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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O Jornal – The Rolling Stone


Um alerta contra a opressão provocada pelos tempos sombrios que o mundo atravessa

O retrato aprofundado de uma família em um país onde a pobreza, a violência e a corrupção engessam uma acentuada desigualdade social, preservada pelo totalitarismo religioso, contaminado por forte desvio comportamental respaldado nos preceitos da fé Cristã. Breve descrição do conteúdo do espetáculo “O Jornal – The Rolling Stone”, nome dado ao periódico de 2010, circulante em Kampala, capital de Uganda, responsável pela publicação de nomes, endereços e fotos de pessoas tidas como homossexuais, fazendo valer as palavras da Bíblia Sagrada, mesmo que, em função dessa invasão de privacidade, aqueles considerados anormais pelos tementes a Deus, fossem levados ao extermínio. A alta voltagem do texto do jovem dramaturgo inglês, Chris Urch, serve como refutação aos acordos políticos ugandenses que proclama ser “um mau hábito” a orientação sexual diferente da conduta hétero.

A tradução do texto de Urch por Diego Teza acentua os olhares para os perseguidores preconceituosos que rotulam o indivíduo de orientação homoafetiva sob o codinome “Kuchu”. A essência denunciante do argumento de “O Jornal – The Rolling Stone” surpreende e estremece as bases da intolerância, em se tratando de um drama protagonizado por um núcleo cuja etnia tem sido alvo de discriminação e de preconceito ao longo da história. A produção ganha vulto em função da química resultante da direção de Kiko Mascarenhas associada à co-direção de Lázaro Ramos que lapidam todos os aspectos técnicos do espetáculo, perceptíveis a olhos nus, pelos mais exigentes espectadores e lhes empurram, goela abaixo, o drama moralmente complexo que vai além das reportagens do famigerado jornal. A atmosfera da sala de espetáculo, impregnada pela cultura afro, dá as boas-vindas ao público, através de um mágico ritual que se estende ao longo do espetáculo, composto pela aprofundada direção de movimento de José Carlos Arandiba – que enfatiza os paralelos do relacionamento entre a família e a sociedade, transformando-os em uma verdadeira caça às bruxas. A forte simbiose estruturada na concepção do desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros e na alusiva cenografia de Mauro Vicente Ferreira é materializada através de uma cenografia lumínica de cunho simbólico religioso que parte de uma mandala fisicamente definida pelo pó do qual todos vieram e ao qual todos voltarão, e pela marcante presença de pontos iluminados equidistantes em seu perímetro, como se alusivos ao Decálogo. Marcantes, a ascensora trilha sonora de Wladimir Pinheiro rastreada pelo genuíno groove africano, e o figurino étnico maculado pela cultura exótica concebido por Tereza Nabuco, demonstram o dilema crescente e trágico dos personagens diante do medo, externado pelo silêncio, pelo ódio, pela angústia e pelo inferno compartilhado com toda a plateia.

A humanização da produção fica sob a responsabilidade da doação de corpos e de almas do elenco composto por Danilo Ferreira, Heloisa Jorge, Indira Nascimento, André Luiz Miranda, Marcella Gobatti e Marcos Guian, como se transfigurados para uma dimensão cuja origem pertence a seus ancestrais primordiais. Impacto e saciedade por um grito contido na garganta das minorias é a promessa de “O Jornal – The Rolling Stone” a todos os espectadores que se permitem mergulhar no ciclo vicioso entre agentes e vítimas do preconceito e da intolerância presente em toda a sorte de núcleos, sejam eles sociais, políticos ou religiosos, como um alerta contra a opressão provocada pelos tempos sombrios que o mundo atravessa.




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