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domingo, 19 de novembro de 2017

E o Mar já não Existe


Sob o manto da incerteza geográfica e histórico-temporal

Um espetáculo sob o manto da incerteza geográfica e histórico-temporal, livremente inspirado no livro "Um Homem: Klaus Klump" – de autoria do escritor e professor universitário português Gonçalo M. Tavares – "E o Mar já não Existe" expõe a violência e o caos institucionalizados pela subversão oculta à qual são expostas as protagonistas da história. A invulnerabilidade dos abusos machistas praticados por guerreiros que parecem respaldar as atrocidades cometidas em tempos, não só de guerra, sem qualquer expectativa de serem erradicadas. Os porquês, os desígnios, até mesmo o idioma, também se somam a exercícios pantomímicos como se a incógnita se fizesse presente como mais um personagem anulado por uma governança maior.

O tom “universal” graduado pelo texto e pela direção de Pv Israel evidencia uma guerra em que todos, inclusive o espectador, são cúmplices, mesmo cientes da ficção contida no espetáculo, que aborda uma nação sem título, mas longe de ser obviamente fictícia. O talentoso elenco responsável pela exposição da violência sugerida, composto por Ana Pinto, Hugo Grativol e Jacyara de Carvalho, veste o transfigurador figurino de Maria Hermeto e Herika Reis que os adapta à frieza das circunstâncias, revelando o limiar extremista que o ser humano consegue atingir, segundo o seu egoísmo instintivo de sobrevivência e animalidade social. O pictórico e docemente fatídico visagismo de Vanessa Andrea assume seu papel como parte integrante do ambiente cruel e brutal diante da angustiante face de si próprio. Minimalista e ríspida, a concepção cenográfica da Cia Bagagem Ilimitada abrange 360º da boca de cena do palco configurado para o formato arena, da Casa de Cultura Laura Alvim, deixa a plateia à beira de um mar de sangue ao desnudar os olhos curiosos do espectador com a iluminação e trilha sonora de Pv.

Compreenda-se assim, que a provocação causada pelo choque estético político que rompe o pensamento hegemônico tenta deletar os rastros das barbáries empreendidas em nome de uma ordem e de um progresso – "E o Mar já não Existe" deixa na praia a memória do sofrimento acumulado.

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