspede naquela pensão gerida por Meg (Andrea Dantas) e por Petey (Marcos Ácher). A encenação se passa no dia em que Meg anuncia se tratar da data do aniversário de Stanley. Naquele mesmo dia, a pensão recebe a visita de dois novos hóspedes –  Goldberg (Rogério Freitas) e McCann (Guilherme Melca) – personagens que levam o pianista ao pânico e que, surpreendentemente, fomentam a comemoração do aniversário do protagonista junto à dona da pensão. O espectador é induzido a acreditar que Stanley, McCann e Goldberg já se conheciam por conta do envolvimento dos três homens em algum tipo de instituição, à qual Stanley estaria em débito por suposta deslealdade e que, os outros dois teriam assumido o compromisso de busca, de tortura e de morte do protagonista. O terror ganha terreno com a presença de Lulu (Raíza Puget), que externa a jovem e engraçadinha vizinha do estranho e frustrado casal – Meg e Petey.

A desconfortável narrativa atinge a sua excelência teatral diante da sinistra direção de Gustavo Paso – sempre marcada pela exploração de temas nos quais tabu e polêmica são matéria prima que estimulam o seu faro em busca de qualidade dramatúrgica – que sinaliza, a cada instante daquele dia de festa, a iminência de uma tragédia.

A territorialidade hermética fragmentada pelo projeto cenográfico de Paso é traduzida através de um leiaute e de peças de mobiliário adequados ao modesto ambiente doméstico com anseios comerciais cuja meta tem se mostrada longe de ser atingida. A fragilidade e a hipersensibilidade contidas no texto de Pinter amplificam-se diante do figurino e dos adereços de Luciana Fávero que, em conjunto com a exponencial e nebulosa iluminação de Bernardo Lorga – eminentemente composta pelas cores primárias que, vez ou outra, se fundem em secundárias – impõem-se como elementos a serem contemplados pela plateia, a ponto de destituir a atmosfera densa provocada pela estranheza dos personagens. A ritmada trilha sonora das frenéticas cenas de diálogos violentos é impulsionada pelo pianista André Poyart, estrategicamente posicionado, como em um mezanino, no contexto das incertezas explícitas frente às verdades inatingíveis no plano no rés-do-chão daquela pensão.


Com sua “A Festa de Aniversário”, Pinter assume que veio para confundir e não para explicar, definindo uma vertente psicodélica através da observação de ocorrências em meio a alucinações psíquicas, semelhantes àquelas causadas pelas drogas – efeito esse que toma a razão do espectador desde a sua compreensão quanto ao factoide que proclama ser aquele o dia do nascimento do protagonista e, até mesmo, o seu destino final, assegurando a atmosfera de insegurança, de indefinição e de distanciamento daquele manicômio conhecido como um lar ou apenas como um abrigo.