Counter

sábado, 21 de outubro de 2017

Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba


Revela ao público o lado humano do artista, com toda a irreverência peculiar ao, simplesmente, Jessé

“Pagodinho... Puxa-saco, cheio de pulga, canta porra nenhuma!” Dessa forma, o despojamento, a simplicidade e a capacidade de se doar ao próximo permite que Jessé Gomes da Silva Filho acate ser carinhosamente, ‘reverenciado’ por Baixinho – o caseiro do sítio em Xerém – figura marcante na vida da família do protagonista que profere esse bordão ao longo do espetáculo “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” – textualizado, roteirizado musicalmente e notavelmente dirigido pelo consagrado ator, diretor, produtor e professor Gustavo Gasparani.

A despeito do fato de Zeca figurar dentre os grandes nomes do samba e do pagode, com mais de vinte álbuns gravados, e cuja carreira teve os primeiros passos trilhados nas rodas de samba dos subúrbios do Rio de Janeiro, a obra de Gasparani revela ao público o lado humano do artista, com toda a irreverência peculiar ao, simplesmente, Jessé. Durante os cento e vinte minutos de espetáculo, dividido em dois atos, quarenta e cinco sucessos fazem parte da cronologia dos quadros que compõem o musical, através dos quais, o nascimento, a infância, a adolescência, a malandragem, o subúrbio, as vielas, os becos, a família, os amigos e a devoção contam a história da sua despretensiosa maturação como poeta rumo ao sucesso.

A edificante direção musical e arranjos de João Callado define com exatidão a ascensão de Jessé, mixando a sua história de vida com a de seus principais sucessos, conjuntamente com a coreografia assinada por Renato Vieira marcada pela aparente simplicidade do jeito malandro de ser, com muito swing. O encontro do artista com a fama e com a popularidade que o consagra é estilizado pela rica cenografia assinada por Gringo Cardia que dimensiona cada quadro descortinando e ilustrando a batalha travada entre as duas existências que residem num único ser – o da ficção e o da realidade; ora a partir de vídeos, ora a partir de áudios em playback. O despojamento, a leveza e a policromia do figurino de Marcelo Olinto transmite alegria e humor das crianças que os adultos carregam dentro de si por toda a vida. Potencializando todos os recursos cênicos disponíveis, Paulo Cesar Medeiros pincela a trajetória de Zeca quase como uma fábula escrita por linhas tortas e ilumina a cultura suburbana no mundo em que foi criado, através de seu desenho de luz. Qualidade indispensável ao elenco, o carisma é estampado na face, no gestual e nas falas de Ana Velloso, Beatriz Rabello, Bruno Quixotte, Douglas Vergueiro, Édio Nunes, Flavia Santana, Lu Vieira, Milton Filho, Psé Diminuta, Ricardo Souzedo e Wladimir Pinheiro que alicerçam o papel do menino que tem que lidar com a fama – desempenhado pelo corpo e pela alma  de Peter Brandão – e do adulto que tem a cara do povo brasileiro e que clama por deixar a vida levá-lo – apaixonadamente desenhado por Gustavo Gasparani. O ilustre grupo musical conduzido pela regência de João Callado e estrelado por Glauber Seixas, Lucas Brito, Naná Simões e Rodrigo Jesus, apesar de sua presença ser metamorfoseada pelo cenário de Cardia e atenuada pela iluminação de Medeiros, impõe com precisão a sua cadência rítmica com total endosso à autenticidade da obra do ícone do pagode e do samba.

Gasparani disseca, na dose certa, o ídolo representante da cultura suburbana ganhador de vários Grammys, e insere, em meio aos musicais tributos às celebridades artísticas brasileiras, “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba” de forma singela, mas a tal ponto de emocionar toda a sua legião de fãs.


Nenhum comentário:

Postar um comentário