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domingo, 1 de outubro de 2017

A Festa de Aniversário


Uma perturbadora história cujo contexto é esclarecido de forma pouco amigável


Obscuridade, medo, claustrofobia, omissão, asilo, alienação, traição, perseguição, histrionismo, tortura física e psicológica, sob o foco da irracionalidade, são os mais evidentes alicerces que edificam os oitenta minutos de encenação do texto de Harold Pinter – “A Festa de Aniversário”.

Como se em um observatório privilegiado, o espectador assiste a uma perturbadora história cujo contexto é esclarecido de forma pouco amigável. No palco, um cenário reproduz uma pensão, sem qualquer indício de vista para o exterior, mas somente um acesso por onde – ao ofuscar de um facho luminoso que se manifesta vez em quando, transformando-o em um portal entre dimensões desconexas – transita o elenco sob o transe da submersão na psiquê de cada um dos personagens:  Stanley (Alexandre Galindo) um pianista, primeiro e único hóspede naquela pensão gerida por Meg (Andrea Dantas) e por Petey (Marcos Ácher). A encenação se passa no dia em que Meg anuncia se tratar da data do aniversário de Stanley. Naquele mesmo dia, a pensão recebe a visita de dois novos hóspedes –  Goldberg (Rogério Freitas) e McCann (Guilherme Melca) – personagens que levam o pianista ao pânico e que, surpreendentemente, fomentam a comemoração do aniversário do protagonista junto à dona da pensão. O espectador é induzido a acreditar que Stanley, McCann e Goldberg já se conheciam por conta do envolvimento dos três homens em algum tipo de instituição, à qual Stanley estaria em débito por suposta deslealdade e que, os outros dois teriam assumido o compromisso de busca, de tortura e de morte do protagonista. O terror ganha terreno com a presença de Lulu (Raíza Puget), que externa a jovem e engraçadinha vizinha do estranho e frustrado casal – Meg e Petey.

A desconfortável narrativa atinge a sua excelência teatral diante da sinistra direção de Gustavo Paso – sempre marcada pela exploração de temas nos quais tabu e polêmica são matéria prima que estimulam o seu faro em busca de qualidade dramatúrgica – que sinaliza, a cada instante daquele dia de festa, a iminência de uma tragédia.

A territorialidade hermética fragmentada pelo projeto cenográfico de Paso é traduzida através de um leiaute e de peças de mobiliário adequados ao modesto ambiente doméstico com anseios comerciais cuja meta tem se mostrada longe de ser atingida. A fragilidade e a hipersensibilidade contidas no texto de Pinter amplificam-se diante do figurino e dos adereços de Luciana Fávero que, em conjunto com a exponencial e nebulosa iluminação de Bernardo Lorga – eminentemente composta pelas cores primárias que, vez ou outra, se fundem em secundárias – impõem-se como elementos a serem contemplados pela plateia, a ponto de destituir a atmosfera densa provocada pela estranheza dos personagens. A ritmada trilha sonora das frenéticas cenas de diálogos violentos é impulsionada pelo pianista André Poyart, estrategicamente posicionado, como em um mezanino, no contexto das incertezas explícitas frente às verdades inatingíveis no plano no rés-do-chão daquela pensão.


Com sua “A Festa de Aniversário”, Pinter assume que veio para confundir e não para explicar, definindo uma vertente psicodélica através da observação de ocorrências em meio a alucinações psíquicas, semelhantes àquelas causadas pelas drogas – efeito esse que toma a razão do espectador desde a sua compreensão quanto ao factoide que proclama ser aquele o dia do nascimento do protagonista e, até mesmo, o seu destino final, assegurando a atmosfera de insegurança, de indefinição e de distanciamento daquele manicômio conhecido como um lar ou apenas como um abrigo.


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